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Portugal não chegava a este Mundial do Egito com um histórico particularmente feliz contra equipas africanas mas quis o sorteio que, além da Islândia, tivesse dois conjuntos do continente organizador na primeira fase. E que o seu primeiro encontro depois da vitória inaugural frente aos escandinavos fosse contra a única equipa a quem vencera em edições passadas do Campeonato do Mundo, Marrocos. Se com os europeus havia favoritismo repartido antes da partida, até pelos resultados distintos que foram registados nos dois jogos de qualificação para o Europeu de 2022 na semana passada, agora a Seleção surgia na frente. Pelo menos na teoria. Mas nem sempre foi assim.

Chegou, viu e venceu: Portugal derrota Islândia no arranque do Mundial com Miguel Martins em destaque

No primeiro Mundial que disputou, em 1997 no Japão, Portugal perdeu com a Tunísia (19-18) e com o Egito (29-25); no seguinte, no ano de 2001 em França, voltou a perder com o Egito (23-19) mas ganhou a Marrocos (30-26); no último antes de um jejum de 18 anos, em 2003 com organização nacional, ganhou à Tunísia na segunda fase da prova (27-26) quando já não havia hipóteses de ambos em chegarem aos oito primeiros. Ou seja, e contas feitas, duas vitórias e três derrotas em cinco jogos, sendo que o único confronto com o conjunto marroquino tinha terminado com uma vitória. E esse era o objetivo para este sábado, sendo que uma vitória na segunda jornada da primeira fase não só carimbava o apuramento como fazia aproximar o primeiro lugar final no grupo.

“O jogo passado deu-nos confiança para os restantes jogos. A Islândia é uma grande seleção mas não é por isso que vamos subestimar os outros adversários, se eles aqui estão é porque conseguiram vencer adversários de alto nível no Campeonato Africano e têm mérito. Temos que entrar com a mesma humildade para estes jogos, todos os jogos são uma final”, alertou Alfredo Quintana, guarda-redes que teve uma eficácia de 31% no encontro inaugural da competição. “Todos os jogos são importantes. Todos contam como uma final porque o nosso principal objetivo é vencer. A principal característica que define estas equipas de Marrocos é a sua capacidade de entrega, deixam tudo dentro de campo e sabem jogar andebol, mas se fizermos o que sabemos fazer, penso que vamos vencer”, dizia na antevisão Miguel Martins, o melhor marcador com seis golos em sete remates.

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E foi nesse ponto que Portugal falhou durante os primeiros 30 minutos e se superou nos 30 minutos seguintes: não só a estratégia de ataques para 7×6 não resultou como Marrocos foi bem mais intenso e agressivo em todas as ações, chegando a ter uma vantagem de cinco golos antes de uma recuperação da Seleção que permitiu chegar ao intervalo empatado; depois, a mais valia nacional veio ao de cima e o conjunto de Paulo Pereira construiu uma vitória histórica por 33-20, superando a margem de dez golos com que bateu a Rep. Checa no Mundial de 2001 (29-19) e o Qatar no Mundial de 2003 (31-21) e ficando apenas atrás das goleadas com a Austrália (42-20) e com a Gronelândia (34-19), também referentes ao Mundial de 2003 que foi organizado por Portugal.

O encontro não começou da melhor forma. Longe disso. Não tanto por problemas defensivos, porque Humberto Gomes esteve à altura no lugar de Alfredo Quintana, mas pela falta de eficácia ofensiva num jogo 7×6 que Paulo Pereira arriscou desde início mas que permitiu a Marrocos criar uma vantagem de três golos (4-1) entre perdas de bola ou defesas de Idrissi com remate direto sem guarda-redes. Nem mesmo o desconto de tempo deu outro rumo ao encontro, com apenas dois golos marcados e menos de 25% de acerto nos dez minutos iniciais que nem de livre de sete metros conseguia ultrapassar o autêntico muro na baliza contrária (6-2 para os africanos).

Portugal ainda fez um ataque 6×6 sem central e com dois pivôs para procurar situação de superioridade na segunda linha mas o 7×6 voltou ainda que sem resultados práticos: como as falhas técnicas se sucediam, como Idrissi ainda não tinha perdido aquele momento de autêntica superação enquanto barreira quase intransponível e como a equipa marroquina continuava a visar logo a baliza vazia, o resultado chegou a ter uma desvantagem de cinco golos à beira dos 20 minutos (9-4), altura em que Miguel Martins quebrou essa resistência numa jogada individual, Humberto travou o ataque organizado de Marrocos Iturriza fez pela primeira vez golos seguidos para o conjunto nacional (9-6). O empate ao intervalo a 12 até era um mal menor perante a primeira parte falhada de Portugal, com Miguel Martins e Pedro Portela a serem dos poucos destaques nacionais perante um Idrissi a brilhar na baliza de Marrocos e o pivô Slassi a marcar quase metade dos golos dos africanos (cinco).

No segundo tempo, tudo mudou. Paulo Pereira aproveitou o descanso para preparar outro tipo de abordagem no ataque sem o 7×6 que não teve grande resultado perante o 6:0 mais baixo dos marroquinos, a intensidade não só na defesa mas em todas as ações aumentou e bastaram menos de 15 minutos para Portugal colocar um parcial de 11-1 no marcador que abriu alas a uma goleada natural que poderia ter outros números caso não fosse a entrada em falso na partida. Dos ataques rápidos aos contra-ataques explorando a velocidade dos pontas, do jogo organizado para lateral ou para pivô, a Seleção “atropelou” Marrocos e fechou a partida com o resultado de 33-20, aumentando a eficácia de remate de cerca de 35% no primeiro tempo para mais de 70% no cômputo geral.

Com este resultado, Portugal reforçou a liderança do grupo F com duas vitórias noutros jogos, tendo já garantida a presença na fase seguinte na competição com os três primeiros do grupo E (França, Noruega, Áustria e Suíça) e podendo fechar a primeira fase só com triunfos no encontro contra a Argélia na segunda-feira (17h)