Na sexta-feira, 25 de setembro de 2026, o litro de gasóleo simples custava em média 2,221 euros em Portugal. É o gasóleo mais caro de sempre, e subiu mais de 50 cêntimos desde que os Estados Unidos e Israel entraram em guerra com o Irão. Desses 2,221 euros, cerca de 84 cêntimos são impostos: o ISP, a taxa de carbono e o IVA de 23% que incide sobre tudo, impostos incluídos. O Governo baixa o ISP uns cêntimos de cada vez que o IVA sobe com o preço, para manter a receita constante, e chama a isso desconto.
É na bomba que os portugueses sentem a energia, e por isso começo aqui. Mas o preço que decide onde ficam as fábricas não é o da gasolina. É o da eletricidade e o do gás, e esses contam uma história que a bomba só sugere. No sábado, 26 de setembro, um megawatt-hora de eletricidade custava 28 euros no norte da Suécia e 190 na Sicília; Portugal e Espanha pagavam 131. São preços dentro daquilo a que Bruxelas, com o conhecido humor europeu, chama um mercado único. No Texas, a indústria pagou no primeiro semestre do ano passado o equivalente a 57 dólares por megawatt-hora, contra 176 na Alemanha. O número sueco diz o que a Europa podia ter. O siciliano diz o que escolheu. O texano diz para onde vão as fábricas.
Quero fazer três argumentos e depois uma lista. Os argumentos: que a energia barata não é um fator de produção entre outros, é a condição da prosperidade; que a política energética europeia das últimas duas décadas foi uma virtude hipócrita e suicida, hipócrita porque não mudou a trajetória das emissões do mundo, limitou-se a importar as que deixou de produzir, e suicida porque destruiu a indústria do continente; e que a Europa vai precisar de petróleo, gás e, durante mais tempo do que gosta de admitir, de carvão, e está sentada em cima de reservas que decidiu, por lei, não conhecer. A lista é o que fazer, na Europa e em Portugal.
A energia é a economia
Cada salto do nível de vida desde 1800 foi um salto da energia útil por pessoa. As economias ricas aprenderam a fazer mais com cada quilowatt-hora, e a intensidade energética do PIB cai há cinquenta anos; mas cai a partir de um patamar que só existe porque a energia foi barata primeiro. Antes do carvão, uma economia era a soma de músculos, animais, vento e água a cair, e crescia ao ritmo da população. O carvão transformou calor em movimento e movimento em bens, e pela primeira vez a produção por pessoa subiu durante um século sem parar. O petróleo repetiu o feito nos transportes, a eletricidade em tudo o resto, e de cada vez aconteceu a mesma coisa: os sítios onde a energia era mais barata tornaram-se os sítios onde se faziam as coisas, e os sítios onde se faziam as coisas ficaram ricos.
O mecanismo cabe num parágrafo. Uma fábrica é uma máquina que converte energia em valor. A margem é a diferença entre o preço a que vende e o custo do que compra, e no aço, no alumínio, na química, no vidro, no cimento, no papel e nos adubos, a maior compra depois da matéria-prima é a energia. Uma diferença de 50% no preço da eletricidade ou do gás não é uma desvantagem competitiva a gerir. É a margem inteira, e mais ainda. Quando a diferença dura uma década, a fábrica não se adapta. Muda-se. E leva consigo os engenheiros, os fornecedores, os aprendizes, a base fiscal e a fábrica seguinte, que deixa de se construir ao lado da anterior.
Os Estados Unidos fizeram esta experiência ao contrário nos últimos quinze anos. O xisto deu à indústria americana gás a uma fração do preço europeu, e as fábricas de química e de adubos que a Europa levou um século a construir foram reconstruídas na costa do Golfo do México. Ninguém no Louisiana aprovou uma lei para as atrair. O preço tratou disso.
A ronda seguinte está a decorrer agora, e o produto é inteligência. Os centros de dados são a indústria mais intensiva em energia que alguma vez se construiu, medida pelo valor do que produzem por metro quadrado, e escolhem onde se instalam pelo preço e pela fiabilidade do megawatt-hora com a mesma indiferença ao sentimento de uma siderurgia.
O que a Europa fez
Em 2025, os preços da eletricidade para a indústria intensiva em energia na União Europeia mantiveram-se, em média, mais do dobro dos americanos e quase 50% acima dos chineses, e o gás industrial custou quatro vezes o americano, segundo a própria Comissão. A Europa paga o prémio do gás liquefeito que importa.
