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Chegou numa altura de crise desportiva e institucional, ficou com um peso acrescido nas costas pelo valor da cláusula de rescisão, teve apenas uma semana depois o dilema de trabalhar com uma equipa que herdara há um par de dias via Zoom ou por telefone. Menos de dois anos depois, tornou-se numa espécie de herói verde e branco inquestionável que treina no campo, que nivela estados de espírito nas conferências de imprensa, que funciona quase como um faz tudo que tão depressa deixa traços de manager à inglesa como assume tal qual fosse seu o esforço para melhorar a relva de Alvalade. Rúben Amorim é um faz tudo que consegue fazer com que os que o rodeiam façam tudo à escala do aparentemente impossível e, após a conquista da Liga quebrando o maior jejum do clube, poderia reforçar a história nos leões via Liga dos Campeões.

Sporting vence B. Dortmund com bis de Pote e está nos oitavos da Champions pela segunda vez na história

Pelo contexto atual, era a melhor altura para acontecer. Depois de ganhar ao Varzim, o Sporting conseguiu a maior série de vitórias seguidas com o treinador que chegou em março de 2020 (nove) e poderia igualar o terceiro melhor registo de sempre em termos históricos, apenas atrás das caminhadas de Galloway (1951/52, 12), Fernando Vaz (1969/70, 12) e Robert Kelly (1946/47, 16). Pelo contexto histórico, nunca houve uma boa altura para acontecer. Apesar das várias presenças na fase de grupos da Champions, e das boas prestações com Real Madrid, Barcelona, Inter ou Juventus entre outros, só por uma vez conseguira a qualificação para uns oitavos que deixaram tudo menos boas memórias diante do Bayern (0-5 em casa, 1-7 fora).

No entanto, e mais uma vez, havia Amorim. E com Amorim, das palavras aos atos, até o impossível se foi tornando um misto entre possível e provável. Assim se justificava a esperança de um estádio que voltava a encher com um ambiente que há muito não se via tendo em conta as dificuldades no período pré-pandemia.

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“Vou ser sincero: só penso em vencer pelos jogadores, pelo clube e pelo encaixe financeiro. Passando à próxima fase podemos aguentar mais jogadores, não tendo essa preocupação… Penso no futuro do clube, na alegria dos adeptos. É esse o meu pensamento. Já ficar na história por ganhar aos alemães, para mim, não tem qualquer valor. Quero apenas um Sporting sempre na Europa, a ganhar a italianos, espanhóis, alemães. É esse o objetivo, que passa também pelo encaixe, para fazer fazer crescer o clube, a Academia…”, comentara na véspera perante a possibilidade de conseguir apenas a terceira vitória em 28 confrontos contra equipas alemãs seguindo os registo de Paulo Bento (2009, Hertha) e Marco Silva (2014, Schalke 04).

“Momento de maior pressão no Sporting? Já tivemos outros momentos mais difíceis. Sinto a pressão porque acho que é claro o caminho que temos mas depende de resultados desportivos e financeiros. Não há muitas maneiras de fazer dinheiro. Preferimos fazer assim, para ter margem. Só pretendo manter os jogadores, sabendo que é muito importante ter receita e sabendo do nosso momento atual. Em vez de pensar em recordes, queremos passar porque o Sporting merece. É um grande clube mas ainda temos um caminho longo que depende destas coisas. Temos essa pressão e queremos fazer acontecer”, acrescentara.

Questão: como poderia o Sporting bater um B. Dortmund muito desfalcado mas ainda assim mais experiente, mais forte em contexto europeu e a jogar com dois resultados (o empate manteria os sete pontos para cada equipa mas com vantagem para os germânicos)? “Acredito sempre que a equipa é capaz de fazer mais e melhor. Sempre disse que estávamos aqui para competir, para passar, sabendo a diferença na experiência e no número de vezes em que estamos cá em comparação com o B. Dortmund. O jogo lá foi bem conseguido defensivamente mas na frente temos de melhorar. Quero que a equipa entenda o momento do jogo, quando defender, quando contra-atacar, e se pudermos ter bola, como tivemos na Alemanha, mas onde não fomos agressivos no ataque. Se pudermos ter bola, temos de ser mais agressivos”, comentara.

O Sporting nem sempre foi assim, longe disso. E até essa agressividade foi às vezes mal canalizada, sobretudo na forma como a equipa não conseguiu aproveitar como podia os espaços para transições que se iam abrindo nos germânicos. No entanto, o Sporting foi Sporting. E o que é ser hoje Sporting? Ser uma equipa compacta, solidária, com grande espírito de entreajuda e um coração do tamanho da ambição que este núcleo de atletas foi ganhando com Amorim. A partir daí, apareceram as individualidades. Adán, sempre seguro na baliza. Coates, o patrão do costume na defesa. Palhinha, mesmo a brilhar menos mas com a habitual relevância nas recuperações e interceções. Porro, um comboio que quando está bem fisicamente vale por dois. E Pedro Gonçalves, claro: bisou, ainda falhou um penálti e deu um JackPote de 12,3 milhões de euros extra aos cofres do Sporting com o segundo apuramento na história do clube para os oitavos da Champions.

