Adelaide Pereira trabalha no setor da restauração há mais de 40 anos e admite “ter chorado” quando, este sábado, o Governo anunciou as novas medidas do estado de emergência, sobretudo com a novidade do recolher obrigatório nos próximos dois fins de semana a partir das 13h. “Estávamos a tentar caminhar e cortaram-nos as pernas novamente“, lamenta ao Observador, enquanto vê (e ouve) a Avenida dos Aliados com cada vez mais carros a buzinar, em protesto, às 8h da manhã. O setor da restauração organizou esta segunda-feira uma manifestação no Porto e o apelo foi repetido várias vezes: “Deixem-nos trabalhar, temos contas para pagar”.

Entre proprietários e funcionários de restaurantes, do Porto até Aveiro, houve faixas de protesto contra as decisões do Governo e uma mesa apresentada em plena Avenida dos Aliados com um prato, pão, talheres e água, uma imagem simbólica do estado do setor com as novas medidas, segundo os empresários, e uma alusão ao título do protesto: “A pão e água”. Os manifestantes dizem compreender que tenham de ser tomadas medidas para evitar o aumento de novos casos de Covid-19, mas argumentam que essas medidas têm de ser acompanhadas de algum apoio que evite o encerramento de vários estabelecimentos.

Na Avenida dos Aliados, os manifestantes montaram uma mesa com um prato, pão, talheres e água, para refletir como o setor diz estar com estas medidas

“No início deste ano achámos que tínhamos tudo para ter um ano muito bom, mas começou muito complicado. Tivemos um confinamento geral e quando deveríamos ter mais apoios para aliviar alguma carga fiscal, pagar ordenados e não lançar as pessoas para o desemprego, sábado à noite caiu a bomba e a restauração fica numa situação ainda mais complicada“, explica Álvaro Costa, cozinheiro e um dos dinamizadores desta iniciativa, acrescentando que o mais problemático foi “retirarem os clientes da porta”.

Aquilo para que queremos alertar não está nada contra o que é necessário para evitar que a pandemia se alastre cada vez mais. Queremos apenas que se reverta um bocadinho as medidas, que se criem algumas janelas de oportunidades para a restauração poder trabalhar um pouco mais”, sublinha Álvaro Costa ao Observador.

A maior parte dos manifestantes presentes na Avenida dos Aliados criticou sobretudo a medida do recolher obrigatório aos fins de semana, uma vez que são os dias de mais movimento no negócio. Foi o caso de Hugo Sousa, cozinheiro no Hotel Dom Henrique, que encerrou temporariamente no início deste mês devido à pandemia. O turismo, diz, desapareceu e sobra o “pouco cliente da cidade” que, “depois da sua semana de trabalho consegue vir desfrutar da restauração ao fim de semana”. “Agora já não compensa abrir à hora de almoço de sábado, ao sábado à noite estamos completamente fechados e ao domingo a mesma coisa. Não faturamos nos melhores dias da semana“, lamenta.

Hugo Sousa deixa ainda um alerta: “Cada vez mais a bola de neve vai aumentar. Não passa só pelos que trabalham na restauração, mas tudo o que está por detrás: fornecedores, outras empresas que trabalham diretamente connosco vão deixar de vender, vão baixar as suas faturações, vão dispensar pessoal, vai haver uma quebra muito grande”. Ao mesmo tempo, atira, “as contas continuam a chegar todas normalmente, porque não facilitam em nada”.

A manifestação estava agendada para esta segunda-feira na Avenida dos Aliados, no Porto

O protesto desta segunda-feira foi organizado através das redes sociais e ao final da manhã contava com cerca de 60 pessoas. Pedro Maia foi um dos organizadores da iniciativa e explicou à agência Lusa que os empresário querem “deixar claro” que, “ao contrário da imagem que o Governo está a passar, os restaurantes não são o centro do contágio”, exigindo conhecer “as estatísticas em que o Governo se baseia para decretar as medidas anunciadas”.

Pedro Maia refere ainda que os trabalhadores aceitam que os restaurantes tenham de encerrar mas, para isso, acrescenta que é necessário haver apoios suficientes para garantir que as portas não fecham defenitivamente. “Querem-nos fechar? Fechem. Mas façam como a Alemanha: 70% da faturação de apoio, perdoem-nos a Segurança Social, deem-nos lay-off, ajudem-nos a pagar as rendas. Nós não queremos mais nada. Queremos que esta gente não vá para o desemprego”, explicou em declarações aos jornalistas.

A manifestação foi organizada depois de o Governo ter anunciado medidas mais restritivas para os 121 concelhos mais afetados pela pandemia de Covid-19. Entre as medidas anunciadas está o recolher obrigatório entre as 23h e as 5h durante a semana e ao fim de semana a partir das 13h, sendo apenas possível para os restaurantes a partir dessa hora fazer entrega de refeições ao domicílio.