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Bem-vindo ao Nem Tudo o que vai à Rede é Bola, com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Na segunda parte, vamos falar com Augusto Baganha sobre a polêmica que envolve o Instituto Português do Desporto e Juventude, mas isso é depois da 13h30. Antes, vamos aos temas do dia. Começamos, Mariana Fernandes, por Portugal, que ficou de fora da final four da Liga das Nações.
Sim, e acaba por ser algo a que já não estávamos propriamente habituados. Porque a última vez que Portugal tinha falhado a qualificação para uma grande prova internacional, pelo menos pela fase final de uma grande prova internacional, tinha sido o Mundial de 1998, portanto, há 22 anos, com aquele famoso vermelho de Marco Páta a Rui Costa, numa substituição num jogo com a Alemanha que deu a estocada final nas esperanças nacionais, mas que acaba por ser justo, apesar de ser numa qualificação um pouquinho especial. Numa qualificação, numa fase de grupos, em que a margem de erro é curta ou nula. Temos quatro grupos, só passam os primeiros de cada um destes quatro grupos. Portanto, as esperanças, ou pelo menos as hipóteses são ainda mais reduzidas do que numa fase final de um Europeu, numa fase final de um Mundial, em que passam os dois e até passa o melhor terceiro. Portanto, as coisas são um pouquinho mais complicadas. A verdade é que tudo se pode decidir num só jogo e foi isso que aconteceu com Portugal. Nesta final com França, França foi melhor no Estádio da Luz, apesar da reação da seleção nos últimos 20 minutos, ficamos a perceber que Portugal jogou nos últimos 20 minutos aquilo que devia ter jogado durante todo o jogo e principalmente durante a primeira parte, em que França foi claramente superior à seleção nacional. Aconteceu algo raro também de acontecer desde que Fernando Santos é selecionador, que é uma derrota num jogo oficial. Portugal não perdia num jogo oficial há mais de um ano, há 13 meses. Se recuarmos então para há quanto tempo é que Portugal não perdia em Portugal, em território nacional, temos de recuar quase quatro anos para chegarmos a essa derrota num jogo oficial. Mas voltou a acontecer, ainda assim, algo que não é assim tão raro com Fernando Santos e que terá mesmo de ser o grande desafio para a fase final do Europeu já neste ano de 2021, que é reagir e dar a volta após a desvantagem frente a um adversário de maior valia, algo que obviamente é importante num grupo do Europeu onde estará a França, a Alemanha, também a Hungria, e que Portugal tem tido alguma incapacidade de fazer. E basta recuarmos um pouco também até 2018 para percebermos e para nos lembrarmos daquilo que aconteceu, por exemplo, com o Uruguai, em que Portugal começou a perder e não teve essa capacidade para dar a volta. Depois já tivemos outro exemplo melhor. Tivemos antes, aliás, com a Espanha, estivemos a perder por uma diferença até significativa. Cristiano Ronaldo, com a sua capacidade individual, conseguiu também empatar. Mas a verdade é que a seleção nacional tem esta incapacidade, tem esta dificuldade de dar a volta aos resultados, de reagir quando se vê a perder.
E desta forma fica afastada desta prova e de defender o título. Já a seleção de sub-21 conseguiu, Bruno Roseiro, garantir a presença no Europeu.
