Quando decidiu tirá-la da cadeia de Orange County, em Goshen, no estado de Nova Iorque, e colocá-la em prisão domiciliária, o juiz Charles R. Conroy só fez três exigências a Anna Sorokin, a falsa herdeira alemã feita estrela da Netflix após enganar a elite de Manhattan, há 18 meses num centro de detenção para imigrantes.
Tinha de manter-se em casa, de usar uma pulseira eletrónica e de ficar longe das redes sociais e do seu milhão de seguidores no Instagram.
Sobre dar entrevistas ou aparecer na imprensa, o magistrado não fez qualquer referência, portanto assim que saiu da prisão, na passada sexta-feira à noite, Anna Sorokin abriu a porta à jornalista do New York Times que em 2019 cobriu o julgamento em que acabou a ser condenada a uma pena de 4 a 12 anos de prisão; ao pagamento de uma multa de 24 mil dólares, e à restituição dos quase 200 mil dólares de que se apropriou indevidamente, ao longo dos anos em que se apresentou como Anna Delvey, herdeira abastada a contar os dias para ter acesso a um fundo de 60 milhões e abrir uma fundação de arte em nome próprio.
Passava pouco da meia-noite, ainda estavam os três sacos plásticos de lixo em que transportou os seus pertences desde Goshen encostados à parede, quando Sorokin, de 31 anos, vestida e calçada de preto, a condizer com a pulseira eletrónica presa no tornozelo, se sentou para responder às perguntas da jornalista, no quarto do apartamento T1 acanhado e quase sem mobília que o advogado que a representa conseguiu arrendar no prazo recorde de 2 dias, em East Village, bairro trendy na baixa de Manhattan.
Anna Sorokin, the convicted fraudster who posed as an heiress, sat down for her first interview since her release from jail. She discussed her evolution since her Anna Delvey days and what she plans to do now that she’s no longer behind bars. https://t.co/pBGa5thac8
— The New York Times (@nytimes) October 9, 2022
Sorridente, mostrou-se arrependida do que fez, mas não em demasia — “A forma como tenho tentado ver a minha experiência é aprender com ela: quem sou hoje deve-se às decisões que tomei no passado” —, e explicou por que motivo preferiu ser presa pelos serviços de imigração a ser deportada para Alemanha (apesar de ter nascido na Rússia, tem nacionalidade alemã). “Deixá-los deportar-me teria sido como um sinal de capitulação — a confirmação da perceção que têm de mim como uma pessoa superficial que só quer saber de dinheiro, e isso não é a realidade. Eu podia ter-me ido embora, mas optei por não o fazer porque estou a tentar corrigir o que fiz de errado. Tenho tanta história em Nova Iorque, sinto que se estivesse na Europa, estaria a fugir de alguma coisa”, disse Sorokin, para logo depois reconhecer que, mesmo presa num quinto andar, está onde sempre quis estar. A citação foi puxada para título pelo diário americano: “Era exatamente o que eu queria”.
Sobre o futuro, a influencer, libertada em fevereiro de 2021, depois de cumprir três anos e meio de prisão, e detida logo a seguir, por estar ilegalmente nos Estados Unidos, revelou uma série de planos, que passam não apenas pela carreira artística — em março deste ano, apesar de ainda estar atrás das grades, chegou a exibir alguns dos desenhos que fez em cativeiro, numa exposição conjunta numa discoteca em Nova Iorque —, mas também pela gravação de um podcast, com vários convidados, que vão ter de a visitar em casa, e a publicação de um livro. “Adoraria fazer algo sobre a reforma da justiça criminal para realçar as lutas de outras raparigas”, detalhou.
Anna Sorokin, a história da falsa herdeira alemã que enganou a elite de Nova Iorque
Questionada sobre a relação que mantém atualmente com o pai e, sobretudo, com a mãe, com que por várias vezes admitiu ter uma “relação complicada”, Anna Sorokin revelou que falam por telefone dia sim, dia não, mas nos moldes de sempre. “Os meus pais, especialmente o meu pai, são bastante sarcásticos. Dizem coisas como: ‘Bem, mas quantos mais anos vais estar na prisão?’. Mas eles aceitaram que é isto que eu quero. Não estou a escolher um caminho duvidoso, na verdade estou a tentar melhorar e a aprender, e espero que eles compreendam e respeitem as minhas escolhas.”
Já sobre a origem dos fundos com que pagou a fiança que lhe permitiu sair da prisão e com que arrendou o apartamento onde agora mora, numa das cidades mais caras do mundo, onde entre julho de 2021 e julho de 2022 os preços médios de arrendamento subiram 27,5% para os 5.113 dólares (qualquer coisa como 5.265 euros), a musa inspiradora de “Inventing Anna”, da Netflix, foi menos transparente. “Acho que vai ter de perguntar ao governo”, começou por responder, para logo a seguir garantir que sim, todo o dinheiro é seu — incluindo as três rendas que teve de pagar adiantadas ao senhorio.
Agora com 31 anos, a mulher que na casa dos 20 conseguiu viver durante meses num dos melhores hotéis da cidade sem pagar um cêntimo e que chegou a viajar de jato privado da mesma forma, livre de expensas, continua a preferir ver o copo meio cheio.
“Isto não é o fim do seu caso com a imigração. Continua a poder ser deportada”, observou Emily Palmer, a jornalista do New York Times. “O meu caso de imigração está apenas a começar. Estou a criar muitos empregos para os meus advogados. Por isso, toda a gente está feliz”, retorquiu Anna Sorokin. “Quando estás preso, és uma prioridade, mas quando és libertado, passas para um registo diferente, e por causa da Covid, há um atraso de cerca de dois milhões de casos. Acho que vai ser um caso mais longo.”