Diego,

Tenho de contar-te algo: hoje é um dos piores dias da minha vida. Porque passei por tudo mas nunca por isto. Quis fintar mil vezes a notícia, como tu, mas não pude.

Não pude falar. Não pude comer. Não pude crer que era verdade. Foi como se fosse um pedaço da minha família e de cada família da Argentina.

Claro, os que não nasceram cá não entendem. Se nunca entoaram o hino, se nunca lhes cortaram as pernas ou se nunca tiveram de fazer o melhor golo da história para recuperar de uma guerra estúpida.

Sim, Diego. Eu sei que pode parecer-te exagerado mas este é um dos piores dias da minha vida porque graças a ti vivi os melhores. Os mais gloriosos, os mais românticos, os mais mágicos, os mais alegres, os mais inesquecíveis.

Diego, sou argentino e hoje preciso de estar ao lado de outro argentino para não sentir tanto a tua falta. 

Já de madrugada, quando milhares e milhares de pessoas estavam reunidas em vários locais de Buenos Aires (exatamente porque, como dizia o texto de despedida da Associação Argentina de Futebol, um argentino tinha de estar ao lado de outro argentino), Diego Armando Maradona chegou ao Palácio Presidencial, a Casa Rosada. À sua espera estavam a ex-mulher, Claudia Villafañe, e duas das filhas, Dalma e Gianinna, fruto do casamento de 19 anos. Lá estiveram também Verónica Ojeda, a segunda mulher do ex-jogador, e Diego Fernando, o seu filho mais novo. E Jana, filha de uma relação extraconjugal com Valeria Sabalain. Da família mais próxima, só Diego Jr., internado em Nápoles com Covid-19, não marcou presença. Rocío Oliva, antiga namorada do astro argentino, também se deslocou ao local mas teve de esperar pelas 7h da manhã como todos os outros.

Esse foi o momento privado do velório, que contou com muitos outros nomes de peso próximos de Diego. Oscar Garré, Ricardo Giusti, Jorge Burruchaga, Sergio Batista e Luis Islas, alguns dos companheiros de equipa no título do Mundial de 1986. O carismático Sergio Goycochea, mítico guarda-redes do Campeonato do Mundo de 1990. Carlos Tévez, Mascherano, Maxi Rodríguez, Gabriel Heinze ou Martín Palermo, alguns dos principais símbolos da geração que se seguiu. Chiqui Tapia, atual líder da Associação Argentina de Futebol. Por lá passariam depois os jogadores do Gimnasia, equipa da qual era treinador, ou Marcelo Gallardo, atual técnico do River Plate. Antes, o presidente Alberto Fernández chegou de helicóptero, deixando em cima do caixão do esquerdino uma camisola do Argentinos Juniors com o número 10 com visível emoção e de lágrimas nos olhos. Cristina Kirchner, antiga líder do país que tinha também uma relação próxima com Maradona, esteve no velório.

Essa foi uma das imagens ao longo do dia, entre as 7h e as 16h locais (mais três em Portugal): lágrimas, abraços, muitas homenagens, os habituais excessos. De manhã a polícia teve de intervir para começar a separar todos os fãs que se concentravam na zona da frente da longa fila que chegou a passar os três quilómetros; mais tarde, houve confrontos mais violentos e arremesso de pedras e garrafas às forças de intervenção depois de se perceber que milhares de pessoas que estavam à espera para aceder ao local não conseguiriam chegar ao local devido à hora.

Era tempo de Diego Armando Maradona ocupar o seu novo espaço, num funeral no cemitério do Jardim da Bela Vista onde estão também sepultados os pais, a 35 quilómetros de Buenos Aires, num percurso onde o carro fúnebre iria passar pela Avenida 9 de julho antes de subir à 25 de maio. O dia 25 de novembro, esse, nunca mais será esquecido. Pelo mundo, na Argentina. E no dia seguinte à morte do maior entre os maiores, a imagem do abraço em lágrimas entre um adepto do Boca Juniors e outro do River Plate mostra bem o poder divino de Diego.