Foi a parte boa no fim de semana em relação aos compromissos da seleção. Provavelmente esta vitória com o Chipre de ontem foi, em termos de jogo jogado, talvez até a pior exibição de Portugal ao longo desta qualificação. Por exemplo, comparando com aquilo que aconteceu com a Bielorrússia, onde Portugal ganha 3 x 0, mas podia muito facilmente ter conseguido uma goleada muito maior. Foi uma vitória menos expressiva. Portugal está na fase final deste Europeu de sub-21, que vai ter agora um modelo diferente, ou seja, vamos ter uma fase de grupos no final de março e depois uma fase final a eliminar no final de maio e no início de junho, que era a única maneira que nós tínhamos, em termos de calendário internacional, para não cancelar este Europeu de sub-21, mas ao mesmo tempo não fazer isto colidir com o Campeonato da Europa sénior e também com os Jogos Olímpicos. E olhando para esta equipa, que é importante, até porque nós olhamos para esta equipa e percebemos que há ali nomes que a muito curto prazo estarão na equipa A, e Nuno Mendes, do Sporting, é o exemplo paradigmático disso mesmo. Eu diria que o Rui Jorge tem aqui em mãos uma equipa que é diferente de outras, não vou quitar a discutir se é melhor, se é pior, mas é diferente por duas razões. A primeira: não junta uma geração de ouro, digamos assim, junta vários jogadores de top de diferentes gerações, desde os 17, como o João Santos Fernandes, até aos 21, como por exemplo o Pedro Gonçalves, que é a grande figura do campeonato, mas no sub-21 é suplente. E depois, ao mesmo tempo, tem aqui uma característica que pode ser importante, que é o Rui Jorge pode abordar qualquer jogo olhando para os jogadores que tem, para as características que eles têm, que são diferentes uns dos outros, e a partir daí preparar um jogo. Isso é muito importante. Eu dou um exemplo. Fábio Vieira jogou com a Bielorrússia porque em termos de meio-campo era necessário um Fábio Vieira. Vítor Ferreira jogou com o Chipre porque era necessário alguém com as características do Vítor Ferreira. Portanto, e é nestas nuances que o Rui Jorge tem aqui qualidade para poder, no mínimo, chegar à fase a eliminar do Campeonato da Europa de sub-21.
E agora, tempo de cartas com o Ás, o Joker e a carta fara. Bruno, começamos com a Fórmula 1 e com Lewis Hamilton, em grande este fim de semana.
Foi um pouco mais do mesmo. A única coisa que mudou foi o cenário, porque esta prova foi tudo menos convencional. O próprio Hamilton já tinha falado numa pista de gelo na sexta-feira.
Eu gostei imenso de ver os carros a deslizar, foi fantástico.
Era, aquilo parecia carrinhos de brincar a certa altura, sobretudo numa parte final, o Verstappen a fazer piões e o Räikkönen também. E no início o Bottas, parecia mesmo que eles estavam a andar em gelo sem aquelas correntes que são recomendadas quando vamos à Serra da Estrela.
Não me senti tão envergonhado como quando ando de kart e que faço aqueles piões ao ver aqueles homens da Fórmula 1 a fazerem o mesmo.
Não, nada. Aliás, nós no máximo conseguimos fazer aquilo nos carrinhos de choque, porque aqueles piões, até aí é preciso um pouquinho de arte. Mas no meio disto tudo, e mais uma vez apoiado numa estratégia que voltou a ser a certa, o Hamilton consegue superar todos esses problemas e o Hamilton também andou a bailar um pouquinho nas primeiras voltas. Depois é que conseguiu estabilizar o carro, até porque a pista foi também secando. Consegue a décima vitória em 14 corridas, é já a quarta vitória consecutiva, o sétimo título mundial igualando o Michael Schumacher, numa época onde também bate uma série de recordes do Schumacher, nomeadamente o número de vitórias em grande prêmios que foi conseguido em Portugal. Portanto, isto era basicamente uma questão de tempo. Agora, convém, e muito mais do que entrar em paralelismos, quem é melhor, quem é pior, se Senna também se inclui aqui neste lote, Prost a mesma coisa. Acho que é importante perceber que se a Fórmula 1 é um mundo à parte, o Hamilton sempre foi um fenômeno único no mundo à parte. Ele tinha tudo para não ser este piloto na Fórmula 1, apesar de todas as indicações que deu quando ainda andava nos carros telecomandados, que lhe valeram uma distinção naquele programa da BBC para os mais jovens talentos, inclusivamente também nos karts, onde o próprio Schumacher já tinha visto que estava ali um potencial piloto de topo, mas ele tinha tudo para não ser este piloto. E sobretudo é este piloto, aliando a isso também uma série de causas sociais. Neste ano em específico, 2020, muito importante as questões raciais, mas antes já tinha sido também a questão da Amazônia, a questão da poluição dos oceanos. Ou seja, Hamilton conseguiu perceber há muito tempo que tinha um papel também na sociedade e tem cumprido também esse papel da melhor forma. Agora, a grande dúvida, muito mais do que se ele ia ganhar o sétimo título ou não, porque isso parecia mais ou menos certo e era uma questão de tempo, é o que é que vai acontecer em 2021, sendo que ele tem aqui três hipóteses completamente em aberto. Um, renova pela Mercedes e muito provavelmente vai assegurar o oitavo título e fica destacado de todos os outros pilotos de sempre. Segunda hipótese, vai trocar pela segunda vez de equipa. Ele até hoje só trocou McLaren por Mercedes e mesmo assim andou sempre com o mesmo motor, desde que está na Fórmula 1, já lá vão 13 anos. Ou, hipótese três, parte para um período sabático. Muito provavelmente, o período sabático é aquilo que lhe passará mais agora pela cabeça. Muito provavelmente, mudar de equipa também já lhe pode ter passado pela cabeça. Muito provavelmente, ele vai renovar contrato pelo menos mais um ano com a Mercedes e aí sim, colocar o seu nome no topo dos topos.
