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“Nova Ordem”

Um filme muito confuso, tanto ideologicamente como do ponto de vista narrativo, do mexicano Michel Franco, autor do curioso “Chronic” (2015), com Tim Roth. Uma violenta revolta popular eclode na Cidade do México, espalhando-se a todo o país, e a casa de uma família abastada onde decorre um casamento é invadida, saqueada e vandalizada, com a cumplicidade de quase todos os empregados. Os convidados ou são mortos, ou raptados para pedirem resgate. Alguns dos militares que deviam proteger a população estão também envolvidos nos sequestros, e a tropa poderá estar a manipular os revoltosos, ou a aproveitar-se da situação de caos para chegar ao poder. Faltam a “Nova Ordem” personagens bem definidos em que nos possamos apoiar e a intenção de Franco fica muito pouco nítida. A fita é uma alegoria sobre o que poderá vir a acontecer no México (onde causou enorme controvérsia) num futuro próximo? Um pouco por todo o mundo? Franco não filma mal, mas “Nova Ordem” é demasiado desconexo, turvo e esquemático para ser levado a sério. Mesmo assim, ganhou o Grande Prémio do Júri no Festival de Veneza.

“Silêncio — Vozes de Lisboa”

Céline Coste Carlisle e Judit Kalmár assinam este documentário feito antes da pandemia, que vai em busca das vozes populares do fado que ainda restam em Lisboa, mas que acaba por documentar a descaracterização e o aburguesamento galopante de bairros tradicionais como Alfama, que nos últimos anos têm vindo a perder a sua população. Os inquilinos das casas, grande parte deles muito idosos, ou morreram ou não puderam suportar os enormes aumentos das rendas e tiveram que se mudar para os subúrbios (caso de Ivone Dias, uma das fadistas amadoras em que a dupla de realizadoras foca a sua atenção), e os prédios foram transformados em “hostels” ou alugados a residentes estrangeiros, afetando a identidade dos bairros, a sua autenticidade humana e o seu casticismo. Pelo meio, canta-se algum fado (genuinamente alfacinha ou com um toque mais “hipster”), fado esse também ameaçado de estandardização pelo turismo de massas, e que agora se manifesta mais nas periferias da capital, onde os residentes sobreviventes dos bairros populares se instalaram.

“Rifkin’s Festival”

Depois de quatro filmes nos EUA, Woody Allen regressou à Europa em “Rifkin’s Festival”, todo ele rodado em Espanha, no Festival de Cinema de San Sebastián, de que seria a fita de abertura em 2020. Wallace Shawn interpreta a personagem do título, Mort Rifkin, um intelectual judeu novaiorquino que deu aulas de cinema e quer escrever um grande romance mas sofre de bloqueio criativo, e que, relutantemente, acompanha a mulher, Sue (Gina Gershon), que trabalha como relações públicas de cinema, ao Festival de San Sebastián. Esta tem a seu cargo a agenda do pretensioso realizador francês da moda, Philippe (Louis Garrel), que planeia fazer um filme que promova a paz entre árabes e israelitas no Médio Oriente, ao mesmo tempo que se vai insinuando junto de Sue, para crescente desconfiança do seu neurótico e hipocondríaco marido. “Rifkin’s Festival” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.

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