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"Quero que se perceba que o 'Listen' foi um filme escrito em Lisboa, num quarto no Areeiro, com base numa família portuguesa emigrante, que passa por atrocidades num país estrangeiro", diz Ana Rocha de Sousa

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

"Quero que se perceba que o 'Listen' foi um filme escrito em Lisboa, num quarto no Areeiro, com base numa família portuguesa emigrante, que passa por atrocidades num país estrangeiro", diz Ana Rocha de Sousa

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Ana Rocha de Sousa. "Quero fazer cinema de autor que chegue às pessoas. E quero fazê-lo no meu país" /premium

O passado na televisão, o presente inconformado, o futuro do cinema e a verdade da adoção forçada. Entrevista com a realizadora de "Listen", que depois dos prémios em Veneza se estreia em Portugal.

Ana Rocha de Sousa tem 41 anos e entrou para a televisão com 17. Porque queria, ponto final. “Maiores de 20”, “Riscos”, “Médico de Família” ou “Jura” são algumas das séries televisivas em que participou. Tinha convicções, uma alma revoltada, um “lado indomável” e um desejo de trazer justiça ao mundo. Só que não chegava. A ambição de criança terminaria em 2006.

Licenciou-se em pintura pela Faculdade de Belas Artes em 2007, onde começa a experimentar tudo, do desenho à fotografia, passando pelo vídeo. É aí que percebe que precisa de “expandir”, de se estruturar e deitar cá para fora. Dá-se o click: afinal, não quer mais vestir a pele de outras personagens, interpretar os textos de outros, quer juntar todas as artes numa só, exprimir a sua liberdade, sem restrições. Três anos depois, vende a casa, arruma as malas e entra para o mestrado em Realização na London Film School. “Descobri que não tinha forma de exercer tudo o que queria aqui, a única forma de fugir pelo buraco da fechadura era ir. Achava que só existia possibilidade para mim lá fora. E ainda bem, tinha sido um tormento se não o tivesse feito”. E ainda bem, porque acaba de receber seis prémios no festival de Veneza que são também fruto dessa teimosia de não ter desistido.

Ana Rocha de Sousa premiada em Veneza: “Não estou só a contar uma história, estou a retratar a realidade das adoções forçadas”

Regressa a Portugal, já com curtas-metragens realizadas (“Minha Alma and You” ou  “Laundriness”, entre outras) é mãe e num quarto no Areeiro em 2016 começa a escrever o guião de “Listen”, filme que se estreia esta quinta-feira nas salas portuguesas. Começa também a trabalhar em design de interiores. Porque tempo é dinheiro e esse não aparece se ficarmos deitados na cama o tempo todo. Antes, foi amplamente criticada por ter sido jurada nos apoios do ICA em 2015. Quem vinha da televisão nunca poderia perceber o que é o cinema de autor, disseram-lhe. Sofreu aquilo que diz ter sido “um castigo” por ter escolhido um determinado percurso, que a faz — e vai fazendo — vaguear, bem ao centro, por dois mundos no cinema. De ter escolhido, dirão (e disseram) muitos, a fama televisiva que, mesmo nunca a tendo procurado, vai continuar a marcar o seu trajeto. Só que agora está em paz, tanto com o passado como com o presente. “Se há coisa que não se pode fazer na vida é mudar o passado. Queriam que não tivesse aquelas linhas no meu currículo. Quando percebo que nunca vou compreender quem pensa assim, é quando vejo que do outro lado também nunca vou ser compreendida”, conta nesta longa conversa com o Observador.

“Listen”, que tem Lúcia Moniz e Ruben Garcia como protagonistas, é uma coprodução inglesa mas é um filme português — e Ana Rocha de Sousa sublinha muito este “português”. É também a primeira longa de Ana Rocha de Sousa, traz-nos a história de uma família de emigrantes portugueses no Reino Unido que veem a Segurança Social retirar-lhe os filhos, que são depois adotados à força. É a dor que ninguém quer ter, mas que chega a casa de tantas outras famílias que a realizadora foi encontrando, depois de uma investigação intensa. No filme, a realizadora não toma partidos, decide ser neutra, porque há todo um mundo neste tema complexo onde Ana Rocha de Sousa não queria “vampirizar ninguém”. Juntar todas as histórias numa, sem deixar ninguém de fora, sabendo que a realidade “é muito mais agressiva” do que o seu filme. “Sou provocadora, mas não sou inconsequente. Mantive um distanciamento, debruçando-me sobre a verdade dos casos, com muito rigor, mas nunca precisando de colar um rosto de famílias. Se o abordasse de outra forma, isso iria virar-se contra elas”, conta.

