O fundador do Bloco de Esquerda Francisco Louçã denunciou, este sábado, que o “capitalismo tardio” e “vigilante” só pode ser “autoritário” e comparou-o a “um vírus” que leva à precarização do trabalho e à ascensão da extrema-direita.

“Este capitalismo tem uma força extraordinária, porque se adapta, está sempre a criar novos mecanismos de reprodução, ou seja, comporta-se como um vírus”, que “vai ganhando força, multiplicando-se através da destruição da vida”, afirmou Francisco Louçã.

O fundador do partido falava na abertura da VII Convenção Regional do Bloco de Esquerda/Açores, que se realiza este sábado, em Ponta Delgada, numa sessão em que se focou nos efeitos do “capitalismo tardio”, “uma evolução recente do capitalismo, das últimas décadas”, que é “a forma como o sistema capitalista absorve os dados sobre a nossa vida e procura a nossa sociabilidade, ou seja, a nossa comunicação”, através das tecnologias.

Para o histórico do partido, este sistema é uma “forma de autoritarismo” e a “hipercomunicação é o máximo isolamento das pessoas”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Esse “vírus” alimenta-se “da captação de tudo o que é a nossa vida no trabalho, a nossa vida fora do trabalho, as nossas comunicações, a nossa sociabilidade, os nossos amores, as nossas relações sociais com a família, com as pessoas, com os amigos — tudo isso é ‘dadocêntrico’, tudo isso é capitalismo de vigilância”, concretizou.

Referindo-se ao Facebook, Louçã lamentou que a “maior empresa do mundo” seja também “a empresa mais opaca do mundo”.

“Acresce que ela nos puxa para dentro deste sistema, que é uma ilusão de identidade”, sublinhou, acrescentando que “um dos aspetos mais perversos da transformação do modo de comunicação é o anonimato”.

O ex-coordenador do BE lembrou que “qualquer pessoa pode ser o que quiser ser” e que “metade dos perfis do Facebook são perfis falsos”.

“O potencial político disto é extraordinário, vejam o Chega. O Chega tem exército de 20 mil perfis falsos”, apontou o histórico do Bloco.

Segundo Louçã, “uma das explicações para o ascenso da extrema-direita e para a radicalização da violência no discurso político é esta forma da ilusão da identidade, da multiplicação do anonimato, da polarização e da tribalização através do discurso obsessivo a partir das mentiras”.

“Outra das expressões disto é o que permite novas formas de trabalho, como a Uber ou a Glovo, que se multiplicaram muito durante o tempo da pandemia”, destacou.

O economista referiu que “Portugal é um dos países mais vulneráveis a isso”, citando dados da Comissão Europeia que põem Portugal abaixo do Reino Unido e de Espanha, mas acima da média europeia de trabalhadores em plataformas digitais.

Para o político, “a economia do biscate, da flexibilidade total, é uma das características do capitalismo tardio”, que “é um regime de acumulação financeira, baseado numa renda financeira, baseado na captação de recursos públicos, baseado na exploração absoluta, que é a redução dos salários” e “corresponde também à precarização do trabalho”.

Lembrou ainda que “o espaço da comunicação é o maior espaço do mundo onde não há governo”, reiterando que “este capitalismo só pode ser autoritário”.

“Só de forma autoritária é que se consegue impor uma vida tão empobrecida, tão dividida, tão espartilhada, tão diminuída”, enquanto se imprime “a ilusão do maior contacto, a ilusão da multiplicação, no sentido em que somos cada vez mais isolados, na verdade, porque o nosso contacto não pertence a nós, é determinado pelo poder de uma empresa, não é tutelado por ninguém”.