Em lugar algum no mundo uma mulher deveria ser obrigada, contra a sua vontade, a recolher-se por engravidar sem estar casada; em lugar algum no mundo, uma mulher deveria ter de suplicar, em desespero, para que um filho não lhe seja roubado à força logo após o parto; e em lugar algum no mundo, uma mulher deveria ter de viver com esse vazio dali para a frente. Deveria ser possível escrevermos coisas assim e que o mundo obedecesse às indicações que defendem os Direitos Humanos mas a História mostra-nos algo diferente e por isso mesmo o que escreveremos daqui para a frente não será fácil de digerir: a prática que descrevemos chama-se “adoção forçada” e consiste em colocar uma jovem grávida numa instituição durante o período de gestação para que posteriormente o bebé lhe seja retirado logo após o parto, por essas “crianças de amor”, como foram apelidadas, serem consideradas ilegítimas. Imagine o que é uma mãe nunca chegar a ver o rosto do seu bebé, a sentir a sua pele, e a primeira e a última memória que guarda do momento do parto é o choro do seu filho enquanto lhe é retirado. É disso que estamos a falar.

O nome desta nova série ‘’Love Child’’ que traduzindo significa “Criança de amor”, por definição, significa criança ilegítima por ter sido concebida sem que os progenitores estivessem casados e tornou-se um termo bastante comum nas últimas décadas, quando a verdade sobre estes casos de adoção forçada começou a ser reposta, processos legais instaurados e o véu levantado em vários países do mundo. Esta prática maquiavélica, que tem um profundo impacto na vida de quem a vive na primeira pessoa, foi muito comum no final do século XX, especificamente na década de 50, 60 e 70 em várias coordenadas geográficas: Reino Unido e Austrália, por exemplo.

P&R a Joana Espírito Santo - Psicóloga clínica, psicanalista

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Joana Espírito Santo – Psicóloga clínica, psicanalista, especialista na área de Intervenção Precoce e Prevenção. Pertence à Equipa de Formação da Fundação Brazelton / Gomes-Pedro para as Ciências do Bébé e da Família.

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1- Que impacto tem a maternidade roubada a uma mulher?
A maternidade pode ser desejada mesmo quando não é planeada. Durante a gravidez, a mulher passa por várias fases que a vão preparando física, psicológica e emocionalmente para ser mãe. A sua identidade vê-se transformada, nesse sentido, ao longo dos 9 meses de gestação e, abre-se um espaço – uma espécie de incubadora psíco-afectiva – para acolher um filho que, quando nasce, já foi sonhado e profundamente investido. A maternidade “roubada”, como lhe chama, seria o equivalente a roubar um pedaço significativo da própria identidade de uma mulher.

2- Mesmo que anos depois a verdade seja reposta e mãe e filho se reencontrem, a ferida da separação forçada fica para sempre? Uma separação à nascença é sempre, do ponto de vista de uma mulher cuja maternidade foi “roubada”, uma amputação de uma parte de si-mesma. Do ponto de vista do bebé recém-nascido, uma separação à nascença é, sabemo-lo hoje, um golpe de descontinuidade na relação com a mãe, que pode ter graves consequências ao nível do seu amadurecimento psico-emocional e social. Num reencontro com reposição da verdade, a ferida persiste e aqueles dois seres sentir-se-ão como estranhos, ainda que tenha persistido em ambos, ao longo dos anos, o desejo profundo de reencontro. Não conheço criança adoptada que não deseje procurar os seus pais biológicos. É possível a reconciliação com o passado? É difícil. Muito difícil. Diria que talvez seja possível uma conciliação com o presente.

3- De que forma é que o peso da memória histórica de uma situação como esta pode atravessar várias gerações da mesma família?
O impacto nas gerações seguintes pode manifestar-se e fá-lo-á tanto mais quanto menos se falar no assunto. Os chamados “segredos de família” acabam por trazer consequências a nível do comportamento, passadas várias gerações.

4- Que impacto julga que o lançamento de uma série como esta, que retrata factos verídicos, pode ter em famílias que viveram esta situação na primeira pessoa? Depende. Hoje em dia sabemos que existem séries televisivas que procuram fazer um trabalho com impacto social. Muitas vezes, os seus autores fazem um longo e sério trabalho de investigação e de entrevistas com as comunidades. Quando assim é, até pode adquirir valor terapêutico. Se assim não for, julgo que a série perde valor, não apenas pela superficialidade na “verdade” dos factos, como pela perda de oportunidade em tratar um assunto com rigor histórico e com responsabilidade social.

São vários os relatos que existem atualmente que dão conta do impacto deste afastamento: mulheres e homens, agora adultos, falam com algum pesar das consequências da adoção forçada. É o caso de Jo Lil, que em entrevista a um jornal australiano, contou que colocaram uma almofada no rosto da mãe, logo após o parto, para que a progenitora não tivesse memória alguma a que se agarrar. Recorda também a tristeza de em vez de ter sido acarinhada pela mãe e levada em segurança para casa, foi colocada, pelas parteiras, num berçário isolado enquanto esperava pela sua nova família. Uma família à espera de reconciliação (Será que é possível?).

Há mais “crianças de amor” e é esse o nome emprestado à nova série da AXN White que estreará nos ecrãs portugueses dia 12 de maio, às 21h25, e retrata esta dura realidade. É sobre elas e as suas mães que a trama desta série, de quatro temporadas, se desenrola no final dos anos 60 em King’s Cross, uma pequena localidade em Sidney, na Austrália, num período em que o sangue fervia na guelra dos jovens que procuravam a liberdade máxima – em plena revolução sexual -, as mulheres a emancipação e todos quebravam as regras instituídas. Enquanto os australianos viviam este período áureo no epicentro da mudança – no trailer, vê-se o registo da chegada à lua e os olhos dos personagens estão colados a ecrãs de televisão e é fascinante -, dentro dos portões do hospital australiano de King’s Cross, uma mulher desorientada grita, em desespero, as palavras que nenhuma mulher deveria ter de pensar: “por favor, por favor, deixe-me ver o meu bebé”.

Não queremos desvendar muito porque o leitor também merece que a penugem dos braços se arrepie enquanto a história é desvendada mas podemos dizer-lhe que a trama centra-se nas histórias de jovens grávidas de filhos ilegítimos, enviadas pelas suas famílias para instituições que assumiam a recolha destas mulheres durante o período da gestação, e que Joan Millar, uma jovem enfermeira londrina, será uma das personagens que oficiosamente tentará repor o bem, mitigando o atentado à liberdade daquelas mulheres.

“Love Child” é obrigatório e vai deixá-lo colado ao ecrã: fique a conhecer a história das mulheres que lutaram pelo direito legítimo de serem mães e das pessoas que as ajudaram a sobreviver quando o chão lhes foi roubado dos pés.

É um registo de amor, de revolta, de reposição da verdade, para que nunca mais se ouça dos lábios de uma mulher: “Eu quero o meu bebé de volta”.

Não perca: estreia dia 12 de maio, às 21h25, no AXN White.