Abriu portas há quase três semanas e tem recebido uma média de 10 doentes positivos à Covid-19, que quando recuperam abandonam o local. O primeiro centro de retaguarda para doentes Covid-19 do país fica no Seminário do Bom Pastor, em Ermesinde, no distrito do Porto, tem capacidade para acolher até 80 utentes e conta com mais de 20 profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros e auxiliares de ação médica, contratados pela Segurança Social através da Cruz Vermelha Portuguesa.

O objetivo? “Descongestionar a pressão sentida no Serviço Nacional de Saúde”, sublinha Marco Martins, presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil. Até agora, este centro de retaguarda já viu chegar doentes do Hospital de São João, Santo António, Gaia/Espinho e de Penafiel e caso o número de camas ocupadas aumentem, a equipa técnica terá também que alargar.

Stephanie Leitão, responsável pela equipa de auxiliares de ação medica do centro, conta que na fase inicial o mais complicado foi adaptação ao espaço, mas que atualmente o maior desafio é mesmo “segurar” profissionais. “As pessoas não têm a noção que vão para uma área de saúde que requer muitos cuidados da nossa parte. Quem vem para cá, tem de ter a consideração de que está a trabalhar com doentes que precisam do nosso apoio, disponibilidade. A maior parte da equipa não está a ficar mesmo por isso, não assume o cargo de apoiar os doentes nas suas necessidades”, refere.

Centro tem capacidade para acolher até 80 utentes e conta com mais de 20 profissionais de saúde

Após um período de integração e de formação, a auxiliar recorda que “muita gente não se adapta” a esta atividade, pelo menos cinco elementos já ficaram pelo caminho, e a parte emocional é a mais difícil de gerir”. “O nível emocional também poder interferir, ao virem para cá, têm que ter consciência de que vão apanhar de tudo um pouco e alguns utentes podem sensibilizar um pouco mais. Não é qualquer pessoa que tem o estômago para encarar o dia a dia, porque hoje um doente está muito bem e amanhã pode estar mais frágil e se estivermos mal, não podemos passar isso para o doente.”

Se no piso térreo moram as zonas comuns, como o refeitório ou a capela, no piso 1 estão os quartos com até 8 camas e balneários masculinos e femininos. “Geralmente os que aqui chegam sem sintomas vão para as camaratas, mas temos quartos com apenas uma cama para doentes que necessitam de oxigénio”. A maioria dos doentes têm mais de 50 anos, já têm antecedentes clínicos e outras doenças associadas, sendo por isso pacientes “mais frágeis”. “É um doente mais frágil, que já vem debilitado, muitos são apanhados pelo vírus de repente e requerem muita atenção, pois vão-se muito a baixo. A parte emocional é a mais importante, é o que os ajuda a manter a força.

Durante a visita ao espaço, Marco Martins, presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil e autarca de Gondomar, adiantou que o distrito do Porto tem mais duas estruturas preparadas para serem ativadas “em poucas horas”, faltando apenas a contratação de pessoal. À semelhança do que irá acontecer na pousada da Juventude do Porto, em Santo Tirso, num antigo mosteiro, existem 30 camas disponíveis para acolher pessoas com teste negativo à Covid-19, que necessitem de ser separadas de outras, dentro do mesmo núcleo familiar ou instituição, que testassem positivo à infeção pelo novo coronavírus. Já em Paços de Ferreira, no antigo hospital da misericórdia, será possivel acolher 35 doentes positivos que não necessitem de cuidados hospitalares e que não encontrem condições para recuperarem nas suas casas.

Lacerda Sales: Tâmega e Sousa foi “aprendizagem” e país está preparado para o pico

Depois de ter reunido com o Agrupamentos de Centros de Saúde do Porto-Ocidental, António Lacerda Sales aproveitou a visita ao Porto para conhecer o novo centro de retaguarda distrital. À chegada, confrontado com o aumento de casos a Norte e os hospitais da região sob pressão, o Secretário De Estado Adjunto e da Saúde admitiu preocupações, mas garantiu plano de preparação para esta altura do ano.