Ficha de jogo

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Sporting-B. Dortmund, 3-1

5.ª jornada do grupo C da Liga dos Campeões

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Carlos del Cerro Grande (Espanha)

Sporting: Adán; Gonçalo Inácio, Coates, Feddal; Pedro Porro (Nazinho, 88′), João Palhinha, Matheus Nunes, Matheus Reis (Ricardo Esgaio, 67′); Pedro Gonçalves (Ugarte, 88′), Pablo Sarabia (Nuno Santos, 67′) e Paulinho (Tiago Tomás, 82′)

Suplentes não utilizados: André Paulo, João Virgínia, Bruno Tabata, Neto e Daniel Bragança

Treinador: Rúben Amorim

B. Dortmund: Kobel; Meunier, Akanji, Pongracic (Tigges, 66′), Schulz (Emre Can, 46′); Witsel (Dahoud, 66′), Bellingham; Reinier (Zagadou, 66′), Reus, Brandt e Malen

Suplentes não utilizados: Hitz, Ostrzinski, Raphael Guerreiro e Passlack

Treinador: Marco Rose

Golos: Pedro Gonçalves (30′ e 39′), Pedro Porro (81′) e Malen (90+3′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a João Palhinha (55′), Coates (57′), Zagadou (74′), Reus (74′), Pedro Porro (74′), Matheus Nunes (74′), Paulinho (74′), Marco Rose (79′) e Adán (90+8′); cartão vermelho direto a Emre Can (74′)

O encontro até começou com uma imagem fortíssima do Sporting, a pressionar alto, a ganhar um canto num lance em que Paulinho ficou logo a pedir uma grande penalidade e a provocar também o primeiro lance pelo ar para Coates, ainda que sem remate à baliza. No entanto, e nos minutos que se seguiram, houve alguns momentos em que se viram pecados sem castigo que se tinham visto com o Ajax, fosse na incapacidade de saída a partir de trás ou na segunda fase de construção com os médios, fosse em alguns posicionamentos entre linhas mal feitos que permitiam que os germânicos conseguissem chegar em posse até ao último terço, estando depois reféns das características de um avançado como Haaland que não tem substituto.

A equipa leonina queria ter bola, a equipa germânica obrigou a que ficasse só com a tentativa de controlar o jogo sem posse. No entanto, e em termos práticos, só por duas vezes Adán teve de aplicar-se num encontro com pouca baliza na primeira meia hora, a remates de Reus (4′) e Malen (14′) fora da área. Sem capacidade para jogar como gosta, a esticar transições com três/quatro passes, o Sporting começou a arriscar num plano B que muitas vezes serve de saca-rolhas neste tipo de encontros e deu o primeiro passo para a vantagem ao intervalo a partir daí: passe longo de Coates a explorar a profundidade nas costas da defesa alemã, corte incompleto de Schulz a isolar Pedro Gonçalves e grande frieza em frente a Kobel para o 1-0 (30′).

Alvalade explodia, depois de uma ligeira acalmia no ambiente de festa como há muito não se via, mas esse era apenas o início de um momento marcante na partida em que os alemães não tiveram a melhor reação à desvantagem e o Sporting, de novo pelo oportunismo de Pedro Gonçalves, aumentou para 2-0 em mais um grande golo do médio convertido em avançado que conseguiu recuperar uma bola mal cortada pela defesa contrária para encher o pé e bisar na partida sem hipóteses para Kobel. Os leões saíam para intervalo na frente com a vantagem que dava apuramento direto para os oitavos, também por uma ação decisiva de Gonçalo Inácio a tirar em cima da linha um remate de Malen que já tinha ultrapassado Adán (41′).

Marco Rose mexeu ao intervalo, colocando Emre Can na esquerda em vez de Schulz (uma alteração que por si só até piorou a equipa), e a primeira grande oportunidade flagrante até pertenceu ao Sporting, em mais uma saída em transição do conjunto verde e branco que teve Pedro Gonçalves a assistir e Sarabia a rematar na área de pé direito para grande defesa de Kobel (49′). Estava deixado um aviso, aproveitando aquele que é o principal calcanhar de Aquiles dos germânicos, mas que não teve de seguida continuidade: os leões não conseguiram recuperar essa capacidade de sair, os germânicos foram montando o cerco à volta da área dos lisboetas, Adán teve duas defesas de grau médio de dificuldade mas nem mesmo o aparecimento de Brandt e Bellingham mais em jogo deu o pragmatismo ofensivo para o golo de mudasse as contas.

Foi aí que apareceu Emre Can. Apareceu pela negativa, claro: além de não acrescentar nada à equipa sendo colocado à esquerda da defesa, o internacional alemão ainda se “pegou” com Pedro Porro num lance em que acabaram os dois bancos a entrar no relvado (uns para acalmar, outros para deitar mais gasolina na fogueira) e viu o vermelho direto (74′). Se a tarefa não estava fácil, pior ficou. E se pior tinha ficado, Zagadou ainda conseguiu piorar mais, cometendo uma grande penalidade sobre Paulinho sancionada pelo VAR que Pedro Gonçalves ainda falhou (defesa de Kobel) antes da recarga de cabeça de Pedro Porro (81′). A vitória estava de vez confirmada e, apesar de Malen ter ainda reduzido no terceiro minuto de descontos, provocando uma sensação de ansiedade extra em Alvalade até ao final, a noite histórica estava mesmo escrita.