A indústria fez o que a indústria faz. A produção da indústria intensiva em energia na Alemanha caiu 15% entre fevereiro de 2022 e março de 2026, e a química europeia produz hoje 17% menos do que antes da crise, sem sinal de recuperação. Em toda a União, o consumo de eletricidade caiu para níveis de há duas décadas. No aço, os encerramentos, os projetos de descarbonização abandonados e os empregos perdidos contam-se às dezenas de milhar. Uma queda do consumo de eletricidade é normalmente sinal de recessão. Na Europa é agora política a funcionar como foi desenhada.
A política europeia tem cinco camadas. Um imposto sobre o carbono, a que se chama preço, entre 60 e 90 euros por tonelada, que encarece cada megawatt-hora produzido a gás ou a carvão. Saída do nuclear no país que ancorava a rede continental: a Alemanha desligou os últimos três reatores em abril de 2023 e, apesar do preço do que os substituiu, não voltou atrás. Proibição de procurar petróleo e gás em casa, em França, na Alemanha, em Espanha, na Irlanda, na Dinamarca e em Portugal. Substituição do gás russo por gás liquefeito comprado ao preço do mercado mundial, de modo que a Europa importa agora a sua segurança energética por navio. E uma rede que nunca foi construída e interligada para transportar o que os painéis produzem, de modo que na mesma tarde a eletricidade sueca é quase gratuita e a siciliana é das mais caras do mundo.
Desde a primavera, o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz devido à guerra com o Irão fez disparar os preços da energia e expôs outra vez as vulnerabilidades da Europa. O gás no mercado holandês subiu em março ao nível mensal mais alto em mais de três anos. Com as exportações do Qatar interrompidas, os Estados Unidos deverão ultrapassar a Noruega como maior fornecedor de gás da Europa este ano e podem chegar a 80% das importações europeias de gás liquefeito em 2028, sendo o gás americano, em média, o mais caro que a Europa compra. E as importações de gás liquefeito russo bateram um recorde trimestral nos primeiros três meses de 2026; a Rússia continua a ser o segundo fornecedor. Quatro anos depois da Ucrânia, a Europa compra mais gás russo por navio e paga preços do Texas pelo resto. Em maio, os ministros da Energia da União preparavam-se para discutir a produção doméstica de gás em resposta ao aperto do Médio Oriente. Antes tarde do que nunca. Vinte anos tarde.
A virtude hipócrita e suicida
A defesa de tudo isto é que é o preço de salvar o clima. Olhemos então para o clima.
As emissões mundiais de CO2 de combustíveis fósseis subiram em 2025 para um recorde de 38 mil milhões de toneladas. A União Europeia representa 6% delas. Desde 2015 a União é importadora líquida de CO2: as emissões incorporadas no que importa excedem as incorporadas no que exporta, e medidas pelo consumo as emissões europeias são 9% do total mundial, para 6% da população. A China é o maior exportador de emissões para a União. As emissões medidas pelo consumo também caíram, menos do que as medidas pela produção; a hipocrisia não está em não se ter feito nada, está em contar como mérito próprio o que passou a ser emitido por outros. E a escala: a União cortou cerca de 1,3 mil milhões de toneladas anuais desde 1990; o mundo acrescentou mais de quinze mil milhões.
Leiam-se estes números juntos. O aço, os adubos, o alumínio e a química que a Europa deixou de fazer continuam a fazer-se, nas mesmas ou em maiores quantidades, com o mesmo ou mais carbono, em Ningbo em vez de Duisburgo e em Tangshan em vez de Taranto. O operário europeu que os fazia está desempregado; o consumidor europeu continua a comprá-los; a atmosfera não distingue. É isto que a fuga de carbono significa na prática: um continente que exporta as fábricas e importa o fumo, e se congratula por estar a ensinar o mundo a comportar-se.
Daí o adjetivo duplo. Hipócrita, porque as emissões que a Europa se recusa a produzir são as mesmas que compra, embaladas em produtos, a países que as produzem com carvão. Suicida, porque a política matou a indústria que sustentava a classe média industrial da Europa, de Duisburgo a Taranto e de Katowice a Sines, e continua a matá-la a cada trimestre em que a química fecha mais uma linha. A virtude que faz subir as emissões do mundo não é virtude. É teatro.