António Lacerda Sales aproveitou a visita ao Porto para visitar o novo centro de retaguarda distrital

“Todos os hospitais no país, e não só no Norte, estão sob pressão, o que é para nós um motivo de preocupação. As taxas de ocupação são similares às taxas dos dias anteriores, em enfermaria entre os 75% e os 80% e nas unidades de cuidados intensivos entre os 70% e 80%. Nunca esquecer que temos um rede expansível e elástica, entre hospitais e unidades de cuidados intensivos e, quando há necessidade, podemos transferir doentes de um local para outro. Esta expansibilidade da rede dará, com certeza, resposta às necessidades dos nossos doentes.

Sobre o cenário vivido no Hospital Padre Américo, em Penafiel, o caso mais alarmante de falta de espaço e profissionais de saúde para responder a todos os casos daquela região, Lacerda Sales afirma que é “uma aprendizagem” para o futuro. “O Tâmega e Sousa é uma experiência que nos leva a uma grande aprendizagem, em que tivemos que transferir vários doentes para diversas instituições, tanto no setor privado como social. Essa aprendizagem foi muito importante e replicaremos ao nível de outros hospitais se assim houver necessidade.”

O Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa já transferiu mais de 300 doentes para outros hospitais, tanto públicos como privados, e, segundo o secretário de Estado, é algo que vai continuar a acontecer. “Temos feito transferências para outros hospitais do SNS e também realizado transferências para o setor privado, como é o caso do Hospital Fernando Pessoa, que tem neste momento mais de 43 doentes já instalados. Estamos com acordos de adesão com outros grupos privados, com a CUF e os Lusíadas, e, claro, com o setor social. Penso que todo o sistema está integralmente a funcionar, o setor público e setor social e o setor privado.

Penafiel. Mais de 300 infetados foram transferidos, mas o hospital está de novo “sob pressão”

Sob pressão estão também os centros de saúde — os cuidados de saúde primários são considerados a porta de entrada do Serviço Nacional de Saúde. Neste universo, o Secretário de Estado admite que o facto de alguns inquéritos epidemiológicos estarem em atraso e de vários profissionais de saúde se encontrarem infetados ou em isolamento profilático “obriga a reorganizações no serviço”, algo que, garante, “está a ser feito”.

António Lacerda Sales deixa, porém, claro que a preparação existiu e vai continuar a existir. “Não consigo dizer quando estaremos no pico, certo é que estaremos preparados para o pico, estamos a preparar os nossos serviços hospitalares, os nossos Agrupamentos de Centro de Saúde e estruturas de retaguarda”, sublinhou.

A garantia que nós podemos dar é que nunca parámos de nos preparar. Tal como o vírus não tirou férias, nós também não tirámos férias e, por isso, fizemos um plano de preparação, um plano de outono-inverno, que contemplava estas estruturas de retaguarda e estamos a continuar a preparar ao nível das instituições hospitalares, ao nível da nossa capacidade de testagem, ao nível da nossa capacidade de ventilação. Essa é garantia que posso dar aos portugueses.”

Existem 30 camas disponíveis para acolher pessoas com teste negativo à Covid-19

Secretário de Estado não se compromete com prazos para apurar surto de legionella no Norte

Nos últimos 15 dias, contabilizaram-se 53 casos e seis óbitos devido a um surto de legionella em Vila do Conde, Matosinhos e Póvoa de Varzim. Aos jornalistas, António Lacerda Sales revela que a origem do surto ainda está a ser apurada e não se compromete com prazos nem conclusões. “Estamos a recolher análises de água em torres de refrigeração de diferentes espaços, das águas de consumo e também das secreções de doentes para verificar se as estirpes de legionella são as mesmas ou não. São colheitas que estão a ser feitas e que estão a ser dirigidas pelo INSA [Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge] e depois mais tarde tiraremos as nossas conclusões.

Sobe para seis o número de mortes devido ao surto de legionella no Norte

Lacerda Sales recusa comparar doenças, admite que é mais um motivo de preocupação no norte do país e pede que a população esteja atenta. “É preciso distinguir as situações. A população do norte e de todo o país tem de estar sempre alerta a surtos, como este da Legionella ou situações de pandemia. Vivemos em comunidade, temos de estar sempre atentos. Não podemos viver permanentemente debaixo do medo desses surtos, pois temos a nossa vida social e económica, mas temos de estar muito atentos.