Com um país praticamente dividido ao meio, no rescaldo de uma das eleições mais polarizadoras da história do Brasil, Lula da Silva falou aos brasileiros — muitos eufóricos com a vitória, quase tantos como os que ficaram deprimidos ou revoltados pelo mesmo motivo — com um objetivo: assegurar que não há, mesmo que pareça, “dois Brasis” e que vem para “consertar o país” e pedir a todos que “baixem as armas”.
O discurso de reação à vitória, minutos depois de ter sido confirmado o regresso de Lula ao Palácio do Planalto, ficaria assim marcado pelas mensagens de conciliação — um trabalho de enorme “magnitude” que Lula sabe, como reconheceu, que terá pela frente. Por isso, tentou não falar apenas aos seus e até evocou o Papa Francisco e Jesus Cristo para lembrar os seus ensinamentos de “amor” ao próximo: “Não faltará amor neste país, vamos cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro”, prometeu, convidado “cada um, independentemente de em quem votou”, para olhar mais para o que “une” os brasileiros do que para as suas diferenças.
E fê-lo das mais variadas formas: pedindo a todos — os partidos, os políticos, os empresários, as pessoas de todas as religiões — que colaborem para “consertar esse país e construir um país do tamanho dos nossos sonhos”; que acabem com o “permanente estado de guerra” e “unam as famílias”; que recuperem “a alegria de sermos brasileiros”. “Este povo não quer mais brigar, é hora de baixar as armas que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam, e nós escolhemos a vida”.
Mais: a bandeira e as cores do Brasil, o verde e o amarelo que passaram a ser associados a Jair Bolsonaro, “não pertencem a ninguém” — o tempo é de tentar voltar a fazer do Brasil um só.
Curiosamente, e se esta era a mensagem prevista no discurso escrito que Lula leu, nos primeiros segundos em que subiu ao palco, antes de colocar os óculos para, como gracejou, “parecer mais intelectual”, ficou mais evidente o rescaldo de uma luta dura e divisiva: nesses momentos, Lula ainda começou por frisar que venceu contra a “máquina do Estado” ao serviço de Bolsonaro. “Tentaram enterrar-me vivo”.
Mas o futuro, reconheceu, depois de se congratular pelo “imenso movimento democrático” e acima de partidos que o elegeu, é mesmo de reconciliação.
Pobreza, Ambiente e relações externas: as prioridades de Lula
E para esse futuro também elegeu as suas prioridades políticas. Desde logo, a número 1, um regresso ao programa que começou por marcar a sua Presidência: o combate à pobreza e às desigualdades. Prometendo, depois de nesta campanha ter sido criticado por concretizar pouco as suas propostas para a economia, que “a roda da economia vai voltar a girar”, Lula referiu o objetivo de tirar famílias da pobreza como o primeiro compromisso.
Exemplos: os pobres farão “parte do orçamento”, as dívidas das famílias devem ser renegociadas, o salário mínimo aumentado sempre acima da inflação. “O povo quer dizer bem, comer bem, morar bem, quer um emprego, um salário justo, acima da inflação, quer ter saúde, educação, políticas públicas. Quer liberdade religiosa, livros em vez de armas, ir ao teatro e ver cinema”, resumiu.
Depois, a promessa de restabelecer a “normalidade democrática” no pós-Bolsonaro, seja em diálogo com as restantes instituições democráticas, sem as “controlar”, ou com o próprio povo, sem tomar decisões “pela calada”.
Lula referiu-se ainda aos objetivos de retomar a credibilidade externa — “o Brasil é grande demais para ser um pária”, lamentou; acabar com discriminações e racismo; e uma grande aposta na defesa do ambiente e, em especial, no fim do desmatamento da Amazónia, tema que aqueceu a presidência de Bolsonaro. Com Lula, o Brasil será “protagonista na luta contra a crise climática” e aliado dos povos indígenas, prometeu.
O final emotivo seria trazido por um Lula também emotivo, garantindo que o Brasil é a sua “causa” e o combate à miséria é a razão pela qual vai viver “até ao fim da minha vida”. Consciente da dimensão da missão que tem pela frente, o novo Presidente posou com a mulher, a equipa e uma bandeira do Brasil para uma fotografia e saiu para festejar.