As imagens têm-se repetido sempre que a Argentina joga no Mundial do Qatar. Bancadas repletas de camisolas listadas de branco e azul celeste, braços no ar, gargantas afinadas: “Soy argentino, es un sentimiento, no puedo parar” (“Sou argentino, é um sentimento, não posso parar”, em português). No relvado, quando acaba a partida, 26 jogadores em absoluta conexão com o público fiel que os acompanha na esperança de levar para Buenos Aires o terceiro Mundial da história do país. Há emoção, até histerismo e devoção. Cantam por Maradona, sempre ele, colocam Messi no mesmo patamar que o seu Deus – porque se há Deus em que os argentinos acreditam é em Diego Armando – e durante alguns minutos o mundo daquela multidão parece parar.

Não é a primeira vez que os adeptos argentinos são os reis da festa num Mundial. Já acontecera no Brasil e na Rússia, em 2014 e 2018, respetivamente, mas no Qatar o “domínio”, tanto nas bancadas, como fora delas, tem sido avassalador. Num torneio controverso e em que muito se falou de claques contratadas, foram da Argentina, segundo dados da FIFA, dois dos três jogos com lotação esgotada durante a fase de grupos: Argentina-México e Polónia-Argentina.

“Quando se olha para o que os adeptos argentinos fazem… É incrível”

Para as outras equipas, aquela parede “alviceleste” é outro opositor a defrontar além de Messi, Emiliano Martínez, Enzo Fernández ou Rodrigo De Paul. O primeiro a assumi-lo foi o capitão dos Países Baixos, Virgil Van Dijk, jogador habituado a jogos em ambientes escaldantes tanto na Premier League, como na Champions. O central do Liverpool falhou o primeiro penálti da “laranja mecânica” frente à Argentina, no desempate dos “oitavos” de final, e assumiu que os adeptos adversários tiveram influência no momento. “No treino, não consegues reproduzir um estádio cheio com 80 mil pessoas a assobiarem-te. Apesar da pressão, eu estava pronto, mas isso também não quer dizer que me sentisse bem.”

No mesmo dia, outro jogador neerlandês falou da presença massiva de adeptos adversários no Lusail. “Somos um país pequeno, o estádio estava todo azul e branco”, destacou Memphis Depay.

Mas não se pense que a afición argentina é referida apenas por quem já jogou contra a equipa de Messi. Esta terça-feira, a “alviceleste” defronta a Croácia na primeira das meias-finais do torneio e o selecionador da equipa europeia não escondeu a sua preocupação. “Acho que vão estar em campo dois países muito emocionais, mas quando se olha para o que os adeptos argentinos fazem… É incrível”, disse Zlatko Dalic, em conferência de imprensa. “Estaremos em um menor número nas bancadas, mas o futebol é assim e não temos do que nos queixar.”

“Estamos aqui porque somos argentinos, mas vocês não o entendem”

O futebol é um fenómeno vivido na Argentina como possivelmente em nenhum outro país do mundo. “Estamos aqui porque somos argentinos, mas vocês não o entendem”, respondeu uma adepta do país da América do Sul a um jornalista do El Mundo. Por vezes, é mesmo impossível distinguir jogadores e adeptos. “A ilusão que temos é a mesma de todos os argentinos. Esta equipa joga para eles”, garantiu o selecionador, Lionel Scaloni, aos jornalistas esta segunda-feira.

A resposta em 20 segundos aos cânticos, um livro de fintas e a emoção ao ver a família: como foi o jogo 1.000 de Messi

Uma ideia confirmada por Jorge Eines, professor e diretor de teatro, ao mesmo jornal espanhol. “A ‘alviceleste’, a gloriosa, representa-nos a todos, ao contrário do que acontece em Espanha”, esclareceu. A história do próprio país está relacionada com essa maneira tão intensa de viver o futebol, não tem dúvidas. “Somos um povo habituado a viver com uma granada na mão à qual tiraram a anilha e, para que esta não rebente, temos que lá colocar o dedo. Vamos com essa granada para todo o lado, incluindo para o futebol”, sublinha Eines.

Também ao El Mundo, o escritor Eduardo Sacheri garante que os argentinos são assim em todos os domínios da sua vida, que não apenas o futebol. “Somos histriónicos, hiperbólicos, apaixonados, emotivos e exibimos com naturalidade o que pensamos e o que sentimos sobre o que quer que seja”, acrescenta.

Maradona, Don Diego e Tata a apoiar Lionel

Essa natureza emocional está presente no cântico mais famoso do Mundial, gritado de forma visceral por adeptos argentinos e jogadores. Um deles, Messi, é um dos protagonistas da letra, junto com Diego Armando Maradona e os pais do maior astro argentino de sempre, Don Diego e Tota. Há referências às Malvinas, aos campeonatos perdidos, à Copa América conquistada no Brasil. É uma adaptação de um cântico do Racing Avellaneda, que tem como base uma música chamada “Muchachos, Esta Noche Me Emborracho”, de La Mosca Tse-Tse.

Nas bancadas, nas ruas, nos transportes, os argentinos cantam que se voltaram “a iludir”, que querem vencer o terceiro Mundial. A ajuda para que tal aconteça será divina. “Y al Diego, en el cielo lo podemos ver, con Don Diego y con la Tota, alentándolo a Lionel” (“A Diego podemos vê-lo no céu, com Don Diego e com a Tota, a apoiar o Lionel”, em português), dizem. É a crença de um de país de que a salvação para todos os problemas acontece quando se marca mais golos do que os adversários. Como assegura Eines ao El Mundo: “Precisamos do futebol para que a verdade não nos mate.”