Vamos aguardar como vai ser a próxima temporada de Fórmula 1 e em condições se vai realizar. Mariana, excelente. Esteve Ivo Oliveira nos Mundiais de Ciclismo este fim de semana.
Sim, e antes de ir ao Ivo Oliveira, deixa-me só dizer que a verdade é que Hamilton acaba por ter aqui na Turquia o final mais poético para este sétimo título e uma autêntica master class de condução, porque Hamilton fez aqueles pneus durarem 50 voltas. É verdade que estava a chover, mas estava a chover para todos. Hamilton tem, de facto, o melhor carro, mas Bottas tem um carro parecido ou igual e não fez igual e acabou em 14º. E é preciso recordar também que sim, é verdade, ele está na melhor equipa, mas também é mesmo o melhor piloto.
Tem um kit de unhas fantástico.
E acabou por não ser uma vitória qualquer. Não foi uma vitória de pole position e de vitória, foi uma vitória em que Hamilton partiu de sexto e é preciso recordar isso também.
Vamos aos europeus, então.
Exatamente. Quanto ao Ivo Oliveira, Portugal terminou o Campeonato da Europa de Ciclismo de Pista com seis medalhas, duas delas de ouro, e com o Ivo Oliveira como uma das principais figuras, a par do Iúri Leitão. O Ivo ganhou a medalha de ouro na precisão individual, a prata na prova de Madison com o irmão, o Rui Oliveira. Não é a primeira vez que esta nova geração, onde também temos de destacar a Maria Martins, dá amostras do seu valor, mas não deixa de ser curioso a confirmação do Ivo Oliveira no ciclismo de pista, nestes Europeus em particular, depois de ter feito a volta à Espanha pela Team Emirates agora há pouco tempo, algo a que o ciclismo nacional não está habituado. Portanto, esta capacidade de ser versátil e de estar tanto no ciclismo em pista como nas grandes provas, tudo isto no mesmo ano em que Portugal poderá também ter ganho um corredor de provas três semanas, obviamente, o João Almeida, mesmo que não seja esse o objetivo do João Almeida a curto prazo para a carreira depois do giro. Portanto, é um ano muito positivo para o ciclismo português, tanto no ciclismo das provas grandes, das chamadas grandes voltas, como no ciclismo de pista aqui com estas medalhas nos Europeus.
E nós vamos continuar a dar destaque a isso aqui no Observador. Agora vamos ao joker. Mariana, sigo contigo. N'Golo Kanté, foi ele o responsável pela derrota da seleção nacional.
