Para quem cresceu a ver filmes nos 1980s e, sobretudo, nos 1990s, Jamie Lee Curtis carregava algo de diferente das restantes atrizes. Era uma das poucas intérpretes de ação, filmes como “Aço Azul”, “Assédio Fatal” e o ótimo “A Verdade da Mentira” davam-lhe um lugar único no cinema de então. E, enquanto isso, fazia comédias como “Um Peixe Chamado Wanda”, a comédia romântica “Eternamente Jovem” ou o drama juvenil (e demasiado triste para o público-alvo) “O Meu Primeiro Beijo”. Há ali um período de ouro entre 1987-1995. Desde então, entrou numa fase de altos e baixos. Uma coisa foi constante: “Halloween”.
O “Halloween” original, de John Carpenter, foi a sua estreia no cinema em 1978. Laurie é uma personagem icónica do cinema, não só do cinema de terror, mas de todo o cinema. É a fundação no cinema comercial de um arquétipo de personagem e, justiça lhe seja feita, poucas atrizes o fizeram tão bem como Jamie Lee Curtis (Jenna Ortega anda perto disso no renascimento de “Gritos”). “Halloween” tem sido tão constante, que no mesmo ano de “Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo”, o filme que lhe garantiu a primeira nomeação e o primeiro Óscar da carreira, entrou em “Halloween – O Final”, o oitavo da série na sua carreira. O Óscar de Melhor Atriz Secundária não foi surpresa. Estava-lhe destinado.
Não é um prémio carreira. Nem está no barco das ressurreições. A carreira de Jamie Lee Curtis tem a constância dos altos e baixos, de quem anda ao sabor do vento e de hábitos que, por vezes, a afastaram de outros objetivos: foi uma alcoólica durante muitos anos e durante uma fase da sua vida foi viciada em opioides, vítima da propaganda de medicamentos para a dor nos Estados Unidos.
Os altos e baixos nunca foram um problema para Jamie Lee Curtis. Tem outras coisas para se entreter, como, por exemplo, livros para crianças. Publica pela HarperCollins com regularidade desde 1993 (o último é de 2018), sempre com a ilustradora Laura Cornell. Também aderiu à moda dos podcasts, com o muito recomendável “Letter From Camp”, que pode ser ouvido no Audible, e também indicado para os mais novos.
E o Óscar, porquê só agora, enquanto inspetora do IRS que interpreta várias versões de si mesma no multiverso de “Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo”? Porque o filme que entrou nesta noite com mais nomeações, foi buscar um elenco que está confortável com a montanha-russa dos Daniels, que reinventa o “Matrix” para a era do multiverso, dos smartphones e das redes sociais.
Jamie Lee Curtis teve então oportunidade de sair do – respeitável – registo “Halloween” e, sobretudo, de um acumular de papéis secundários ao longo das últimas duas décadas que não deixaram grande memória. Ao contrário de muitos atores que chegam às nomeações tarde na carreira, Jamie Lee Curtis não andava à procura de um renascimento: esteve sempre por aqui, com boas e más decisões, mantendo outras carreiras em paralelo. Aguardava o papel que a lembrasse por aquilo que fazia tão bem nos momentos mais dourados da sua carreira, quando encaixava humor em ação sem princípios. Nos 1990s, um filme como “A Verdade da Mentira” nunca chegaria aos Óscares, mas em 2023, isso é possível acontecer com “Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo”.
Jamie Lee Curtis mudou para sempre a forma como vemos filmes de terror. Encarou o medo quando o medo morava ali ao lado e ensinou audiências a superá-lo, mesmo que para isso tivesse de lá voltar mais sete vezes. Por o ter feito tão bem na ficção, talvez na vida real tenha tido receio dos papeis que a poderiam levar a um outro tipo de reconhecimento. Não precisou de os aceitar, apenas de encontrar o filme que a reconheceria.