Augusto Baganha, antigo presidente do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), acredita que as buscas da PJ na sede da entidade estatal podem ter estado relacionadas com as realizadas no Estádio da Luz no mesmo dia, no início da semana passada. Em entrevista ao programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador reiterou ainda o facto de ter sentido “pressões” ligadas aos encarnados enquanto liderava o IPDJ, algo que já tinha afirmado em audição parlamentar.

“A Justiça tem uma estratégia de ação e atuação e presumo que isso pode ter acontecido, pode ter acontecido aqui um juntar, por assim dizer, de vários processos. Pode ter acontecido, a Justiça ter essa perspetiva. Mas não sei, isso é uma questão que devia ser posta e colocada aos responsáveis da Justiça. Eu presumo que possa ter acontecido. A Justiça tem o seu funcionamento próprio e espero que tudo fique devidamente esclarecido a bem de todos aqueles que encaram esta atividade desportiva de uma forma verdadeira e de uma forma verdadeiramente ética”, explicou Augusto Baganha, que confirmou que “tinha a noção de que a Justiça ia atuar” e que olhou para as buscas no IPDJ com “enorme contentamento”. “Aquilo que me moveu, sobretudo na denúncia daquilo que se passou, foi conhecermos a verdade dos factos”, acrescentou, recordando as alegações que fez há cerca de dois anos e que envolviam alegados favorecimentos de Vítor Pataco, seu vice-presidente e agora sucessor, e João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto, ao Benfica.

[Ouça aqui a entrevista completa de Augusto Baganha à Rádio Observador:]

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Sobre este último, Augusto Baganha comentou ainda uma notícia deste fim de semana do jornal Correio da Manhã que dava conta de que o governante, em conversa com o antigo presidente do IPDJ em 2017, terá dito que o Benfica “está acima da lei” e que não é possível “tratar todos os clubes de igual modo”, até porque os encarnados têm “mais adeptos do que a população de alguns países”. “O que quero dizer é que confirmo tudo aquilo que já disse. E tudo aquilo que já disse foi que senti, em alguns momentos, em algumas alturas, pressões que tive de suportar”, começou por referir Baganha.

“Eu atuava sempre em função daquilo que era o cumprimento da lei. Portanto, as pressões existiram mas eu atuava sempre de acordo com aquilo que era o cumprimento da lei. Porque quem está na administração pública, e nomeadamente ocupava o cargo de dirigente máximo nessa administração pública, assim o teria sempre de fazer (…) Sempre fui isento e imparcial para com todos os clubes. E todos os clubes de maior dimensão foram sujeitos ao pagamento de contraordenações. A minha forma de estar foi sempre essa e não podia deixar de ser também em relação ao Benfica, que prevaricou em algumas situações (…) Naquela altura, o Benfica teria que alterar o seu regulamento de segurança porque se não o fizesse sujeitava-se a ter o Estádio da Luz interdito”, disse o antigo presidente do IPDJ, ressalvando mais à frente que essas “pressões” apareceram principalmente em relação às contraordenações dos encarnados relativamente ao apoio a claques não legalizadas.

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“As pressões foram mais nesse sentido. É evidente que quem ocupa o cargo que eu ocupei, por vezes, sente pressões. Mas há aquelas que podemos considerar como sendo mais legítimas, embora sejam exercidas de uma forma pouco adequada. E houve situações mais mediáticas, como com os Super Dragões, com o Sporting, com o Sp. Braga. Houve esta ou aquela mas nunca ao nível do que foi feito relativamente ao que aconteceu com o Benfica, que teve a ver com os responsáveis políticos a fazê-lo e a procederem da forma que hoje em dia é público”, sentenciou, recordando que “as regras são para cumprir” na hora de comentar a mais recente suspensão da interdição do Estádio da Luz. “Por essa Europa fora há casos de clubes que são punidos e têm de cumprir castigos que não são nada condizentes com o seu prestígio. Vejamos o que acontece em Itália, em Inglaterra, em Espanha”, enumerou, garantindo que a Justiça vai agora esclarecer, por exemplo, o congelamento de 10 meses que existiu a um processo anterior de interdição da Luz.

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Por fim, Augusto Baganha mostrou-se ainda preocupado com a diminuição da participação de jovens em atividades desportivas nesta fase de pandemia. “Acaba por ter reflexos negativos em termos até de futuro (…) Temos aqui algo ainda a corrigir que é tentar aumentar a participação de jovens na prática desportiva. Isso é um objetivo e agora temos uma diminuição (…) Há uma grande preocupação com o desporto profissional, com o desporto federado nos escalões superiores e tudo isto não sei se foi tido em conta. Já devíamos estar a pensar na próxima normalidade que tem de ser uma nova normalidade”, defendeu, referindo ainda que o regresso das modalidades em setembro não foi “devidamente preparado” como também não foi “o regresso às aulas ou o regresso das pessoas ao trabalho depois das férias”.