Sim, o Kanté, que tem sempre aqui um nome que dá para fazer imensas piadas, porque ele tem golo no nome e acabou por deixar Portugal fora da final four da Liga das Nações, com apenas o segundo golo que marcou na carreira ao serviço da seleção francesa. Ele também acaba por ser o exemplo paradigmático da chave do jogo que esteve no meio-campo, que Portugal conseguiu ganhar durante a maioria do tempo em Paris, no primeiro jogo há cerca de um mês, e que França conseguiu ganhar durante a maioria do tempo em Lisboa, na Luz, este sábado, muito por culpa deste médio do Chelsea, que até um pouquinho à semelhança de Hamilton, tinha tudo para também não ser jogador de futebol. Teve alguns anos até a apanhar lixo nas ruas, uma vida, aliás, muito pobre, muito complicada, filho de imigrantes, nascido em Paris. Para ajudar a família, teve de aceitar vários trabalhos difíceis, foi rejeitado por vários clubes até terminar a formação no Bolonha. Deu nas vistas no Caen e depois acabou no Leicester. Fez apenas uma temporada no Leicester, mas foi a temporada mais importante Premier League conquistada por Claudio Ranieri, que está na memória de todos nós. Nesse ano, passou de valer 8 milhões para valer cinco vezes mais. Assinou pelo Chelsea, onde está hoje, é campeão mundial por França, é vice-campeão europeu também por França e foi a chave para Didier Deschamps e para esta vitória contra Portugal.
Bruno Rosário, seguimos agora para o Brasil com o Abel.
Sim. Até porque início de conversa lá está muito mais calor, portanto aquilo deve ser muito mais agradável. No caso do Abel, está a ser ainda mais agradável, porque esta é a segunda experiência em clubes de São Paulo e existe muita diferença entre clubes de São Paulo e clubes do Rio de Janeiro, desde o sucesso do Jorge Jesus no Flamengo, com um plantel brutal, de longe o melhor plantel no Brasil. A primeira passagem do Josualdo Ferreira pelo Santos não correu bem e agora nota-se que o Santos, de facto, está a evoluir muito na classificação. O Abel, os primeiros quatro jogos que faz, ganha quatro jogos entre campeonato e Taça do Brasil. Uma das vitórias até é contra o Vasco da Gama do Sapinto, no Rio de Janeiro. Ainda não sofreu gols, é outra particularidade. Não é normal um treinador agarrar numa equipa brasileira e fazer quatro jogos sem sofrer gols, portanto, uma grande estabilidade defensiva. Em termos de campeonato, já está em quinto lugar a quatro pontos do Atlético Mineiro e tem só o São Paulo, que por ter dois jogos em atraso, pode ir um pouquinho mais à frente, mas está completamente dentro da luta. E está a fazer uma transição muito positiva da era Vanderlei Luxemburgo, que curiosamente era um dos treinadores brasileiros com mais currículo e também um daqueles que mais criticava a presença de treinadores estrangeiros no Brasil. O Abel está também a responder a isso com uma equipa onde estão jogadores que já passaram por Portugal, o Ramires ou o Lucas Lima. Também já foi expulso num jogo. E uma coisa que eu notei este fim de semana, até muito mais do que os resultados, é que começa-se a criar uma certa empatia entre a imprensa brasileira e o Abel. E isso é também um fator muito importante e isso também foi um fator determinante para o sucesso do Jorge Jesus. E se continuar assim, eu diria que o Abel pode ser um próximo caso de sucesso no futebol brasileiro.
Vamos ficar atentos. Vamos à carta fora. Bruno, não saias daí. Vamos falar de Vida, o jogador da Croácia.
Sim, muito resumidamente, a Croácia fez um jogo particular com a Turquia, tinha feito testes e todos eles negativos antes deste jogo, mas ao mesmo tempo teve que fazer novamente testes porque ia jogar depois com a Suécia no sábado e ao intervalo desse jogo soube-se que o Vida, o defesa central, estava infectado. Ele ficou logo em isolamento, claro está, isto é quase uma rábula. Já tinha acontecido um caso que ainda continua a ser averiguado pelas autoridades da Lazio, alegadamente ter omitido três casos positivos na sua equipa para poder contar com esses três jogadores para o jogo da Liga dos Campeões. Eu falo aqui nisto, primeiro pela estranheza do assunto, isto não cabe na cabeça de ninguém andar a fazer testes e ir a jogo sem saber os resultados, independentemente de ter dado negativo no dia seguinte ou dois dias depois pode dar positivo, foi aquilo que aconteceu. A segunda coisa, até aqui, se tu reparares, o futebol e os futebolistas acabam por ser um bocadinho prejudicados, porque percebendo agora mais ou menos como é que funcionam também estas novas regras, qualquer pessoa que esteja em casa assintomática, infectada, passado 10 dias se não revelar sintomas, pode ir à rua e não necessita sequer de fazer um teste. E aquilo que acontece no futebol é que tu só podes voltar a jogar se tiveres novamente um teste negativo. E, por exemplo, o Ronaldo esteve 19 dias afastado exatamente por causa disso e não deixa de ser curioso que no futebol, que muitas vezes diz que é uma coisa protegida, mais uma vez acaba por sair prejudicado com aquilo que é a regra comum, por exemplo, que existe hoje em Portugal.