A resposta europeia é o mecanismo de ajustamento carbónico na fronteira, cuja fase definitiva começou em janeiro deste ano. Taxa o aço, o cimento, o alumínio, os adubos e mais umas matérias-primas importadas pelo carbono que incorporam. Não faz nada pela máquina de lavar, pelo automóvel, pela torre da turbina eólica ou pelo painel solar que incorporam esse aço e esse alumínio, que é onde a fuga vive agora. É uma vedação à volta das fábricas que já se foram embora.
Há uma objeção justa e deve ser dita por inteiro. A Europa é responsável por 16% das emissões acumuladas desde 1850; os Estados Unidos por 24%; a China por 15% e a subir. Se o argumento moral é sobre o stock, a Europa deve mais do que os seus 6% atuais sugerem. Muito bem. Mas uma política julga-se pelo que muda, não pelo que expia. Uma Europa que tivesse mantido os reatores, perfurado o seu gás e construído a sua rede teria produzido menos carbono do que a Europa que exportou a indústria para a China do carvão.
O carvão
O carvão merece uma secção própria, porque é o único sítio onde a Europa reduziu mesmo emissões, e por isso é o sítio onde se vê melhor o que correu bem e o que correu mal.
Em 1990, o carvão produzia mais de um terço da eletricidade da União. Em 2025, a quota caiu para um mínimo histórico de 9%. A Bélgica saiu do carvão em 2016, a Áustria e a Suécia em 2020, Portugal em 2021; a Alemanha prevê 2038; a Polónia, onde o carvão continua a ser a primeira fonte de eletricidade, não marcou data. Isto é uma redução real de carbono, e é justo dizê-lo: o carvão é o combustível mais sujo que existe, em CO2 e em partículas, e cada central que fecha melhora a saúde de quem vive a sotavento.
Três reparos, no entanto. O primeiro é de sequência. A Alemanha fechou primeiro o nuclear, que não emite, e manteve a lenhite, que emite mais do que tudo; em 2022, com o gás russo cortado, reativou centrais a carvão para passar o inverno. É a decisão energética mais irracional tomada por uma democracia rica no século XXI, e foi tomada em nome do ambiente. O segundo é de escala. Enquanto a Europa levava trinta anos a passar o carvão de um terço para 9% da sua eletricidade, o carvão passou a ser 41% das emissões mundiais de CO2, e continuou a crescer em 2025. A China iniciou em 2024 a construção de perto de cem gigawatts de novas centrais a carvão, o valor mais alto desde 2015. Cada tonelada que a Europa deixou de queimar foi queimada, várias vezes, do outro lado do mundo. O terceiro é de reserva. Uma central a carvão fechada pode ficar em conserva, como fez a Alemanha, ou pode ser retirada, como em Sines. A diferença entre as duas é a diferença entre ter e não ter um seguro para o inverno em que o gás não chega.
Portugal é o exemplo mais puro dos três reparos. Sines e o Pego chegaram a produzir um quarto da eletricidade do país. Em outubro de 2019, António Costa antecipou o fim do carvão de 2030 para 2023; o operador do Pego antecipou-o mais dois anos; Sines fechou em janeiro de 2021, o Pego em novembro, e Portugal tornou-se o quarto país europeu sem carvão. Três meses depois, a Rússia invadiu a Ucrânia e o preço do gás na Europa multiplicou-se. A eletricidade que Sines faria com carvão passou a fazer-se com gás importado ao preço de 2022. A virtude tinha sido celebrada em Glasgow; a fatura chegou a Lisboa.
Continuamos a precisar de petróleo e gás
Há uma fantasia, comum entre quem pensa a energia só em termos de eletricidade, de que o problema acaba quando a rede fica verde. Eis a aritmética que a desfaz.
Em 2024, o petróleo era 38% da energia da União e o gás 21%, e a União importou 57% da energia que consumiu. No consumo final, a eletricidade, aquilo de que todo o debate trata, é 23%, menos de um quarto da energia que os europeus efetivamente usam; os produtos petrolíferos são 37%. Só os transportes são 29% do consumo final, e andam a petróleo.
Uma rede perfeita, cem por cento vento, água, sol e urânio, descarbonizaria hoje um quarto da energia europeia e deixaria os outros três quartos onde estão. A eletrificação dos carros e do aquecimento fará subir essa quota ao longo de décadas, e é precisamente por isso que o preço da eletricidade importa mais, não menos. Mas o que sobra não é teimosia. É química.
