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Tempo limitado, distanciamento de pelo menos 10 metros, grupos separados, esquemas preparados antes ao longo de dois campos na Academia. O regresso aos treinos do Sporting após o primeiro confinamento, a 20 de abril de 2020, teve jogadores com roupas próximas que traziam de casa, muitos cumprimentos ao longe e os inevitáveis coletes com GPS integrado para otimizar depois a preparação de cada atleta. Acuña e Rafael Camacho apanharam o período do dia com mais chuva, Sporar e Wendel tiveram uns raios de sol. O plantel principal voltava com um sorriso mais novo do que nunca entre seis jovens chamados aos trabalhos.

O início de Rúben Amorim não podia ter sido mais atípico. Pandemia à parte, o técnico assinou pelos leões, despediu-se de Braga, orientou o primeiro treino em Lisboa, foi apresentado, fez a convocatória, realizou o primeiro encontro em Alvalade frente ao Desp. Aves (e aqui passamos ao lado das manifestações antes do jogo, da casa a meio gás e do facto de não ter ainda o nível necessário para ser o treinador principal) e parou. Literalmente, parou. Ele e todos. Fechado em casa no confinamento, foi vendo vídeos, falando por telefone com pessoas da Academia, comunicando com os jogadores. Nesse período consolidou as ideias que tinha de um clube e de equipas que conhecia bem. Assim, e de forma natural, quis aproveitar os dez encontros que ainda faltavam da Primeira Liga em 2019/20 para conhecer alguns jogadores em contexto de treino e, mais tarde, de competição. Eram eles que faziam parte do primeiro grupo de elite da formação na nova era.

Por lá estavam Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Matheus Nunes, Joelson Fernandes, Tiago Tomás e Nuno Mendes. Todos eram então encarados como potenciais mais valias prontas a subir ao palco da equipa principal mas um, em especial um, era apontado como um verdadeiro fenómeno. “São todos bons, vão ser todos úteis, mas o Nuno é um fora de série. Pode ser o que ele quiser”, comentou o técnico junto de pessoas próximas. Menos de um ano e meio depois, o fora de série vai jogar com os fora de série. Neste caso, com os fora de série Messi, Neymar, Mbappé e companhia. Mas podiam ser outros, na liga inglesa ou na liga espanhola. A venda do internacional de 19 anos era vista em Alvalade como uma mera questão de tempo.

A estreia, dois contratos em seis meses e as primeiras abordagens dos “tubarões”

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A 12 de junho, uma sexta-feira, Nuno Mendes fazia a estreia na equipa principal como suplente utilizado na difícil vitória caseira frente ao P. Ferreira, entrando para o lugar de Acuña aos 72′. Seis dias depois, o lateral garantia a primeira titularidade na vitória também em casa com o Tondela. Alvalade era literalmente uma segunda casa para o jogador, que nessa mesma noite ficou até mais tarde no estádio para assinar contrato de profissional com os leões num dia 19 de junho que coincidia com o seu 18.º aniversário. Aquele sorriso bem aberto contava tudo: o menino que em 2011 tinha trocado as escolinhas do Despertar, de Casal de Cambra, pelo Sporting era uma aposta mais do que certa do conjunto verde e branco.

Os leões pagaram então 250 euros pela mudança do jogador, mais 500 euros se chegasse a Sub-15 e mais 25 mil euros fazendo cinco encontros pela equipa principal. Agora, uma década depois, preparam-se para ter a entrar nos seus cofres um montante total que pode ascender aos 47 milhões de euros. E a renovação de contrato ainda nesse mesmo ano de 2020 foi apenas mais um passo natural perante o que se passava.

Nuno Mendes, como todos os jovens que passam pela formação e têm perspetivas internas de atingirem o patamar máximo da pirâmide do futebol, tinha assinado o habitual contrato standard que existe por regra no Sporting para estes casos: um salário mais baixo comparando com os que se praticam em média na equipa A, bónus progressivos por obtenção de objetivos, uma cláusula de rescisão que varia entre os 45 e os 60 milhões mediante a posição que ocupa em campo (neste caso, por ser defesa, de 45). Em dezembro, já perto do Natal, o lateral renovou o seu vínculo, que continuou a ser até 2025 mas passou a ter uma cláusula de 70 milhões. O que tinha mudado? A primeira parte do Campeonato e uma série de contactos pelo jogador.

