Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Nothing [nada]”. Foi apenas com esta palavra que Diego Simeone, treinador do Atlético Madrid, respondeu a Jürgen Klopp, treinador do Liverpool, quando este comentou o estilo de jogo dos madrilenos: “Não poderia ter mais respeito pelo que o Atlético faz. Se gosto? Nem por isso, mas é uma coisa pessoal. Prefiro um estilo de jogo diferente, mas eles tiveram muitos êxitos assim”. E estava lançado assim, pelo menos pelos técnicos, o Atlético Madrid-Liverpool desta terça-feira, um dos encontros de cartaz desta jornada da Liga dos Campeões. Além de um jogo grande, que redundou também num grande jogo, era também um duelo que representava um reencontro e, com esse reencontro, muito mais.

É que muitos se deverão lembrar da última eliminatória entre os dois clubes, que culminou em março de 2020. Sim, esse março de 2020. Foi, adjetivando de uma forma livre, o último jogo antes de tudo fechar devido à Covid-19. Nos oitavos de final da Liga dos Campeões 2019/2020, o Atlético Madrid ganhou em casa por 1-0 e, na 2.ª volta da eliminatória, em Anfield, conseguiu ganhar após prolongamento, por 3-2, eliminando o então campeão europeu Liverpool. Desse jogo, segundo um relatório, terão resultado 41 mortos devido aos contágios que advieram desse encontro entre os dois clubes. Não sendo possível esquecer esta parte negativa, passe-se ao presente e ao futuro, bem como ao futebol saudável e de estádio cheio.

Voltemos a Klopp…

“Não jogámos bem em Madrid dessa vez. Aprendemos muito com esses dois jogos. O Atlético Madrid mudou alguns jogadores, mas não ficou mais fraco. No jogo da segunda volta estava chateado e dececionado sobre o que estava a passar [início da pandemia de Covid-19] e tínhamos de estar concentrados no futebol em circunstâncias estranhas. O Atlético é uma equipa muito boa que defende como um todo. O Atlético é diferente, joga com um sistema diferente, mas continua a ser uma máquina de obter resultados. É incrível como Simeone consegue manter todos ligados”, referiu antes do jogo o treinador do Liverpool. E confirmou-se, confirmando-se também o que Simeone disse sobre o adversário: “O Liverpool tem mobilidade, velocidade, é contundente na área, enfrenta duelos individuais e deixa espaços sem medo nas costas da defesa, além de ser perigoso no contra-ataque. Eles têm grandes jogadores, com uma ideia de jogo muito clara e com uma ataque muito intenso, pelo que iremos tentar levar o jogo onde acreditamos que lhes podemos causar mais danos”.

Confirmando-se tanta coisa, como é que correu o jogo? Primeiro, apareceu a tal “velocidade” e “ataque muito intenso” Liverpool. O Atlético Madrid apresentava-se com uma linha de cinco atrás e com Suárez no banco, com os avançados a serem João Félix e Griezmann. Simeone não queria apenas defender, mas queria, lá está, “levar o jogo” para onde lhe convinha. Correu muito mal antes de correr bem. É que Salah marcou, com alguma sorte, logo aos 8′, e Keita, aos 13′, com um grande remate, colocou de repente o jogo em 0-2. Tudo corria de feição ao Liverpool e, da linha lateral, até se via algo um pouco inesperado: Simeone a pedir muitas vezes calma aos jogadores. Ao quarto de hora de jogo adivinhava-se uma noite comprida e dura para os colchoneros e os seus adeptos que enchiam o Wanda Metropolitano, em Madrid.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A poeira acabou por assentar, mas talvez em demasia para o Liverpool. É que como tinha dito Klopp: “é incrível como Simeone consegue manter todos ligados”. Teve então a palavra o homem que ainda divide tantas opiniões, aplausos e assobios, entre os adeptos dos madrilenos. Antoine Griezmann desviou um remate de Koke e reduziu a desvantagem da sua equipa, aos 20′, e marcou novamente passados cerca de 15 minutos, após passe de João Félix, uma bela receção orientada e uma finalização meio de carrinho. Grande trabalho do português no segundo golo da sua equipa, que levou o estádio à loucura e Simeone, como é costume desta vez, a correr pela linha lateral a festejar, como tanto gosta, com o público. O argentino já preparava a entrada de Renan Lodi, que voltou para trás a mando do seu treinador depois do empate que fez o Wanda Metropolitano esquecer divisões internas em relação a Griezmann.

E Griezmann voltou a estar em destaque, mas pelos piores motivos, ao ver vermelho direto no arranque do segundo tempo após atingir com o pé a cabeça de Roberto Firmino (52′). O francês não tem intenção, mas joga a bola de forma perigosa e descuidada, atingido sem olhar o colega de profissão. Foi expulso e, aí, não houve divisões no estádio, tal como nos golos. Saiu do campo sob uma ovação.

O jogo ficou 11 para 10 e parecia estar destinado ao empate, até que Hermoso fez falta dentro na área sobre o Diogo Jota, entrado no segundo tempo, numa grande penalidade que Salah transformou em golo, fazendo o 3-2 para a sua equipa. A ganhar e com mais um homem a vitória do Liverpool parecia mais a caminho do que o empate do Atlético, mas o Wanda ainda gritou e muito, quando o árbitro do encontro foi ver as imagens de um lance entre o português Jota e Giménez, mas considerou que não tinha havido grande penalidade. Simeone não queria acreditar, os seus jogadores também não, mas foi assim que ficou decidido e, à falta de mais lances que dessem ainda mais incidências a um grande jogo, assim ficou o resultado final, com uma vitória muito sofrida do Liverpool.