Faltavam poucos metros para o pelotão chegar à meta. Jan Tratnik já tinha vencido a batalha com Ben O’Connor mais de dez minutos antes, Rúben Guerreiro já tinha caído na classificação depois de ter liderado a corrida a certa altura e João Almeida estava prestes a terminar uma maratona de mais de seis horas a pedalar. Sempre na cabeça do pelotão, o ciclista português arrancou sozinho mas sempre resguardado pela equipa, surpreendeu os adversários mais diretos e roubou mais dois segundos a Wilco Kelderman, o principal perseguidor. No fim de mais uma surpreendente demonstração de força e capacidade, o jovem de 22 anos relativizou a situação.

Em A-dos-Francos não chega o apoio a João Almeida, agora todos pedalam pelo ciclista da terra

“Estava a sentir-me bem, por vezes a melhor defesa é o ataque. Foi o que fiz, tentei, porque não? Quando é íngreme assim, todos gastam energia. Jogo mental? Também, cada vez mais. Temos de ter as pernas, mas às vezes a cabeça é mais importante. Sei que não posso ganhar mais confiança do que isto, tem sido uma loucura para mim, agradeço à minha equipa, todos, vamos ver onde podemos ir. Próxima etapa? Sim, estou confiante, mas também preparado para o pior, tudo pode acontecer”, disse João Almeida, que à entrada para a 17.ª etapa do Giro, esta quarta-feira, vestia a camisola rosa pelo 14.ª dia consecutivo de competição.

A poucos dias e poucas etapas do fim da competição, a dificuldade começava a aumentar ainda mais. Não só pela exigência dos desafios diários mas pelo agravar do tal “jogo mental” que o próprio ciclista português admitiu esta terça-feira. E Kelderman, o holandês da Sunweb que é o principal candidato à camisola rosa de João Almeida, não teve grandes hesitações na hora de entrar nessa disputa psicológica. “Foi um dia longo e hoje não andámos muito rápido. Até teria agradecido se tivessem andado mais rápido, pois seria algo benéfico para mim. A subida não era muito longa, mas inclinada e explosiva. Sei que o Almeida tem essa explosão, mas no final de contas não é importante. O mais importante de tudo era passar bem este dia. Amanhã e depois teremos duas etapas muito difíceis. Perder dois segundos aqui não fará diferença, já que teremos ainda pela frente etapas acima dos 200 quilómetros com subidas bem longas. Isso será totalmente diferente”, explicou o ciclista de 29 anos, que desvalorizou assim o facto de estar 17 segundos atrás do português na classificação geral.

Esta quarta-feira, o Giro ligava Bassano del Grappa a Madonna di Campiglio, numa etapa muito dura de 203 quilómetros e muita montanha. O percurso incluía três contagens de montanha de primeira categoria, sendo que a última coincidia precisamente com a meta. Rúben Guerreiro, que esta terça-feira pareceu abdicar da disputa pela vitória na etapa para estar preparado para o desafio do dia seguinte, integrou-se desde logo num grupo de 19 fugitivos que se distanciaram do pelotão e passou em primeiro na contagem inicial de Forcella Valbona, amealhando os 40 pontos respetivos e recuperando, ainda que virtualmente, a camisola azul da montanha. Giovanni Visconti, que entrou para a etapa com a liderança da classificação de montanha, não ficou com nenhum ponto dessa primeira contagem e estava com dificuldades, seguindo no final de um pelotão onde também estava João Almeida.

Com mais de 100 quilómetros percorridos, o grupo de 19 fugitivos onde estava Rúben Guerreiro era liderado por Thomas De Gendt (Lotto-Soudal) e levava já uma vantagem de seis minutos e sete segundos para o pelotão. O ciclista português voltou a passar em primeiro na segunda contagem, em Monte Bondone, assegurou mais 40 pontos e cavou uma vantagem ainda mais confortável para Visconti, que esta quarta-feira não conseguiu sequer lutar pelas bonificações nas metas volantes. Na descida do Monte Bondone, Dario Cataldo atacou e destacou-se na frente da corrida, sendo acompanhado por outros seis ciclistas — incluindo Ben O’Connor, que depois de ter sido segundo esta terça-feira voltava a estar na cabeça de uma etapa. Rúben Guerreiro, nesta altura, começou a ficar para trás e já só conquistou um ponto no sprint intermédio, ficando depois de fora das bonificações da terceira contagem de montanha.

Nesta fase, o grupo da frente seguia com mais de sete minutos de vantagem para o pelotão, onde João Almeida permanecia e que entretanto absorveu Rúben Guerreiro, a poupar esforços com a garantia da reconquista da camisola azul. Lá à frente, Thomas de Gendt voltou a atacar e a assumir a liderança. O aproximar dos últimos 25 quilómetros trouxeram um intensificar do ritmo por parte da Quick-Step, a equipa de João Almeida, e em pouco tempo o pelotão ganhou cerca de dois minutos ao grupo dos 15 fugitivos.

Já a menos de 10 quilómetros, o grupo da frente começou a partir, por iniciativa de De Gendt mas com Ben O’Connor a destacar-se, e lá atrás foi a Sunweb de Kelderman a assumir a liderança do pelotão em conjunto com alguns ciclistas da INEOS. Nesta altura, o holandês começava a ensaiar um ataque à camisola rosa de João Almeida, que se levantou do selim e respondeu de imediato mas com o apoio de apenas um colega da Quick-Step.

O australiano Ben O’Connor, da Pro Cycling, venceu tranquilamente a etapa, depois de ontem ter terminado em segundo, e Hermann Pernsteiner (Bahrain-McLaren) e De Gendt fecharam o pódio. Atrás, cerca de cinco minutos depois, João Almeida garantiu a manutenção da camisola rosa e manteve as distâncias para os principais adversários ao passar na meta praticamente em simultâneo com Kelderman, Bilbao, Nibali e Fuglsang. O ciclista português vai então chegar ao 15.º dia na liderança do Giro, ultrapassou uma das etapas mais complicadas desta última semana de competição e mantém o sonho quando já só faltam quatro etapas para o fim. E o pódio, pelo menos o pódio, está cada vez mais perto.