Os prémios estão entregues, o filme está a percorrer várias salas. O longo caminho de Ana Rocha de Sousa fecha aqui um ciclo doloroso, mas que triunfou. É preciso ver e ouvir “Listen”. É preciso ouvir e ler Ana Rocha de Sousa, coisa que talvez não tenhamos feito antes, mesmo que a realizadora já soubesse o que queria. Agora quer “recolher”, despir-se da pele de protagonista que ganha prémios e anda nas bocas do mundo. Quer voltar para trás das câmaras. “Quero dar o lugar aos atores. Os filmes é que têm de falar por si e seguir o seu caminho”.

[veja aqui o trailer de Listen:]

Em “Listen”, a filha mais nova da protagonista, a Lu, é surda, e é, ao mesmo tempo, a personagem que observa com mais atenção o que se passa em seu redor. O percurso da Ana, desde a televisão até aqui, tem sido também um pouco de observação, porque nunca se insere propriamente no meio em que está. Isso faz com que se sinta mais sozinha, estando num meio entre dois mundos?
Faz. O lugar do meio é onde sentimos que somos efetivamente o barco à deriva. Porque quando se olha para um lado e para ou outro, percebemos que há muitos marinheiros. Ali no centro temos uma barcaça que lá vai indo e que um dia até pode chegar a terra desconhecida.

Entre o filme e as entrevistas que tem dado, por vezes dá a ideia de revolta, de desconforto, mas na verdade parece estar em paz.
Tento dizer logo o que me vai na alma. Não quer dizer que não me indigne e que não existam coisas que me surpreendam ainda. Mas vivo bem com isso. Ao dizer e não levando nada para casa, acabo por descarregar mochilas. Se não, ficamos sempre a carregar pesos que não são nossos. É uma luta que já não é minha. Quando me deparei com tudo isso foi muito doloroso, por tudo o que tinha investido em tempo, trabalho e dinheiro. Pensei: “meu deus, talvez nunca seja possível”. Porque se há coisa que não se pode fazer na vida é mudar o passado. Queriam que não tivesse aquelas linhas no meu currículo. Não faz com que as não queira ter, mas sim que tenha de perceber a cabeça de alguém que fica indignado com o meu percurso. Quando percebo que nunca vou compreender, é quando vejo que do outro lado também nunca vou ser compreendida. A parte que me cabe a mim é entender os outros da forma mais sincera possível. Independentemente de me atirarem pedras ou tentarem dizer algo sobre mim ou sobre o meu trabalho, tenho feito este exercício profundo de justiça. Não é só no filme. É transpor isso para a vida. Quem me conhece, sabe que sempre fui um espírito indomável. Era aquela pessoa que dizia tudo e depois não apaziguava.

Mesmo quando entrou para a televisão?
Também. Sou inquieta por natureza. Acho que convém manter esse lado, desde que não seja disparatado, que saia de forma adolescente. Vivi tudo isso na idade certa. No Colégio Moderno, onde estudei, era uma irreverente e uma revoltada. Juntava pessoas para manifestações.

Contra o quê?
Lembro-me disso por causa das provas globais da altura. Movi mundos e fundos, juntei grupos, as aulas ficavam vazias, fui suspensa e castigada um dia ou dois. Coisas assim. E há outras que não posso contar…

Esse lado vem de onde?
Não sei, nasceu comigo.

Deduzo que não seja do pai, que é juiz.
O meu pai é das regras, do rigor, da calma, da força e do empenho. Não é tanto da irreverência, até é algo que o baralha, colidíamos na altura.

Mas foi aquela rapariga revoltada com os pais que fugia de casa?
Não. O cliché da revoltadíssima? Não, não. Tinha um lado certinho. Era mais uma revolta de chegar aos 17 anos e querer fazer televisão. Os meus pais pensarem que se fossem contra isso não ia correr bem.

"A falta de liberdade de um ator normalmente é grande, a todos os níveis. Um ator veste e despe roupa variadíssimas vezes por dia. Temos de emprestar o corpo às personagens. Se alguém decide que tenho de ter uma determinada característica visual, a determinada altura, é muito desgastante, quando há regularidade."