Muito bem. Mariana, o que nos traz aqui José Peseiro, nesta tua carta fora?
Sim, muito rapidamente. Peseiro chegou apenas um mês antes da pandemia chegar também à Venezuela. Teve um contexto complicado para começar a preparar terreno para a qualificação para o Mundial, até em termos internos, por não ter sido propriamente uma escolha unânime no cerne da seleção nacional sul-americana. Começou da pior forma esse percurso. A verdade é que sofreu já três derrotas contra a Colômbia de Carlos Queiroz, contra o Paraguai e agora contra o Brasil, num jogo que ficou decidido a meio da segunda parte com gol de Roberto Firmino, em que a Venezuela até teve mérito em conseguir anular durante largos períodos o ataque da seleção de Tite. Mas a verdade é que José Peseiro sofreu mais um desaire, mais uma derrota, que já começa então a levantar alguma contestação à continuidade do treinador português no cargo.
Muito bem, agora seguimos para o túnel. Bruno, vamos olhar para o impacto da pandemia que tirou quase 80% de inscritos na formação.
Muito importante este dado, que nesta altura tem muito de conjuntural, mas se nesta altura o governo, as entidades, as federações, as associações não tomarem medidas, vai tornar-se um problema estrutural. Portanto, em resumo, os 155 mil jogadores federados, estamos a falar de futebol masculino e feminino e futsal masculino e feminino, que existiam na formação em 2019/2020, passaram a menos de 35 mil esta nova temporada. Tivemos quebras, por exemplo, em Lisboa, menos 21 mil, no Porto, menos 20 mil, Braga, menos 19 mil, em Setúbal, que também é um polo muito importante em termos de formação de futebol e futsal, quase menos 10 mil. E essa porcentagem arrastou-se também para as modalidades, sendo que genericamente De 220 mil federados passarmos para menos de 50 mil. Depois há outro dado. Isto foi um trabalho apresentado pelo Jogo e há aqui um outro dado interessante para se perceber que isto não tem só a ver com a questão da pandemia e a questão dos contactos. É que o andebol, que em termos de modalidades é o desporto com mais contacto, houve uma quebra de 73% no masculino e 64% no feminino. Mas quando olhamos para o voleibol, que é o desporto com menos contacto, em termos de modalidades de pavilhão, tivemos uma descida entre os 82 e os 90. Portanto, muito mais do que a questão do contacto, da transmissão do vírus, etc, houve aqui um gap criado pela questão do confinamento, pela questão das restrições, pela questão de uma mudança de vida para a qual nós não estávamos preparados. E é muito importante, até em termos de desporto escolar, que se perceba o que é que aconteceu, como é que se pode resolver, porque até mais do que uma vertente desportiva, em termos de saúde mental, é muito importante recuperar todos estes miúdos e miúdas que deixaram os seus desportos e que agora estão numa situação, um pouco como nós, que não sabem muito bem o que é que vão fazer.
Vamos ter que continuar a falar sobre este tema mais vezes aqui na Rádio Observador. Na segunda parte deste programa, vamos estar à conversa com Augusto Bacanha.
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Bem-vindo a esta segunda parte do Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola. Vamos estar à conversa nos próximos minutos com Augusto Bacanha. Antes de mais, obrigado por estar conosco nesta emissão. Antes de mais, pergunto-lhe já, pouco mais de dois anos depois de ter denunciado pressões e ambientes estranhos após a saída da presidência do IPDJ, como é que viu na semana passada estas notícias que dão conta de buscas por parte das autoridades na sede do IPDJ?
