Menina, vai a pé? Não quer boleia? Somos nove, mas… Cabe sempre mais uma!

Por volta do meio-dia deste domingo, não era propriamente fácil chegar ao Estádio Nacional do Jamor. Entre as longas filas de trânsito em todos os acessos, preenchidas com carros, carrinhas e autocarros vindos essencialmente da região do Porto mas também de Tondela, estava o Observador. Presos num TVDE, com o carro estacionado à porta de casa para fugir à necessidade de o estacionar e agilizar processos, depressa nos arrependemos da decisão. Mas tudo ficou mais simples — e mais interessante — quando de repórter solitária passámos a elemento de uma carrinha lotada.

Sem que o trânsito se movesse, a começar a sentir alguma pena de um condutor que tinha sido arrastado para o caos de uma final da Taça de Portugal, decidimos saltar do carro e realizar o resto do percurso a pé. Afinal, o estádio era já ali. Ainda que o ali implicasse andar pela beira da estrada. Mochila às costas, um olhar preocupado para um céu que ameaçava chuva e lá vamos nós — mas o percurso não chegou a durar cinco minutos. Numa curva, entre vários carros que já assumiam as portas abertas para esticar as pernas ou fumar um cigarro no meio da total paralisação do trânsito, estava uma carrinha com nove adeptos do FC Porto. De repente, ouvimos a tal frase: “Menina, vai a pé? Não quer boleia? Somos nove, mas… Cabe sempre mais uma!”.

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A decisão demorou meros segundos. Mochila para dentro da carrinha, as habituais apresentações, as perguntas óbvias: os nove amigos são naturais de Lixa, em Felgueiras, e nenhum deles é um estreante no Jamor ou em finais da Taça de Portugal. Por isso mesmo, por serem habitués nas viagens até Lisboa sempre que o FC Porto chega à partida decisiva, queixam-se do trânsito e garantem que a confusão piorou desde que o jogo saiu do Estádio Nacional, há dois anos, devido à pandemia. “Nunca foi assim, nunca apanhámos este trânsito”, garante José, o condutor, que até já ameaça voltar a fumar para lidar com o stress do atraso e que está irritado com o facto de ninguém se ter lembrado de levar um baralho de cartas para ocupar os tempos mortos.

Habituados a descer de Felgueiras para Lisboa nas centenas de autocarros que transportam adeptos do FC Porto, decidiram este ano alugar uma carrinha de nove lugares e realizar uma viagem mais familiar e tranquila. O problema? A carrinha não correspondeu e grande parte do percurso foi feito a 80 km/h. Algo que não afeta a clara boa disposição de um grupo que acredita totalmente na vitória dos dragões frente ao Tondela e que, mais do que isso, acredita totalmente na permanência de Sérgio Conceição no comando técnico da equipa. Só Rui, no banco de trás, tem algumas dúvidas. “Depende de muita coisa… Se ele tiver propostas, não sei se fica. Mas espero que sim”, atira, ele que é responsável por distribuir pela carrinha as cervejas guardadas numa geladeira que está na bagageira.

Muitos adeptos montaram a mesa do almoço em cima dos carros, em plena mata do Jamor

O Parque 1 está lotado, o Parque 3 também e é preciso ir até ao Parque 2 — algo que obriga a dar a volta por dentro de Linda-a-Velha, entre mais filas de trânsito e muitos adeptos que já optaram por estacionar o carro mais longe e montar a mesa do almoço ali mesmo, à porta dos prédios e afastados da mata do Jamor. Um cenário que agrada a metade da comitiva, que até defende que se estacione no parque de uma superfície comercial, mas que desagrada aos elementos mais velhos do grupo. Como a idade é um posto, pelo menos nesta espécie de família, a carrinha segue rumo ao Estádio Nacional. 

Pelo meio, porém, José cede: vai fumar um cigarro. Responsável pela condução da carrinha de Felgueiras para Lisboa e de Lisboa para Felgueiras, por se ter comprometido com a inevitabilidade de não beber álcool, chega a oferecer 10 euros por um maço de tabaco a um dos amigos. Rui, contudo, oferece-se para ir à bomba de gasolina logo ali ao fundo e resolver o problema — e o trânsito é intenso o suficiente para ir, comprar, voltar e saltar novamente para dentro da carrinha que continua a andar devagar e de porta aberta.

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Com o objetivo final a aproximar-se, pede-se música. Daniel é o responsável pela coluna de som e, entre os naturais hits brasileiros que estão na moda, decide pedir inspiração divina. De repente, na descida que dá acesso a um dos parques de estacionamento do Jamor e entre os sorrisos do agente da PSP que está ali perto, ouve-se “Guiado pela Mão”, do Padre José Luís Borga. O verso “sigo como ovelha que encontrou pastor” causa uma gargalhada geral, pela ironia da fila de trânsito, mas depressa regressam as músicas do outro lado do Atlântico.

Finalmente, já perto das 14h, a carrinha está estacionada e é hora de montar o estaminé. Aos nove amigos junta-se um décimo, Ricardo, a viver em Lisboa há mês e meio e à espera do resto do grupo há cerca de duas horas. Acende-se o fogareiro, o pão com presunto ajuda a suportar a espera pelas febras e a entremeada, abrem-se as garrafas do vinho verde caseiro e as cervejas continuam bem guardadas na geladeira. No meio de um autêntico mar azul e branco, a notar-se a natural discrepância entre o número de adeptos do FC Porto e do Tondela no Jamor, começam a ouvir-se os primeiros cânticos, as primeiras músicas, o primeiro entusiasmo.

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Já depois de almoço, que até incluiu uma sobremesa mas onde foi lamentada a ausência de café, ouve-se a frase inevitável: “Bem, se calhar temos de começar a arrumar tudo”. Falta pouco mais de uma hora para o apito inicial e ainda é necessário fazer a caminhada até ao Estádio Nacional, passar pelo moroso processo de entrada e chegar à bancada. Afinal, o trânsito até fez com que não fosse preciso nenhum baralho de cartas.