Um juiz do tribunal de Nova Iorque decidiu a favor de antigos executivos da Farfetch, entre eles o fundador José Neves, que pediam a rejeição de uma ação movida por investidores da plataforma de comércio eletrónico de luxo. No fim de 2023, um grupo de investidores apresentou uma ação em que alegou que as afirmações feitas pelos gestores não estariam a representar adequadamente a situação financeira da empresa.

A ação foi apresentada pelos investidores na sequência da queda da Farfetch, que em dezembro de 2023 foi resgatada pela gigante de comércio eletrónico Coupang. A operação de compra ficou concluída em janeiro de 2024. O colapso da empresa determinou a saída da bolsa de Nova Iorque, deixando os donos de ações da Farfetch com prejuízos. Vários investidores organizaram-se em ações coletivas para tentar recuperar os montantes investidos.

A decisão, tomada pelo juiz Edgardo Ramos esta terça-feira, foi divulgada pela Bloomberg Law na quarta-feira e, mais tarde, pelo site The Fashion Law. Determina que a ação fica por aqui, não seguindo para fase de julgamento.

Na decisão, que foi disponibilizada online, é detalhado que a ação coletiva foi dirigida contra a Farfetch Limited e a subsidiária direta FF Realisations (anteriormente conhecida como Farfetch Holdings) e aos gestores José Neves, fundador e antigo CEO, Elliot Jordan, antigo diretor financeiro, e Stephanie Phair, antiga presidente do grupo Farfetch.

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Na decisão, o juiz Edgardo Ramos afirma que os investidores não conseguiram provar “afirmações falsas ou enganadoras que sustentem alegações de fraude de valores mobiliários”.

Os investidores apresentaram uma série de afirmações feitas pelos antigos gestores durante apresentações de resultados trimestrais da empresa e outras comunicações ao mercado. Por exemplo, sobre a situação na China, o desempenho no mercado dos EUA ou ainda aquisições, como a da Reebok.

Na decisão, o juiz afirma que “muitas das afirmações que são questionadas constituem otimismo corporativo ou puffery”, no sentido de representar uma situação elogiosa ou um exagero. Porém, para uma afirmação assim poder ser punida, “a representação deve ser um facto existente e não meramente uma expressão de uma opinião, expectativa ou declaração de intenção”, fundamentando-se em decisões de outros casos julgados nos EUA.

Os investidores questionaram afirmações como a China “estar a voltar ao crescimento” ou “a confiança de voltar a crescer” no mercado norte-americano como “exagero não julgável”. Ou seja, mesmo que um guidance otimista não se concretize, não pode ser julgado em tribunal só por isso.

O juiz considerou também que os queixosos “falharam em alegar de forma plausível que os réus sabiam ou que deviam saber que as afirmações questionadas eram falsas ou enganadoras”. Só assim é que haveria “prova forte circunstancial de mau comportamento ou de imprudência”.

Os investidores ainda vão ter a oportunidade de recorrer desta decisão.

José Neves, que fundou a Farfetch em 2008, demitiu-se do cargo de CEO em fevereiro de 2024. No mesmo mês, anunciou que iria assumir a liderança da Fundação José Neves.

Elliot Jordan abandonou o cargo de diretor financeiro no fim de 2023, após mais de oito anos na empresa. Já Stephanie Fair ficou na empresa até maio de 2024.