De diretores desportivos a responsáveis pelo scouting, foram muitos os contactos feitos pelos principais clubes europeus com Frederico Varandas, presidente do Sporting, Hugo Viana, diretor desportivo dos leões, e Miguel Pinho, agente do jogador. Real Madrid, Barcelona, Liverpool, Manchester United, Manchester City, PSG, todos queriam saber mais sobre Nuno Mendes. Aqui, os valores não eram questão e a prioridade passava por reunir o máximo de informação que não se vê em jogo como o comportamento no grupo, como é fora de campo e qual é o percurso nas seleções nacionais. Estava deixado um alerta a breve prazo.

As duas propostas concretas apresentadas até ao acordo por 7 + 40 milhões de euros

No final da temporada, com o título que quebrou o maior jejum sem Campeonatos do Sporting garantido e um Europeu onde Nuno Mendes acabou por não aparecer devido a uma pequena lesão que impediu que fosse chamado à titularidade na fase de grupos, os leões quiseram perceber junto do empresário do jogador se iria aparecer alguma proposta concreta que chegasse aos 50/60 milhões pelo lateral. No máximo, entre Miguel Pinho e outros intermediários em representação de clubes, uma saída podia render cerca de 35 milhões. Aí, nesses meses de maio, junho e julho, a diferença de valores inviabilizou qualquer proposta concreta.

A prioridade em Alvalade para a nova época passou sempre por fazer uma grande venda (uma inevitabilidade no plano nacional), ir de forma cirúrgica ao mercado olhando sempre para a Primeira Liga como já tinha acontecido em 2020/21 e perceber como iria funcionar o resto das janelas de transferências europeias. Foi nesse período, sobretudo nas últimas semanas, que se foi percebendo a proliferação de negócios que previam um empréstimo com opção obrigatória ou em moldes semelhantes. Faltava apenas a proposta e foi durante o fim de semana que começou a verdadeira negociação que levou Nuno Mendes ao PSG.

Tudo começou com uma chamada de Leonardo, diretor desportivo do PSG, para Hugo Viana, homólogo do Sporting. Miguel Pinho sabia do contacto dos franceses, Frederico Varandas estava ao corrente do que se estava a passar. A equipa do Parque dos Príncipes, para quem o mundo olhava apenas interessado para saber se haveria ou não uma venda de Kylian Mbappé ao Real Madrid, tinha visto uma janela de oportunidade para reforçar a única posição que ainda considerava por preencher no plantel galáctico de Mauricio Pochettino. Ia começar aí uma autêntica maratona de chamadas (a escassez de tempo para o fecho do mercado fez com que tudo se passasse sobretudo por telefone, sem encontros pessoais ou por Zoom) entre Paris, onde estava Leonardo, Portugal, por onde ia andando Miguel Pinho, e Alcochete, onde se encontravam Varandas, Viana e Bernardo Palmeiro, assessor do departamento de futebol profissional.

Antes da proposta final que ficaria fechada ao início da tarde desta terça-feira, o Observador sabe que houve duas outras que não tiveram seguimento e que colocavam valores fixos e variáveis mediante a obtenção de objetivos: a primeira apostava menos nos valores fixos e mais nas cláusulas por objetivos, que acabaram depois por cair na negociação; a segunda previa o pagamento de dez milhões de empréstimo mais uma cláusula de 25 milhões fixos mais dez em variáveis. As negociações foram andando, entretanto o nome de Pablo Sarabia apareceu também como possibilidade, e a saída de Nuno Mendes ficou balizada nos sete milhões de euros pelo empréstimo mais 40 milhões de opção que dificilmente não serão exercidos.

