Perante a situação precária da família portuguesa instalada nos arredores de Londres em “Listen”, a primeira longa-metragem de Ana Rocha de Sousa, quase apetece perguntar: porquê emigrar para outro país, se é para se ficar tão mal ou ainda pior do que no país de origem? Percebe-se que Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), que têm três filhos, pelo menos dois deles já nascidos em Inglaterra, a bebé Jessy e a menina do meio, Lu (que é surda e anda numa escola especial), já há algum tempo que se esforçam para se manterem à tona e conseguirem garantir um mínimo de condições de vida à família.

Bela faz limpezas, um trabalho claramente abaixo das sua habilitações (fala um inglês fluente) e origem social, e Jota está desempregado há algum tempo e o patrão deve-lhe dinheiro. Enquanto ele fica em casa, ela leva Lu à escola (onde chega cronicamente atrasada), não sem antes ter de recorrer a roubar alguma comida num pequeno mercado do bairro. E não têm dinheiro para mandar consertar o aparelho de audição da menina, que se partiu, muito menos para comprar um novo. A família já foi sinalizada pela Segurança Social inglesa, porque aguarda uma visita de um técnico desta instituição, que Bela e Jota pensam aproveitar para pedir apoio.

[Veja o “trailer” de “Listen”:]

Só que o técnico, quando aparece, vem acompanhado pela polícia, e levam as três crianças com eles, porque a escola detectou nas costas de Lu aquilo que parecem ser marcas de violência e que os pais não sabem explicar. Como se verá mais à frente, trata-se de um mal-entendido. Mas entretanto, a família está separada e as crianças, tão inesperada e bruscamente tiradas aos pais, foram metidas no sistema e deverão, também elas, ser separadas e mandadas para famílias de adopção, que em Inglaterra recebem dinheiro para o efeito (em Portugal, temos o extremo oposto: adoptar é um processo longo, penoso e minado de burocracia). Bela e Jota vão passar por um calvário inimiginável, enquanto tentam recuperar a custódia dos filhos que o Estado lhes arrancou.

[Veja uma entrevista com a realizadora no Festival de Veneza:]

Ana Rocha de Sousa baseou a história da fita não apenas num caso, mas numa série de casos de que teve conhecimento, passados em Inglaterra. E apesar de apresentar os argumentos de ambos os lados em causa, é óbvio que ela, e o filme, estão do lado desta família despedaçada por um sistema cuja lógica de funcionamento, inflexibilidade e zelo extremo posto na defesa dos interesses das crianças, conduz a situações dilacerantes, origina injustiças e faz com que erros de julgamento e mal-entendidos sejam muito difíceis – ou simplesmente impossíveis – de corrigir. 

“Listen” é um filme de um realismo social duro e áspero, que não tem espaço para sentimentalismos pingões nem para interlúdios reconfortantes, e a que estamos desabituados no cinema português. Emocionalmente arrasador, e de narrativa económica e desembaraçada (dura pouco mais de 70 minutos), tem como pivô dramático a pequena Lu (a expressivíssima Maisie Sly, que não ouve mesmo na vida real e já entrou numa curta-metragem oscarizada em 2018, “The Silent Child”), que apesar da sua surdez, é quem mais observa e mais percebe. A realizadora adopta por vezes o ponto de vista de Lu, até para nos mostrar a percepção auditiva que ela tem do mundo (o som é muito mais importante do que a música em “Listen).

[Veja uma cena do filme:]

No seu esforço para enfatizar o quão chocante é esta história, a delicadeza e a complexidade do tema das crianças tiradas aos pais e dadas à força para adopção, e as situações desumanas que um sistema como este acaba por criar, e para manter os espectadores firmemente do lado dos protagonistas, o filme tem lapsos de verosimilhança (os médicos que examinaram Lu na escola não percebiam logo a origem das estranhas marcas que a menina tem nas costas?) e de exposição (não fica bem claro se, nestes casos, a única ocasião que os pais têm para se defenderem é uma audiência em tribunal).

Ana Rocha de Sousa. “Quero fazer cinema de autor que chegue às pessoas. E quero fazê-lo no meu país”

Mesmo assim, e tudo considerado, “Listen”, que ganhou uma cesta de prémios oficiais (na secção paralela Horizontes) e não-oficiais no Festival de Veneza, é uma estreia muito promissora para Ana Rocha de Sousa.