As receitas da Farfetch cresceram 41% no último trimestre do ano (quando comparadas com o período homólogo) para 540 milhões de dólares e, pela primeira vez na história, a empresa atingiu resultados operacionais positivos (lucro). De acordo com as contas divulgadas nesta quinta-feira, depois do fecho do mercado norte-americano, o EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] ajustado passou do vermelho para o verde, ou seja, de 18 milhões negativos em 2019 para 10,376 milhões de dólares positivos em 2020. O volume de negócios também cresceu 43% e ultrapassou os mil milhões de dólares.

“2020 colocou a plataforma Farfetch à prova, mas graças às nossas capacidades robustas, operações resilientes e à extrema perseverança dos nossos mais de 5.000 Farfetchers, enfrentámos o desafio e capacitámos os nossos quase 1.400 vendedores do marketplace e os clientes da Farfetch Platform Solutions para conseguirmos atender continuamente  os milhões de consumidores de luxo em todo o globo”, afirmou José Neves, em comunicado.

Já os prejuízos da tecnológica também dispararam para 2,3 mil milhões de dólares no último trimestre, sendo que mais de 91% (2,1 mil milhões) destas perdas dizem respeito a um “impacto não monetário”, ou seja, estão relacionados com a valorização do preço das ações da Farfetch e com o financiamento que foi negociado em obrigações convertíveis. No mesmo período do ano anterior, as perdas foram de 110 milhões de dólares. Ao todo, em 2020, o grupo acumulou um prejuízo de 3,3 mil milhões de dólares. Em 2019, as perdas tinham sido de 373,6 milhões (cerca de 10 vezes menos).

“Em 2020, a Farfetch obteve um financiamento de 1,2 mil milhões a taxas de juros baixas ou inexistentes, através de obrigações convertíveis. Este financiamento permitiu-nos investir no negócio e executar a nossa visão para a plataforma. Como acontece com qualquer operação de financiamento, fizemos uma avaliação do retorno do investimento e acreditamos que o valor criado por esses investimentos para os acionistas excede em muito o custo para o negócio”, afirmou o responsável financeiro da empresa, Elliot Jordan, em comunicado.

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À medida que a avaliação de mercado da empresa aumenta, também aumenta o valor das obrigações e o custo a elas associado, ainda que numa fração reduzida comparativamente com a valorização no mercado, explica Elliot Jordan. “O preço das ações da Farfetch valorizou significativamente em 2020.” Na ótica do responsável financeiro, “o contrário seria igualmente verdade — uma desvalorização do valor das ações representaria uma redução do valor das obrigações convertíveis”.

“Estamos muito satisfeitos com o desempenho financeiro da Farfetch no último ano e a valorização do preço das ações, ao longo do último ano, demonstra que a empresa potenciou uma significativa criação de valor para os detentores de obrigações convertíveis, bem como para os nossos acionistas”, referiu Elliot Jordan.

Com a Farfetch a atingir um EBITDA ajustado positivo, a margem (diferença entre as receitas e os custos) do negócio também melhorou. Passou de uma margem negativa de 5,3% no último trimestre de 2020 para uma positiva de 2,2% nos mesmos meses de 2020. Em teoria, quanto mais elevadas forem as margens de um negócio, mais sólido e sustentado ele é.

No que diz respeito ao ano de 2020, o volume de negócios da tecnológica cresceu 49% e ultrapassou os 3 mil milhões de dólares. As receitas anuais também cresceram 64% para 1,7 mil milhões e os resultados operacionais também melhoraram: passaram de 121 milhões negativos para 47 milhões negativos, com as margens a acompanhar o mesmo ritmo: passaram de 13,6% negativos para 3,2% negativos. Quando se trata de margens negativas, quanto mais descerem e se aproximarem de zero melhor é.

Para 2021, a plataforma de moda de luxo estima faturar entre 3,6 e 3,7 mil milhões e que a margem operacional do negócio seja positiva, entre 1% e 2%.

Antes de se conhecerem os resultados, o analista Stephen Ju, do Credit Suisse, apontava para que a tecnológica apresentasse “bons resultados” no último trimestre do ano, com 3 milhões de utilizadores ativos na plataforma. Contudo, o analista, acredita que a oportunidade real para a loja online de moda de luxo vai acontecer depois da sua integração no site de comércio eletrónico do gigante chinês Alibaba, o Alibaba’s Luxury Pavilion.

Depois da apresentação dos resultados do terceiro trimestre de 2020, José Neves já tinha dito ao Observador que o objetivo era a empresa ter resultados operacionais positivos no final desse ano, ao contrário das estimativas anteriores, que apontavam para que isso acontecesse só em 2021. Sobre os 500 milhões de prejuízos que tinha apresentado, o líder da empresa não se mostrava preocupado e explicava que era “uma questão contabilística”.

“Estes movimentos são relativos às flutuação dos preços das ações da Farfetch. Portanto, quanto mais subir a Farfetch mais prejuízos vai haver. Se a Farfetch continuar a subir assim, vai haver mais outros 500 milhões no próximo trimestre. Ninguém quer saber”, disse ao Observador.

Entrevista a José Neves: Farfetch vai ter “lucros operacionais já no próximo trimestre de 2020”

Em causa estão as compensações paga em ações das empresas aos colaboradores e o financiamento em notas convertíveis, que o CEO diz “provisões”. “São ações que saem da empresa, não é dinheiro que sai da empresa”, diz, acrescentando que, “quando as ações da Farfetch sobem, nós, contabilisticamente temos de encaixar isso como um prejuízo teórico”.

No terceiro trimestre de 2020, a Farfetch tinha faturado mais 62% do que no mesmo período do ano anterior, totalizando 798 milhões de dólares, e mais 10% do que no segundo trimestre de 2020 (721,30 milhões de dólares). As receitas aumentarem 71% para 437,7 milhões de dólares, mas os prejuízos multiplicaram-se por cinco e atingiram 537 milhões de dólares.