A hipótese Sarabia, as notícias de Espanha e os powerbanks sempre à mão

A possibilidade de Pablo Sarabia apareceu também este fim de semana e começou aí a ser trabalhada. Nuno Mendes poderia sair para o PSG de forma isolada mas os responsáveis leoninos também sabiam que, se assim fosse, seria impossível suportar o ordenado, ou parte dele, do internacional espanhol de 29 anos. Aqui, ao contrário do que aconteceu com o lateral, foi quase uma conjugação cósmica: Frederico Varandas e Hugo Viana tiveram conhecimento da vontade do avançado em deixar Paris tendo em conta as possibilidades mais limitadas que teria de jogar, falaram com o clube francês e a hipótese começou a ser trabalhada, sendo que no final ficou decidido de que serão os gauleses a suportarem na íntegra o salário do jogador, naquele que em termos globais é um encargo total para os parisienses de oito milhões de euros.

Foram dezenas, várias dezenas de chamadas ao longo sobretudo de 48 horas até esta terça-feira – e é por isso que existe mais do que um telefone e powerbanks sempre à mão. Pelo meio, Rúben Amorim falou também com Sarabia, há muito apreciado no conjunto leonino, explicando o projeto desportivo do clube, a ideia que tinha para a sua integração e a ideia de jogo da equipa. Se o jogador estava desde início animado com a possibilidade, ainda mais ficou ao perceber que poderia ter tudo o que pretendia em 2021/22: um conjunto de Liga dos Campeões onde pudesse ser titular, uma equipa com ideia positiva e um grupo que permitisse uma integração fácil (como lhe foi também garantido por Pedro Porro). No entanto, o Sporting não estava sozinho na corrida pelo internacional espanhol. Dois clubes surgiam no radar leonino.

Em relação a Nuno Mendes, e apesar da ligação próxima do Manchester City – que teve sempre o lateral em alta consideração – ao clube verde e branco, houve nos últimos dias dois clubes que manifestaram também vontade de contratar o jogador: o Atl. Madrid, que fez chegar uma abordagem através de um intermediário mas que não concretizou a intenção; e o Barcelona, que apresentando propostas concretas cedo percebeu que não iria conseguir encontrar uma solução para assegurar o internacional português como viria a acontecer no resto do mercado (só avançados foram três tentados antes da cedência de De Jong). Por coincidência, esses eram os clubes apontados também pela imprensa espanhola como possíveis destinos de Sarabia, a par da sua ex-equipa, o Sevilha. No entanto, as conversas com o agente do avançado na segunda-feira tinham deixado o empréstimo tinham deixado também esse negócio bem encaminhado para a conclusão.

Assim, e ao início da tarde desta terça-feira, o PSG enviou os contratos para o Sporting, sendo que existia ainda a parte do clube português com o avançado espanhol (neste caso sem Miguel Pinho, que representava apenas Nuno Mendes, mas com o agente do jogador de 29 anos). Hugo Viana e Bernardo Palmeiro confirmavam todos os pormenores em ligação com Frederico Varandas, o acordo começava a ser fechado com as assinaturas de todas as partes e Miguel Pinho, que se encontrava então numa unidade hoteleira da capital onde foi “apanhado” pela reportagem da SIC Notícias ao final da tarde, já sabia que iria sair dali para o Algarve onde o lateral estaria à noite concentrado com a Seleção (sendo que só mesmo quando tudo ficou fechado é que ficou a saber por parte do seu agente que iria mesmo ser reforço do PSG).

Depois de todas as diligências, já com os materiais preparados pelos dois clubes para a apresentação oficial através das contas oficiais nas redes sociais, faltavam apenas as confirmações oficiais por parte da Ligue 1 e da Liga Portugal de que tudo tinha entrado a tempo – ou não fosse o último dia do mercado de transferências uma autêntica montanha-russa de emoções onde um par de minutos pode fazer no final toda a diferença. PSG e Sporting sabiam que poderia ser um pouco em cima mas estavam confiantes desse “risco”, tanto que por essa hora Frederico Varandas e Hugo Viana já tinham falado com Nuno Mendes para lhe darem os parabéns por todo o percurso nos leões e para desejarem a melhor sorte no novo projeto dos galácticos. Menos de um ano e meio depois, o lateral confirmou mesmo aquilo que Amorim tinha vaticinado.