A inflação já estava a acelerar no final do ano passado, antes do início da guerra na Ucrânia, mas o Banco de Portugal, liderado por Mário Centeno, acredita, ainda assim, que o fenómeno inflacionista será apenas temporário. Centeno deixa dois avisos: as famílias e empresas têm “refletir” a inflação nas decisões de consumo e de produção. E é preciso “cautela” nas atualizações salariais.
A posição foi deixada numa conferência de imprensa de apresentação do boletim económico de maio do Banco de Portugal, relativo à evolução da economia em 2021. Mas o governador da instituição não deixou de comentar a inflação que se vive este ano e as pressões de alguns setores da sociedade para o Governo avançar com aumentos salariais que mitiguem a perda de poder de compra.
A argumentação de Mário Centeno é que, nos últimos anos, os salários médios em Portugal cresceram “muito mais” do que a inflação: desde 2015, enquanto a inflação cresceu “abaixo de 5%”, os salários médios registados na Segurança Social cresceram “muito próximo de 20%”. Por isso, a avaliação sobre aumentos salariais “não pode ser feita apenas no momento em que estamos a viver”. “Neste momento é importante ter muita cautela na avaliação daquilo que são as atualizações salariais porque esta questão de reforço do rendimento disponível, não é uma matéria apenas para um semestre ou um ano, é uma matéria mais longa”.
A inflação, diz Mário Centeno, resulta de choques essencialmente do lado da oferta. “Tem uma natureza que avaliamos como temporária“, defende. “Continuamos a não identificar nenhuma natureza interna endógena ao fenómeno de formação dos preços que não sejam estas raízes temporárias”.
Mas Centeno reconhece que a inflação também é um fenómeno “pandémico” e tem “raízes” na forma como o país recupera da crise económica da Covid-19, com a criação de tensões que considera “temporárias”. O governador do Banco de Portugal refere-se às “dificuldades de oferta que alimentam esta dinâmica inflacionista”.
Além disso, sublinha, “houve um deslocamento da procura para bens, em particular bens duradouros, em detrimento dos serviços, o que criou tensões inflacionistas do lado da procura de bens”, que também considera temporárias. “Já estava a acontecer e vai continuar a acontecer, Lisboa é evidência disto, a procura vai deslocar-se para os serviços de novo, e em particular o turismo vai ser o motor da continuação a recuperação económica”, indicou.
Os efeitos da guerra na Ucrânia “sobrepõem-se” a estas dinâmicas, reconhece. Mas Mário Centeno diz que, por exemplo, muitos dos impactos nos preços da energia já se verificam antes do início da guerra.
Há ainda o que diz ser “um efeito estrutural da transição climática que tem impacto nas nossas vidas”: “Essa transição tem também um papel no valor da inflação que hoje observamos. Ela é também transitória, ainda que mais longa, e temos de a refletir nas nossas decisões de consumo e produção se quisermos ser consequentes com os objetivos que traçamos”. O governador do Banco de Portugal não explicou se quer com isso dizer que as famílias devem conter o consumo ou mudar os padrões de consumo.