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Morreu o filósofo Jean-Luc Nancy, anunciou o Le Monde confirmando as notícias avançadas esta terça-feira pelo jornal regional Dernières Nouvelles d’Alsace. Tinha 81 anos e terá perdido a vida na última segunda-feira. É especialmente reconhecido pelo trabalho desenvolvido no âmbito dos debates sobre a vida comunitária e sobre a natureza do político.

A obra de Jean-Luc Nancy é inspirada em filósofos como Jacques Derrida, Philippe Lacoue-Labarthe e Friedrich Nietzsche; e ficou marcada pela abundância dos trabalhos que desenvolveu e a heterogeneidade dos temas que abordou. Escreveu sobre a relação humana com a natureza, sobre relações sexuais, sobre arte e literatura.

Numa das suas obras, traduzidas para português com o título “A Equivalência das Catástrofes”, o filósofo argumenta que “já não há catástrofes naturais, já só há uma catástrofe civilizacional que se propaga em todas as ocasiões”: “Transformámos, efetivamente, a natureza e já não podemos falar dela. Necessitamos de conseguir pensar uma totalidade na qual não valha já a distinção entre natureza e técnica e na qual, ao mesmo tempo, não seja pertinente uma relação entre ‘este mundo’ e qualquer ‘outro mundo’“.

Nascido em Bordéus em julho de 1940, Jean-Luc Nancy formou-se em Filosofia pela Universidade de Paris em 1962 e lecionou brevemente na Alsácia antes de se tornar professor assistente no Instituto de Filosofia de Estrasburgo, em 1968. Cinco anos mais tarde, tirou um doutoramento na Universidade de Estrasburgo — onde também lecionou e se tornou professor emérito.

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Em outubro de 2020, o filósofo francês publicou o livro “Un Trop Humain Virus” — em português, “Um Vírus Muito Humano”. Nesta obra, a última publicada pelo autor, Jean-Luc Nancy diz que “a Europa, desde 1945, exportava as suas guerras”, mas agora “importa uma epidemia que semeia confusão”. No livro, o filósofo refere-se ao coronavírus como um “produto da globalização” e refere que “esta crise de saúde decorre das nossas condições de vida, alimentação e intoxicação”.

“O que era ‘divino’ tornou-se humano – humano demais, como diz Nietzsche. A lupa viral amplia as características de nossas contradições e os nossos limites. É um princípio de realidade que bate à nossa porta. A morte, que exportamos com as guerras, que pensávamos estar confinada a alguns outros vírus e cancros, está à espreita ao virar da esquina. Nós consideramo-nos humanos, mas certamente não sobre-humanos, nem transumanos”.

Entre as obras mais importantes em que Jean-Luc Nancy participou estão “Les Fins de L’Homme”, sobre a obra de Jacques Derrida; “La Communauté Désœuvrée”, o primeiro livro sobre a temática das comunidades; “L’Expérience de la Liberté”, que é a sua tese de doutoramento, sobre as visões de Immanuel Kant, von  Schelling, Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger sobre a liberdade; e “Être singulier pluriel”, sobre como a identidade pessoal de alguém é indissociável da comunidade a que essa pessoa pertence.