É filha única?
Tenho um irmão mais velho. Apoiaram-me muito, mas tive sempre a comparação com o meu irmão, sem querer passar aqui uma imagem errada, mas ele era o genial. É, aliás. Dedicou-se aos livros, ao trabalho, é uma cabeça incrível. A mim diziam-me: “O que é que estás a fazer? E a vida?”. Tinha muito esse lado. Isto para dizer que essa paz foi conquistada ao ir-me embora. Na televisão também tive esse lado indomável, quando achava que algo estava errado, tomava uma posição. Fui atrás das minhas convicções e certezas.

Acreditava que ser atriz permitia-lhe levar essas convicções mais longe?
Achava que era fascinante esse lado do ator viver várias vidas, e que é absolutamente verdade. Proporciona-nos quase catarses constantes com o que nos acontece, o que vai acontecendo e o que ainda não aconteceu. Só que há um momento em que começo a viver essas vidas todas, a ter essa dedicação e a ter a sorte de fazer várias personagens, em que colido com a falta de liberdade.

Como é que essa falta de liberdade se manifestava?
A falta de liberdade de um ator normalmente é grande, a todos os níveis. Um ator veste e despe roupa variadíssimas vezes por dia. Temos de emprestar o corpo às personagens. Se alguém decide que tenho de ter uma determinada característica visual, a determinada altura, é muito desgastante, quando há regularidade. Não era só por isso, é um acumular de coisas, a vivência na rua, saberem quem somos…

A exposição.
Sim. Até com aquilo que dizia. Até as palavras que digo eram escritas por alguém. Não deixo de querer ser atriz, nunca deixei de estar disponível para emprestar o meu corpo, mas comecei a sentir que a minha liberdade ali já estava toldada. Senti que precisava de mais.

Começou a sentir-se encurralada.
Porque percebi que precisava de expandir. Sobretudo quando começo na Faculdade de Belas Artes, na fotografia, no vídeo, a experimentar, que foi algo que fui sempre fazendo. Mas quando percebo que existe uma plataforma… plataforma é uma palavra horrível, não vou dizer.

É verdade, está na ordem do dia.
Quando percebo que existe uma arte que é a conjugação de todas as outras é quando acordo para a vida. Percebo que é aqui que tenho de estar porque sempre gostei de desenhar, pintar, estruturar, ter ideias, escrever. Tudo junto, incluindo a pintura, as artes plásticas e a construção de cenários. Até já trabalhei na decoração de casas, mesmo não sendo designer, estruturando o interior.

"Listen" conta a história de uma família de emigrantes portugueses no Reino Unido a quem são retirados os filhos, que são depois adotados à força

Por passatempo?
Não, não. E nem foi assim há tão pouco tempo. Foi já depois de ter voltado, quando percebi que ia demorar muito tempo para fazer esta primeira longa. Trabalhei em diferentes casas. Fui profundamente feliz, tinha toda a liberdade de o fazer como queria e gostava.

Como é que imaginava essas casas? Como um cenário?
Como um projeto. As Belas Artes e a London Film School trouxeram-me essa estrutura de projetos com princípio, meio e fim. Seja montar uma casa, estruturar uma exposição, fazer um filme. Aquilo que precisei foi aprender o método.

Aprendeu-o em Londres?
Nas Belas Artes. Aprendi a estruturar de mim para fora. Coisas que são minhas e que me pertencem. Depois, quando descubro que não tenho aqui forma de exercer tudo isso, que começou a ficar limitativo, a única forma foi fugir pelo buraco da fechadura e ir.

Mas quando foi estudar para Londres, sabia que ia voltar?
Sim.

Tinha objetivos definidos?
Achava que só existia possibilidade para mim lá fora. E ainda bem, tinha sido um tormento se não o tivesse feito. E fui, independentemente do que poderia acontecer ou não. Escolhi uma escola inequivocamente boa. Entrei em todas as que me candidatei. Mas aquela era a que queria e foi a última em que fiquei a saber que tinha entrado. E quando soube, sabia que só podia ir se vendesse a minha casa porque era caríssimo. Não ganhei um tostão lá a trabalhar, porque vivi e estudei no Reino Unido. Trabalhei enquanto estudante a pagar. Para respirar, paga-se.

Houve algum momento em que pensou que estava a ser demasiado e que iria voltar a Portugal?
Não… quer dizer, fui já numa idade avançada. Houve momentos em que me deparei com pessoas mais novas, num grupo de trabalho, e sentia que havia ali alguma inconsequência ou inconsciência. Isso chateava-me, porque não estava ali para brincar.