Em primeiro lugar, boa tarde a todos vós, portanto à Rádio Observador, também aos ouvintes. De facto, eu tinha a noção que a Justiça iria atuar. A Justiça tem os seus timings também, tem a sua estratégia, tem o seu tempo e é com enorme contentamento que eu vejo isso acontecer, porque, de facto, aquilo que me moveu, sobretudo, na denúncia daquilo que se passou, foi nós conhecermos a verdade e a verdade dos factos. Essa é que é a minha verdadeira intenção. E depois que nós tenhamos, neste caso, e que eu me movi sempre no domínio do desporto, termos sempre um desporto cada vez mais ético, se assim se pode dizer, e mais verdadeiro. De maneira que este retomar, eu vejo isto com agrado, satisfação e espero que tudo se esclareça a bem da verdade.
Entretanto, estas buscas foram conhecidas publicamente entre a noite de terça-feira e a manhã de quarta-feira, mas foram feitas numa segunda-feira, que já tinha sido também marcada por buscas, não só no Estádio da Luz, mas também noutros clubes. Aquilo que eu gostava de perguntar é, também por ter ocupado este cargo, se considera que nesta altura é uma simples coincidência haver buscas no âmbito de processos ligados ao Benfica, neste caso por corrupção desportiva ativa e passiva, e também nesse mesmo dia, buscas no IPDJ. Acha que foi só uma coincidência?
Como lhe disse há pouco, essa estratégia da ação e da atuação pertence à Justiça. Presumo eu que pode ter acontecido. Pode ter acontecido haver um juntar, se assim se pode dizer, de vários processos. A Justiça com certeza teve essa perspectiva, mas não sei. Isso é uma questão que devia ser, sobretudo, posta e colocada aos responsáveis da Justiça. Eu presumo que possa ter acontecido isso, mas, como lhe disse há pouco, eu não sei, porque a Justiça tem o seu funcionamento próprio e aquilo que espero é que tudo fique só devidamente esclarecido para bem de todos aqueles que encaram esta atividade desportiva de uma forma verdadeira e de uma forma verdadeiramente também ética. E isso é que é fundamental para que ela seja cada vez mais credível Nós queremos um desporto cada vez mais credível.
Quando foi a altura da sua saída, em setembro de 2018, esteve também numa comissão parlamentar onde falou inclusivamente num caso concreto de João Paulo Rebelo e um SMS que tinha enviado para um outro elemento do Conselho Diretivo, com o número de telefone do advogado do Benfica. Portanto, isso foi público e foi debatido. O próprio Secretário de Estado da Juventude e do Desporto também passou depois pela sua comissão e deu a sua versão. Este fim de semana tivemos a notícia de uma alegada frase de Tiago Brandão Rodrigues, ministro de Educação, que terá dito numa reunião que o Benfica estava acima da lei, no sentido em que tinha muitos adeptos, inclusivamente mais adeptos do que a população de alguns países. Aquilo que eu gostava de lhe perguntar, sendo também uma parte visada, se de facto era mesmo assim e se isso lhe foi dito em alguma reunião.
