Prolonga-se o impasse na marcha natural das condecorações saídas de Buckingham– e há uma conta de louvores por acertar, um desnível que terá a sua origem no “profundo desapontamento” que Tony Blair suscitou em Isabel II, um desconforto e uma discussão com largos anos.

A história é agora recuperada pelo diário The Times, segundo o qual fontes próximas ao palácio gostariam de resolver um cenário de desequilíbrio político, onde as figuras do Partido Conservador superam os trabalhistas em mais de cinco para um quando se trata de recompensá-los com as quatro honras mais cobiçadas, a Ordem da Jarreteira, a Ordem do Cardo, a Ordem de Mérito e a Ordem do Império Britânico. Dos 102 lugares entre essas maiores honrarias, os tories possuem 22 e os trabalhistas apenas quatro — e apenas um a mais que os Liberais Democratas. Segundo o mesmo jornal, no palácio impera uma outra preocupação: “o facto de Isabel II não gostar de Tony Blair” poderá estar a funcionar como “força de bloqueio” na condecoração de outras figuras séniores — e os anos desde que abandonaram funções vão passando.

Segundo o The Times, o esforço para agraciar outro primeiro-ministro, Gordon Brown (que sucedeu a Blair, entre 2007 e 2010), com a ordem da Jarreteira desacelerou pelo facto de a rainha se manter relutante sobre a concessão da mesma honraria ao seu antecessor. “Há uma preocupação no palácio de que a atribuição de ordens comece a parecer desequilibrada”, terá relevado uma fonte próxima de Buckingham. De resto, a corte preferirá que Brown seja agraciado com a Ordem do Cardo, para evitar o embaraço de receber a mais elevada honraria antes do seu antigo colega trabalhista Tony Blair, que entretanto poderá garantir o título de Sir. É, no entanto, claro que “Blair é o bloqueio porque eles simplesmente não vão fazê-lo“, admite a mesma fonte.

Apenas um dos antigos primeiros-ministros de Isabel II não foi agraciado com a Ordem da Jarreteira, a ordem mais prestigiada, criada em 1348 por Eduardo III. Limitada a 24 pessoas de cada vez (há neste momento três postos em aberto), que garantem um lugar na capela de São Jorge, em Windsor, a sua concessão é uma das poucas prerrogativas executivas do monarca, com um caráter pessoal. A exceção foi Alec Douglas-Home, brindado com a Ordem do Cardo, cuja história cultiva afinidade com a Escócia (daí também a eventual associação ao nome de Brown), tendo sido recriada por Jaime II de Inglaterra em 1687.

A rainha, o seu 10.º primeiro-ministro e o fantasma de Diana

Nem chega a ser um segredo mal guardado. Que Isabel II não teve uma relação sempre pacífica com Tony Blair está longe de ser uma novidade, apesar de o décimo primeiro-ministro do seu longo reinado de 67 anos ter revelado em tempos que partilhara inúmeros detalhes da sua vida privada com a soberana, por confiar que a monarca jamais os divulgaria. O problema foi quando o próprio Blair decidiu abrir o livro na sua autobiografia, “A Journey”, expondo boa parte dessas conversas que mantivera em privado com a rainha — de quem se espera que mantenha reserva em matéria de opiniões políticas ou que aborde questões pessoais com líderes políticos.

Há 10 anos, o The Telegraph dava conta de como Isabel II se sentira “traída” e apontava ainda para uma outra polémica: uma das passagens usadas pelo antigo primeiro-ministro era uma fala idêntica à que aparece no filme “A Rainha”, com Helen Mirren. “É o meu décimo primeiro-ministro. O primeiro foi Winston. Isso foi antes de você nascer”, teria dito Isabel II, o que resultou numa acusação de plágio que Blair descartou com o argumento de uma “estranha coincidência”.

Mas houve mais: em 2008, Cherie Blair, a mulher de Tony, publicava o livro de memórias “Speaking for Myself” onde acusava os criados de Balmoral de lhe terem revistado as malas durante a estadia do casal no castelo. Cherie foi mais longe, contando que o filho de ambos foi concebido naquele mesmo sítio, numa visita posterior, já que, temendo voltar a ver as malas revistadas, teve vergonha de transportar consigo contraceptivos.

Tony Blair And Cherie

Os Blair numa das visitas a Balmoral, na Escócia, o destino de Verão preferido de Isabel II © Getty Images

A acrimónia remonta aos anos 90 e à morte de Diana, princesa de Gales, acontecimento que abalou a imagem da monarquia britânica e por pouco não comprometeu as suas fundações. Para a história passa o papel decisivo que Blair terá desempenhado num dos períodos mais impopulares para a monarca, já que terá sido o primeiro-ministro quem convenceu uma renitente Isabel II a pôr a bandeira a meia haste e a emitir um discurso com transmissão televisiva no qual lamentava a morte de Lady Di. No entanto, pouco depois dos acontecimentos de 1997, Tony Blair surgia num documentário da BBC a dizer que “ninguém sabia o que ia na cabeça da rainha” naquele momento e que, apesar de alguma tristeza, estava preocupada com o impacto na monarquia. As palavras não foram acolhidas da melhor forma pela família real, que não terá gostado da forma como o primeiro-ministro geriu a morte da princesa.

Facto é que a 29 de abril de 2011, por ocasião do casamento de William e Kate Middleton, na abadia de Westminster, houve uma ausência especialmente notada na lista de 2.000 convidados. Na altura, um porta-voz do palácio de Buckingham alegou que Tony Blair não teria sido convidado por uma questão de protocolo, já que não pertencia à Ordem da Jarreteira. Entretanto, passaram nove anos e Blair, que abandonou Downing Street em 2007, depois de 10 anos em funções, continua sem condecorações — tanto Margaret Thatcher como John Major, seus antecessores mais próximos, foram distinguidos com a Ordem da Jarreteira.

O The Times lembra ainda como a tentativa de equilibrar as distinções entre trabalhistas e conservadores não é fácil por outras razões, mais ou menos óbvias: apenas um número limitado de ministros e figuras políticas de primeira linha são elegíveis neste contexto, tendo dado provas de suficiente relevância nas suas carreiras. Alguns nomes, no entanto, poderão vir a beneficiar desta revisão, como o antigo vice-primeiro-ministro Lord Prescott ou o antigo secretário do Interior Lord Blunkett. Também Margaret Beckett e Harriet Harman, figuras destacadas no seio do Labour poderão ser contempladas.