“Listen” ganhou seis prémios em Veneza. Os elogios e o contentamento foram generalizados. Mas há sempre alguma dúvida sobre o efeito que os prémios podem ter na realidade do cinema português. Ainda para mais numa altura em que discutem alterações à lei do financiamento, em que se pondera qual o modelo que deve ser seguido para taxar, ou não, as plataformas de streaming…
Deixe-me só dizer uma coisa em relação à lei do cinema. Tem tudo a ver menos com questões de conteúdo, ou cinema de autor ou cinema comercial. Posiciono-me no meio, porque existe uma tentativa de manipular a discussão para outro assunto. Estamos a falar em termos legais, ponto final. Como sistematizar as coisas. É uma questão técnica, não tem nada a ver com conteúdos. Só entramos aí quando pensamos nas consequências. Mas tentar fazer disto um cavalo de batalha relacionado com conteúdos é um erro. Ninguém discute o conteúdo dos meus impostos. Para onde vai o dinheiro que me cobram dos impostos? Não é meu, é parte pública do dinheiro que ganho. O mesmo se passa aqui. O dinheiro é do Estado e é quem tem de decidir. O Estado, em relação ao cinema, é absolutamente responsável por entregar essas funções ao Instituto do Cinema e Audiovisual [ICA]. Nem sequer entendo como é que alguém pode ter uma visão que seja diferente disto. Isto não tem nada a ver com gostar de cinema de autor ou comercial.

As pessoas estão a ser… não posso dizer esta frase. Estão a ser convencidas sobre coisas que, na realidade, estão relacionadas com interesses próprios. Ou seja, existem duas cartas, ambas absolutamente opostas. Assinei uma delas, que se aproxima mais ao meu raciocínio.

"Porque é que se pensa em retirar a supervisão do ICA? Se há coisas erradas com o instituto, resolvam-nas. Se o setor está infeliz, resolvam através do instituto. Substituam, mudem, reformulem. Façam o que entenderem, não inventem. E há uma transferência perigosíssima de poder."

Qual foi?
A carta pelo cinema de autor. Porque isto não é uma oportunidade para ninguém. É isto que não consigo compreender. Todas as pessoas, incluindo as que assinaram a outra carta, vão-se arrepender se isto for para a frente. Vai rebentar com todos, não é só com o cinema de autor. Porque se for assim, para que é que existe o ICA? Depois, quantas televisões vão surgir, aliás, eu própria posso ir perguntar ao Estado se não posso pegar no dinheiro dos meus impostos e dizer-lhes que não me apetece pagá-los mais, porque não é preciso. Em vez de lhes dar esse dinheiro e fazerem o que acham que devem fazer, vou investir naquele artista que acho que merece.

Mas a diretiva aponta dois caminhos: o de investir diretamente em produções ou o de taxar as plataformas, como os canais televisivos são taxados.
Exato, podem escolher. E vão escolher o quê? É preferível investir no meu filho, que até está a experimentar umas coisas. Vão dizer: “oh Manel, olha aqui este dinheiro, que até era dos impostos, toma, leva”. Porque é que se pensa em retirar a supervisão do ICA? Se há coisas erradas com o instituto, resolvam-nas. Se o setor está infeliz, resolvam através do instituto. Substituam, mudem, reformulem. Façam o que entenderem, não inventem. E há uma transferência perigosíssima de poder.

Dentro da Europa há vários países também a discutir esta lei.
Cada país é um país. Nós somos muito pequenos e com características específicas. Se falarmos do funcionamento deste meio em relação a outros países, vão ficar completamente escandalizados com o que se passa aqui. Temos de ter atenção a essas dinâmicas. O cinema português tem uma história absolutamente incrível e, quer se goste ou não, deve-se a um instituto do cinema. Ao trabalho feito com base em todos esses parâmetros. O que é mais importante na carta é que isto não faz o menor sentido. A diretiva não pode passar, destrói efetivamente o cinema. Não interessa se é o meu olhar, do Miguel Gomes ou do Pedro Costa. É o olhar de todos nós.