Eu já anteriormente referi isso e aquilo que lhe quero dizer é que confirmo tudo aquilo que disse. E tudo aquilo que disse foi que senti, por alguns momentos e algumas alturas, pressões que eu tive que, de certo modo, suportar. Se posso dizer. Mas sempre para mim com uma grande preocupação: eu atuava sempre em função daquilo que era o cumprimento da lei. Portanto, pressões existiram, mas atuava sempre naquilo que é o cumprimento da lei, porque quem está na administração pública e ocupava um cargo de dirigente máximo no âmbito da administração pública, assim o teria sempre que fazer. Porque evidente que eu estava sujeito a um código de ética, esse código de ética dizia que eu tinha que ser isento e imparcial, e eu, na minha ação, fui sempre isento e imparcial. E fui isento e imparcial para com todos os clubes. Eu agora não me vou lembrar de todos, mas tudo aquilo que nós falamos nos clubes de maior dimensão, foram todos eles sujeitos ao pagamento de contraordenações. Portanto, a minha forma de estar foi sempre essa, e não podia deixar de ser também em relação ao Benfica, que prevaricou em algumas situações. Eu quero deixar aqui bem explícito também, porque penso que em alguma comunicação social isso passou, que o Benfica teria naquele momento, depois houve outras situações que aconteceram, mesmo nas vésperas da minha saída, mas naquela altura o Benfica teria que alterar o seu regulamento de utilização e segurança, porque se não o fizesse, o Benfica sujeitava-se a ter o Estádio da Luz interditado. E foi isso que aconteceu durante quatro dias. Portanto, o Benfica teve o Estádio da Luz interditado durante quatro dias.
Aconteceu quatro dias, também porque na altura o seu vice, Vítor Pataco, congelou o processo durante 10 meses porque estava a conferir a sua legalidade ou não. Portanto, eu gostava de lhe perguntar também se acha normal esse congelar do assunto durante 10 meses para depois estar a incumprir durante quatro dias, e em paralelo, também explicando para as pessoas e para quem não esteja completamente dentro do assunto, estamos a falar de contraordenações em relação a apoios ilegais, por exemplo, a claque não legalizadas e possíveis jogos à porta fechada, se as pressões foram só nesse sentido ou se foram também de outras áreas.
As pressões foram mais nesse sentido. Relativamente a outras áreas, nunca senti. É evidente. Vamos lá ver, quem ocupa o cargo que eu ocupei, por vezes há pressões a que uma pessoa está sujeita, mas há aquelas que nós podemos considerar como sendo talvez mais legítimas, embora elas sejam exercidas muitas vezes não da forma mais adequada. Mas isso aconteceu e isso foi suficientemente relatado e escalpelizado. Houve situações até mais mediáticas, umas que tiveram a ver com o Super Dragões, outras que tiveram a ver com o Sporting, outras com o Sporting de Braga. Isto para indicar os principais clubes, e houve esta ou aquela, mas nunca ao nível que foi feito relativamente a esta que aconteceu com o Benfica e que teve a ver, de facto, com os responsáveis políticos a fazê-lo e a proceder da forma que hoje em dia é público
Em 2003, depois de um castigo por causa do comportamento dos adeptos contra o Guimarães, o Benfica chegou a jogar em Torres Vedras contra o Beira-Mar. Consegue imaginar, no meio de todos estes processos que vão decorrendo pelo apoio a claques não legalizadas, esta possibilidade de o Benfica não jogar na Luz, ou acha que vamos ver suspensão atrás de suspensão deste castigo?
Não sei. Nós fizemos o nosso trabalho no instituto, na altura. Os serviços especializados, neste caso, o departamento jurídico e de auditoria, fez o seu trabalho. O conselho directivo também procedeu da forma que procedeu. Houve aqui, de facto, este impasse que foi aqui referido dos tais seis meses, mas isso é matéria que agora com certeza vai ser devidamente esclarecido no campo próprio, no campo da Justiça. Mas as regras, como eu disse há pouco, de facto, são para cumprir. Isto tem acontecido, eu posso dizer por essa Europa fora, de clubes que são punidos e que têm, por vezes, que cumprir castigos que não são nada, às vezes, até convincentes com o seu prestígio. Veja o que acontece em Itália, veja o que acontece em Inglaterra, veja o que acontece em Espanha, também. Perante isto, a administração, aquilo que tem que fazer, e não pode ser de outra forma, porque senão estamos a desvirtuar tudo, é atuar no cumprimento da lei. E depois, perante isso, têm que ser adotadas as soluções que estejam de acordo com esse cumprimento da lei.
Falando aqui também sobre o pós-IPDJ, como é que foi a sua vida depois da saída deste cargo e depois também, claro, daquela audiência em comissão parlamentar, onde assumiu estas pressões que tinha sentido no IPDJ?
