Foi o Gana que em 25 de Março, na Assembleia-Geral da ONU, apresentou uma proposta visando entre outras coisas, que o tráfico transatlântico de escravos fosse considerado o maior crime contra a humanidade, e exigindo reparações aos países ocidentais como responsáveis por ele, e foi o Gana que agora nos deu a notícia: os países ocidentais, Portugal incluído, que na votação de 25 de Março se abstiveram, estarão agora a contactar o governo desse país africano de sentido de colaborarem para a concretização das suas reivindicações. Primeiro, na restituição de objectos roubados; depois na apresentação de um pedido de desculpa, no alívio das dívidas e em reparações financeiras. Como Samuel Okudzeto Ablakwa, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ganês, referiu, “virtually all the European countries that abstained during the vote have reached out and have said they are going to work with us on this journey”.
Perante isto, das duas, uma: ou o governante do Gana está a mentir ou a exagerar — e assim sendo o nosso MNE deve vir diplomaticamente explicar isso mesmo, explicitar a colaboração que terá sido efectivamente oferecida a esse país africano e pôr os pontos nos is. Ou então o ministro ganês está a dizer a verdade, Portugal ter-se-á disponibilizado para atender às suas exigências e de outros países africanos, incluindo o pagamento de reparações, e o governo de Luís Montenegro tem de vir explicar ao país quem o mandatou para tal e por que razão está a caminhar num sentido contrário ao sentimento da generalidade dos portugueses relativamente a essa questão.
Se, como há muito tempo temo, esta segunda hipóteses for a verdadeira, essa deriva política, na senda aberta pelo lamentável Marcelo Rebelo de Sousa e, na ONU, pelo ainda mais lastimável António Guterres, equivale a uma facada nas costas dos portugueses. E porque é que temo que seja esta segunda hipótese a verdadeira? Porque ao longo destes anos os senhores que nos governam têm andado cosidos com as paredes, a confundir-se com as sombras, a tentar passar despercebidos, e têm-se abstido de assumir publicamente uma posição concreta e clara sobre este assunto.
Por diversas vezes lhes pedi, a partir da minha pequena janela no Observador, que explicassem ao país qual o seu programa, a sua intenção, quanto à questão das reparações exigidas pelos países africanos e caribenhos pela existência, no distante passado, do tráfico transatlântico de escravos. Postos frente a essas minhas críticas e perguntas os sucessivos governos do PS e do PSD — nesse plano não se vislumbra diferença entre eles — refugiaram-se atrás de um muro de silêncio. Todavia, à medida que o tempo passa vão aceitando as exigências dos reivindicantes africanos e caribenhos, pois quem cala consente, e vão avançando à socapa no sentido de aderir à ideia de reparação. Por isso no passado dia 25 de Março o governo português absteve-se na votação da proposta apresentada na Assembleia-Geral da ONU pelo Gana, precisamente, que, repito, para além de classificar o tráfico transatlântico como o maior (sic) crime contra a humanidade, classificação verdadeiramente aberrante, apontava para o pagamento de reparações. Critiquei duramente essa abstenção e aqueles que tentaram justificá-la.
Infelizmente, sou só eu a falar e como se vê a minha voz é insuficiente. Por isso, e visto que não deposito quaisquer esperanças em governantes que até à data nunca se definiram, mas vão convergindo com os reivindicantes como quem não quer a coisa, deixo novamente o duplo aviso aos portugueses: vão preparando as bolsas porque está em causa muito dinheiro. E vão preparando as gargantas porque terão de engolir uma enorme injustiça.