Também não lhe interessa se é o olhar de quem esteve contra a Ana quando foi júri do ICA há seis anos, algo que causou muita polémica?
Não. E que continuam contra mim. Assino ao lado dessas pessoas que me atiram pedras, que chegam ao parlamento e dizem atrocidades sobre o meu filme, que levantam questões sobre a nacionalidade do meu filme. Isso indigna-me a sério. É como se alguém estivesse a dizer: “Olha tu não és portuguesa porque falas inglês”. Dá-me vontade de responder com dois palavrões, mesmo sendo uma pessoa que até é bem educada. Não se faz a ninguém. No dia em que chego a Inglaterra, deparo-me com a Paula Rego a ser considerada “artista inglesa” em todas as capas. Hoje sei porquê. Gostava imenso que não me acontecesse o mesmo.

"Lido com os atores com profunda liberdade. O ator está primeiro. É essa espontaneidade que procuro"

Porquê?
Porque é impossível, a partir de um determinado ponto, lidar com este tipo de disparates. Não se faz. Quero que se perceba que o “Listen” foi um filme escrito em Lisboa, num quarto no Areeiro, com base numa família portuguesa emigrante, que passa por atrocidades num país estrangeiro. As pessoas têm de perceber as consequências daquilo que dizem. Porque o que estão a negar é inclusivamente a nacionalidade destas famílias. Das que vivem em Londres e falam inglês, como se fosse uma realidade que não nos diz respeito.  Quando se passa a falar outra língua deixa-se de ser português? Não há a menor dúvida de que o meu filme é português. Estas pessoas sabem-no.

Sendo assim, qual o objetivo de fazer afirmações dessas?
É existirem filmes que podem ser ou não candidatos portugueses a um Óscar. É esse o objetivo. Quero que as pessoas percebam que é preciso escolherem um filme em que acreditam. Seja o meu ou outro qualquer. Não é por estarem a ser influenciadas por ideias que são estapafúrdias e disparatadas. Este filme foi pago pelo ICA, pela RTP. O primeiro apoio que existe sou eu sozinha com um guião que candidato ao ICA, escrito num quarto no Areeiro, gosto de repetir esta frase…

Qual foi a particularidade de ter escrito aí?
Era onde estava a viver com a minha família.

Mandou muitos rascunhos para o lixo?
Foi visceral. Quando começo a mergulhar naquela realidade, mergulho, mergulho…

Já tinha trabalhado em documentários… porque é que decidiu trabalhar em ficção?
Antes de ir para a London Film School, fiz um trabalho documental com um miúdo, o Rafael, que estava muito doente. Acompanhei a família, aprendi muito nesse processo. Gosto imenso de documentários, existe nesse universo um fascínio grande, mas também é preciso ter um distanciamento que dificilmente tenho. Fazer um filme na tentativa de ajudar alguém e não o conseguir é uma coisa quando é ficção, é outra quando estamos a falar de alguém em específico. Por isso é que não o fiz. Para não lhes falhar e para não me sentir a vampirizar ninguém. Este filme, se há coisa que não faz, é vampirizar ninguém. Porque mantive um distanciamento, debruçando-me sobre a verdade dos casos, de uma forma muito rigorosa, mas nunca precisando de colar um rosto de famílias. Ainda assim, espero que essas famílias se sintam retratadas e que o filme as possa ajudar de alguma maneira.

Já teve reações de alguém de um caso como o que vemos no “Listen”?
O filme foi selecionado para Veneza e começámos a receber emails de casos. A nossa postura é: não vamos por aí. É aí que o meu filme não é panfletário. Pretende retratar aquela realidade, pretende ser uma denúncia, mas não vou além disso. Gostava que a lei mudasse lá, isso sim. Que tantas famílias inocentes não fossem inseridas em bolas de neve como a que o filme apresenta. São muitas. Mas não sinto que um filme português tenha essa força se não for representado no mundo. Veneza é o momento em que me apercebo que o “Listen” pode fazer qualquer coisa por alguém.

"O meu grande objetivo é e sempre foi conseguir que o meu cinema não deixe de ser de autor e chegue às pessoas. Sei que é difícil, mas que é possível. Vou conseguir, seja onde for. Onde me permitirem fazer. Quero que seja no meu próprio país."

As imagens também podem servir para chocar. Para ter uma reação forte.
Sou provocadora, mas não sou inconsequente nem inconsciente. Sei que é um tema que se fosse abordado dessa forma, iria virar-se contra as próprias famílias que passam por isto. Não podia fazer isso, há demasiados casos a acontecer, demasiados erros a acontecer. Seria um insulto tratar o tema de uma forma leviana e errada.

