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Todas as cadeiras do topo onde costuma concentrar-se a claque Super Dragões tinham cartolinas brancas só com um nome e um número, “Quintana 1”. Os jogadores do Sporting entraram com camisolas negras também com “Quintana 1”, os jogadores do FC Porto tinham fumos negros no braço. Em cima, nos ecrãs, a imagem do guarda-redes luso cubano com duas frases: “As memórias do que vivi aqui vão ficar bem guardadas no meu coração. Foi o FC Porto que permitiu ser o que sou hoje”. Na tribuna, Pinto da Costa, de gravata a assinalar o luto. Na pista, Victor Iturriza e Daymaro Salina, os outros luso-cubanos do plantel de andebol dos portistas e dos mais próximos do guardião, receberam em lágrimas uma camisola do Sporting assinada por todos os jogadores por parte do capitão Pedro Gil e a equipa de hóquei entrou com a tarja “Eterno Quintana 1!”. Gonçalo Alves chorava.

É difícil estar aqui, muito difícil mesmo estar aqui especialmente porque foram muito mais as alegrias partilhadas do que as tristezas sentidas no Pavilhão do FC Porto. É dura a realidade, é duro o presente E seguramente que o tempo vai ajudar-nos a todos”, começou por assinalar o Porto Canal no início de uma transmissão que, após o falecimento de Quintana, seria sempre diferente para todos.

Antes do apito inicial do clássico, os ecrãs do Dragão Arena passaram imagens de algumas das milhares de defesas de Quintana no FC Porto, desde que chegou em março de 2011, e os jogadores respeitaram um minuto de silêncio arrepiante pelas expressões nas caras de todos os elementos. A vida não pode parar, o desporto não pode parar, mas aquele que tem sido um dos melhores encontros do Campeonato de hóquei em patins entre duas das melhores equipas do mundo estava marcado pela dor e consternação que assolaram não só o universo portista e do andebol mas também de todo o mundo das modalidades. E o resultado acabou quase por ser a parte secundária.

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“Esta semana está a ser particularmente difícil para toda a família portista. É um momento duro aquele que estamos a passar mas dentro do campo vamos dar tudo”, tinha referido na quinta-feira Reinaldo Garcia, capitão dos dragões, na véspera do desfecho trágico do guarda-redes luso-cubano. E além das ligações naturais que existem entre atletas que partilham o mesmo espaço nos treinos e nos jogos, foi também pouco antes do início do treino da equipa de hóquei em patins, o primeiro depois da goleada frente ao Juventude de Viana, que Alfredo Quintana sofreu uma paragem cardiorrespiratória que seria fatal, ao início da tarde da última segunda-feira. O contexto era complicado numa altura em que o FC Porto atravessava no hóquei em patins o melhor momento da época.

Depois das derrotas seguidas frente a Oliveirense e Benfica, e com dois jogos adiados entretanto (com o Valongo e o Famalicense), o Sporting desceu a um “enganador” quinto lugar que, em caso de vitória do acerto do calendário, colocaria os leões a dois pontos do FC Porto, com dez triunfos consecutivos antes do clássico após o empate cedido em Tomar. Era esse o peso do clássico para os lisboetas, que até tiveram uma entrada melhor com Toni Pérez e João Souto a criarem problemas à organização defensiva dos dragões. Depois, começou o grande duelo do jogo. Talvez um dos maiores duelos da atualidade: Ângelo Girão vs. Gonçalo Alves. O guarda-redes começou por levar a melhor ao travar um livre direto do avançado (7′), teve outra enorme defesa com os portistas em power play que bateu ainda no poste (8′) mas nada conseguiu fazer numa meia distância que fez o único golo até ao intervalo (20′), que chegou com Xavi Malián a travar um livre direto por décima falta de Ferran Font (24′).

Já no último minuto, Gonçalo Alves saiu lesionado após ser atingido na zona da nuca após remate de Rafa, ficando a fazer gelo até ir para o balneário num infortúnio que também já se tinha registado no aquecimento, quando um dos árbitros, Pedro Figueiredo, foi atingido por uma bola e abriu o sobrolho, sendo assistido pelos médicos das duas equipas. O golo do avançado fazia a diferença e eram os leões que estavam quase “tapados” por faltas.

No segundo tempo, o FC Porto de Guillem Cabestany entrou melhor, teve outra bola no poste por Reinaldo Garcia, mas nunca conseguiu aumentar a vantagem, permitindo que o Sporting fosse crescendo no encontro também pelas alterações que Paulo Freiras foi promovendo na equipa e ficasse perto do empate num remate ao poste de Verona. O golo podia cair para qualquer lado, com Di Benedetto a acertar no poste (38′) e Xavi Malián a travar uma grande penalidade de Gonzalo Romero com a máscara (39′), e os leões conseguiram mesmo a igualdade numa jogada com muitos protestos dos portistas, pedindo uma falta de Verona sobre Cocco antes do 1-1 de João Souto (40′). No entanto, o empate durou apenas alguns segundos com Gonçalo Alves a bisar de penálti (40′). O encontro estava numa fase de loucos, com Di Benedetto a falhar um livre direto (41′), Romero a empatar mais uma vez num grande remate de meia distância (42′), o Sporting a desperdiçar duas bolas paradas seguidas por Romero e Verona e Xavi Barroso a acertar na trave no lance seguinte (46′). O clássico terminaria mesmo com igualdade no final.

Não foi uma semana fácil para o FC Porto, nem para a equipa de andebol, nem para a equipa de hóquei, nem para a equipa de basquetebol nem para a família portista, jogadores, adeptos, estrutura do FC Porto. Foi uma semana de tristeza, de estarmos aqui todos os dias à espera de uma boa notícia, que não aconteceu. Tentámos tudo para vencer hoje e dar a vitória ao Quintana. Só posso desejar que, esteja onde estiver, olhe por nós e que… Vamos honrar o nome e o legado que deixou neste clube, pela excelente pessoa que era e pelo grande atleta que foi, a defender as cores do FC Porto. Que todos os adeptos e a estrutura honre a sua memória”, disse Gonçalo Alves em lágrimas no final, ao Porto Canal.

“Obrigado Bravo. Serás lembrado como um dos melhores de sempre deste clube. A tua alegria, a tua simplicidade em viver a vida , a tua amizade, esse sorriso que todos os dias estava presente serão para mim as melhores memórias que irei ter de ti. Até já amigo Quintana. Estarás sempre presente Guerreiro”, tinha escrito na véspera Gonçalo Alves. Este sábado, no Dragão Arena, e apesar de os dois golos não terem sido suficientes para a vitória, o avançado fez a melhor homenagem possível, terminando a ser abraçado de forma especial por todos os jogadores leoninos não só pela exibição mas, sobretudo, para ter força num momento particularmente difícil.