Saio do IPDJ, neste momento estou na aposentação. Tenho estado atento, naquilo que posso, à forma como tudo se vem desenvolvendo e se vem desenrolando. Nós agora vivemos uma época também de certo modo complicada para todos. Mas tenho seguido com atenção. Fui agora de certo modo surpreendido. Tudo isto também foi muito midiatizado. O processo tinha a ver com aquilo que se passou precisamente na altura no IPDJ e que acabaram por ser as minhas denúncias. Repare que todas estas matérias foram por mim denunciadas, na altura, à senhora Procuradora-Geral da República, a dra. Joana Marques Vidal, e tudo isto foi sendo encaminhado para as instâncias que tinham que ser encaminhadas e desenvolvido da forma que a Justiça achou aquela que fosse a mais conveniente. Se eu estava à espera que isto agora acontecesse, ou acontecesse mais tarde ou mais cedo. Como lhe disse há pouco, isto são os timings que a Justiça determina e para a qual eu estou devidamente preparado para responder àquilo que tem que ser respondido.
Vou pular também agora, neste caso, ao seu passado enquanto desportista. Foi durante muitos anos jogador de basquetebol, campeão no Sporting e depois no Queluz. Aquilo que eu lhe gostava de perguntar é: como é que vê nesta altura a situação das modalidades de pavilhão, até muito mais do que o futebol, com esse dado também novo que surgiu este fim de semana, que é uma diminuição de 80% em relação ao número de atletas federados na formação?
É evidente que vejo isto com grande preocupação, porque isto acaba por ter reflexos negativos em termos até do futuro, porque como em tudo, se nós falarmos também da economia, isso acontece, que é nós perdemos e agora a grande questão é: quando é que nós vamos recuperar? Nós ainda por cima temos aqui algo ainda a corrigir, que é tentar aumentar a participação e a participação de jovens na prática desportiva, quando esse é um objetivo, e agora temos uma diminuição. E eu queria lhe colocar aqui uma questão que é precisamente esta: eu vejo tudo isto com grande apreensão. E grande apreensão até falando dos jovens. Sabe que as pessoas hoje, para participarem no desporto e ao nível das diversas modalidades, nos diversos clubes, isto é muito importante para eles. E não é só importante porque eles gostam de competir, gostam de ganhar. Mas não é isso Tudo isto contribui para a felicidade dos jovens. E todos esses jovens que hoje deixaram de praticar, sentem-se mais infelizes. Isto é mau. E depois vai ter repercussões em termos de futuro, mesmo no domínio do desporto de alto rendimento, porque a recuperação dos jovens não vai ser fácil. Aquilo que penso é que isto tem que ser equacionado da melhor maneira e por vezes eu não vejo esta preocupação. Há aqui uma grande preocupação com o desporto profissional, com o desporto federado a nível dos escalões superiores, e depois não sei se tudo o resto foi tido em devida conta. E nós vamos sofrer no futuro com esta perda que você acabou de enunciar. Isto não se vai recuperar num instante. Isto é como a economia. Ela caiu e depois a recuperação vai ser lenta, não vai ser imediata. Portanto, tudo isto também vai ter os seus traumas e nós vamos ter este problema, que é um problema que urge pensar. E aquilo que eu também penso é que nós estamos num período, neste período de pandemia, é quando nós já devíamos estar a pensar na próxima normalidade, e que deve ser uma nova normalidade.
E isso nesta altura não está a ser feito.
A informação que eu tenho é que penso que não. É evidente que, como disse há pouco, o meu envolvimento é ser bom à distância. Vou recebendo esta ou aquela notícia. Mas aquilo que eu penso é que a própria retoma da atividade em setembro não foi devidamente preparada, como não foi, com certeza, devidamente preparado o regresso às aulas, como não foi devidamente preparado, com certeza, o regresso das pessoas ao trabalho, vindo de férias. As coisas muitas vezes são feitas não por antecipação, não por um trabalho de preparação.
Mas já de reação. Exatamente.
De reação.
Muito obrigado, Augusto Maganha. Terminamos este "Nem tudo o que vai à rede é bola" nesta altura. Daqui a pouco em observador.pt já pode ouvir este programa em podcast. Até já.
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