E o maior obstáculo?
Foi Inglaterra. Porque é difícil o país aceitar este tema de um ponto de vista de uma portuguesa. “Quem és tu para vir falar do meu sistema?”

Em que situações sentiu mais essas tensões?
Com pessoas que tiveram medo de agarrar o filme. Sabem que as situações retratadas no filme acontecem, mas não se querem meter nisto porque têm medo. Senti de várias formas que o país me abraçou e me abraça, mas em relação a este assunto “é melhor não”. Têm muito interesse, mas respondem-me que é complicado. A dificuldade foi arranjar a coprodução. Foi difícil encontrar a coragem para o fazer.

Se lhe aparecer uma Ana Rocha de Sousa num filme seu, como é que vai lidar com ela?
É simples: lido com os atores com profunda liberdade. O ator está primeiro. Isso vê-se nas cenas altamente tensas e dramáticas. Não houve nenhum bloqueio da minha parte, e aqui é mesmo no sentido literal, houve sempre liberdade. É essa espontaneidade que procuro. Vem, de alguma maneira, da escola inglesa. Vem de um Mike Leigh, são os atores que constroem o guião. Não fui tão longe porque não se pode ir numa primeira longa metragem. Além de que esse é o método dele e não implica que seja o meu. Quero manter essa liberdade quando sei que é verdadeiramente importante. E aqui é grande parte do tempo porque é um filme de pessoas para pessoas. Apoia-se na interpretação de atores.

O filme estreia-se numa altura complicada nas salas de cinema. Os portugueses já estão a levar murros no estômago nas finanças, na vida em geral…
Sim… Já temos sessões esgotadas e o filme ainda não estreou. Isso dá-me esperança. Não quero agredir ninguém, mas quero denunciar, não o nego em momento nenhum. Apelo para que as pessoas vão ao cinema em geral. Fico contente que as pessoas estejam interessadas em ver o “Listen” e que isso se traduza nas salas.

Tem recebido “parabéns” de todos os lados, depois de um passado mais atribulado e criticado. É importante que esta onda de reconhecimento aconteça, mesmo que possa não ser habitual?
Não acho que faça um cinema que se possa distanciar do público. Também não acho nada que o meu cinema seja comercial. Esse é o primeiro grande equívoco e embate contra uma parede, de quem acredita que por ter feito coisas em televisão, trabalhos meus sejam reflexo disso. O meu grande objetivo é e sempre foi conseguir que o meu cinema não deixe de ser de autor e chegue às pessoas. Sei que é difícil, mas que é possível. Vou conseguir, seja onde for. Onde me permitirem fazer. Gostava que o permitissem no meu próprio país.

"Levantei voo, agora hei de pousar. Quero, com muita brevidade, voltar ao meu mundo, porque foi difícil de construir e conquistar. Quero mesmo recolher"

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Acredita nisso? Ou foi preciso ganhar estas distinções?
Foi-me atribuído um subsídio quando ainda não tinha estes prémios. Nem sequer tinha um grande produtor na altura. Há portas que agora se abrem, a partir do momento em que acontece o que acontece em Veneza. Mas já tinha um caminho traçado mesmo sem os prémios. Espero que me tornem o caminho menos agridoce. Só que se calhar sou só eu, outra vez, a ser ingénua. Porque há muitas portas a abrirem-se no mundo, mas cá talvez sinta diferenças, mas não sei precisar até onde vão. Em relação a Portugal, senti-me profundamente abraçada. Senti-me um bocadinho Cristiano Ronaldo, apesar de o dizer com graça. Tenho medo que apareça alguém a dizer que tenho a mania. Não é nada disso.

O que é que a Ana que começou a trabalhar em televisão aos 17 anos diria se soubesse que realizaria um filme amplamente premiado?
Aos 17 anos não tinha dúvidas. Essas foram surgindo ao longo da vida. Aquilo que aquela Ana me diria era: nunca duvidei de ti. Mas depois mais tarde isso não foi verdade. Quanto muito, seria olhar agora para ela e dizer-lhe: cuidado para onde vais. Vê bem onde pões os pés. O mais importante é conseguir continuar, seguir a visão e ir fazendo. Levantei voo, agora hei de pousar. Quero, com muita brevidade, voltar ao meu mundo, porque foi difícil de construir e conquistar. Quero mesmo recolher.

Porque está a voltar outra vez à exposição mediática?
Pois. Quero mesmo recolher. Estar atrás das câmaras e dar o lugar aos atores. Os filmes é que têm de fazer o caminho.

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