Em 2016, foi editado nos EUA o livro Hillbilly Elegy: A Memoir of a Family and a Culture in Crisis (publicado em Portugal pela Dom Quixote em 2017 como Lamento de uma América em Ruínas), em que J.D. Vance, formado em Direito em Yale, recordava a sua infância e juventude no Ohio, no seio de uma família da classe trabalhadora originária do Kentucky. O autor descrevia ainda neste “best-seller” como conseguiu sair do círculo vicioso de empobrecimento, violência e toxicodependência cada vez mais característico da cultura em que nasceu e foi criado, agravado pela crise económica e industrial da América agrícola, operária e conservadora, desconhecida e desprezada pelas elites liberais. A leitura de Hillbilly Elegy dizia também muito sobre as razões da eleição de Donald Trump e a existência de duas Américas dramaticamente irreconciliáveis.

[Veja J.D. Vance falar sobre a sua vida e o seu livro:]

Vance destaca ainda a importância fundamental que teve a avó na sua vida, ao tirá-lo à mãe, viciada em drogas e colecionadora de relações falhadas, pô-lo sob a sua guarda, responsabilizando-o pelos seus atos e incentivando-o, por vezes com dureza, a estudar e a trabalhar, para não acabar “ou sem ter onde cair morto, ou a ter uma morte violenta”, como os seus amigos que faltavam à escola, tinham-se despedido dos empregos e passavam o dia a beber e a fumar erva. E critica a dependência de subsídios e apoios públicos, que convidam ao parasitismo e à desresponsabilização, contribuindo para a preservação e o agravamento da cultura da decadência material, social e anímica dessa América interior e “blue collar”.

[Veja o “trailer” de “Lamento de uma América em Ruínas”:]

Ron Howard adaptou “Lamento de uma América em Ruínas” para a Netflix. E aqueles que leram o livro vão deparar com uma versão cinematográfica muito condensada, em que o realizador, embora mantendo alguns dos seus temas e motivos principais, não resiste a filmar a trágica história de Vance e da família como uma “soap opera” naturalista, omitindo quase por completo a componente de análise social e política (Vance é um conservador próximo do Partido Republicano, o que não cai nada bem em Hollywood) e o tópico da incompreensão e do snobismo das elites citadinas e progressistas para com essa América branca, “working class” e em agonia (que Howard sintetiza na sequência do jantar em que um dos arrogantes advogados se refere aos familiares do autor como “rednecks”).

[Veja uma entrevista com Ron Howard:]

Howard prefere assim focar-se, melodramaticamente, na relação de J.D. Vance, nos anos 90 e nos nossos dias, com a sua desastrosa mãe, Beverly (Amy Adams), melhor aluna do seu liceu mas condenada por uma gravidez adolescente, uma série de relações abusivas e uma dependência de fármacos (a que tinha acesso fácil por ser enfermeira) e depois de drogas duras; e com a avó, Mamaw (uma quase irreconhecível Glenn Close), mulher de antes quebrar que torcer, que se privava dos remédios para lhe pôr comida no prato e lhe incutiu os valores da responsabilidade, da importância da família e do estudo e trabalho árduos, para que ele pudesse ir para a universidade em vez de ficar na terra a vender sapatos como a sua esforçada irmã Lindsay (Haley Bennett).

[Veja uma cena do filme:]

J.D. Vance é duplamente bem interpretado, por Owen Asztalos quando jovem e por Gabriel Basso em adulto. E além do amor e da admiração que ele nutre pela indomável avó, que o salvou da sua herança cultural e e da fatalidade familiar, Ron Howard frisa também, em “Lamento de uma América em Ruínas”, outra coisa que o autor deixa bem claro no livro. O afeto que sempre, e apesar de tudo o que passou com ela e por causa dela, Vance teve pela mãe, e a dedicação que lhe votou, até nos momentos mais negros e desesperantes. É mesmo o que fica de melhor desta adaptação muito sumária e simplificadora, e a pender para o imediatismo lacrimal, de um livro que tem muito a dizer sobre o abismo cada vez maior que separa as duas Américas.

“Lamento por uma América Destruída” está disponível na Netflix