A aviação precisa de um combustível com quarenta vezes mais energia por quilo do que a melhor bateria, e vai precisar durante muito tempo. A navegação é o mesmo problema com motores maiores. Os plásticos, os solventes, os lubrificantes, o asfalto e os medicamentos são feitos de petróleo; não há molécula elétrica de polietileno. Os adubos começam em hidrogénio, e quase todo o hidrogénio do mundo vem do gás natural, porque a alternativa custa três a quatro vezes mais e a comida do mundo não pode pagá-la. O cimento, o vidro e o aço precisam de temperaturas de chama a que a resistência elétrica só chega a um custo que fecha a fábrica. Quatro em cada dez casas europeias aquecem-se a gás, e a bomba de calor que substitui a caldeira precisa de uma rede que entregue muito mais eletricidade na noite mais fria do ano, quando os painéis estão às escuras. E o vento e o sol que a Europa instalou precisam de um parceiro para as horas em que não produzem; hoje esse parceiro é uma turbina a gás, e vai sê-lo enquanto as baterias custarem o que custam. São as centrais a gás que fornecem a maior parte da flexibilidade da rede europeia, e as oscilações diárias de preço são hoje cerca de cinco vezes as de 2020.
Nada disto diz que o petróleo e o gás são para sempre. Diz que são para os próximos trinta anos pelo menos, em quantidades de que um continente de 450 milhões de pessoas não devia querer depender de um navio de Sabine Pass ou de um gasoduto da Argélia para receber. A pergunta não é se a Europa queima hidrocarbonetos. É de quem.
As dependências
Quando um continente desiste de produzir a energia de que precisa, não deixa de a consumir. Passa a comprá-la a quem a tem, e quem a tem descobre que a pode usar politicamente. A Europa aprendeu isto quatro vezes em quatro anos, com quatro fornecedores diferentes, e ainda não tirou a conclusão.
A Rússia primeiro. Em 2021, cerca de 40% do gás importado pela União vinha da Rússia, por gasoduto, ao abrigo de contratos que a Alemanha considerava uma garantia de paz. Em 2022 o gás foi cortado, o preço multiplicou-se e a Europa pagou centenas de milhares de milhões de euros em subsídios de emergência para não deixar a indústria e as famílias ao frio. A lição parecia clara.
A resposta foi trocar uma dependência por outra. O gás liquefeito americano passou de uma fração marginal a 57% das importações europeias de gás liquefeito em 2025 e caminha para dois terços este ano e 80% em 2028. Em julho de 2025, a União comprometeu-se a comprar 750 mil milhões de dólares de energia americana em três anos como parte de um acordo comercial negociado sob ameaça de tarifas. A energia passou a ser moeda de troca da política comercial de Washington, e um presidente que ameaça a Dinamarca por causa da Gronelândia é o mesmo a quem a Europa compra o gás com que se aquece.
O Médio Oriente a seguir. O Qatar era um dos três maiores fornecedores de gás liquefeito da Europa e a Arábia Saudita e o Golfo uma parte relevante do petróleo; desde a primavera, com Ormuz fechado, o Qatar está fora do mercado e o gasóleo em Portugal bateu o recorde de sempre. Nenhuma decisão europeia mudou o preço na bomba de Lisboa. Foi uma decisão de Teerão.
E a China, que é a dependência de que menos se fala porque veste de verde. Mais de 80% de todas as fases do fabrico de painéis solares, do polissilício ao módulo, são chinesas; a maior parte das células de bateria; 90% da refinação de terras raras e quase todos os ímanes permanentes das turbinas eólicas e dos motores elétricos. A União compra à China 98% dos ímanes que usa. Em abril e outubro de 2025, Pequim impôs controlos de exportação sobre terras raras e ímanes, com licenças por encomenda e informação sobre o utilizador final; a segunda vaga está suspensa até novembro de 2026, o que é outra forma de dizer que pode voltar quando convier. A transição energética europeia, tal como foi desenhada, substitui a dependência do gás russo pela dependência da fábrica chinesa, e chama a isso autonomia.
Independência energética não é autarcia. A Noruega vende gás, a Argélia vende gás, o Texas vende gás, e a Europa deve comprá-lo a todos. Independência é não estar à mercê de um fornecedor para nada de que não se pode prescindir: nenhum país com mais de um quinto de um produto essencial, reservas físicas em casa, e produção doméstica de tudo o que a geologia e a engenharia permitirem. Cada uma das quatro dependências acima foi usada contra a Europa nos últimos quatro anos.
O que a Europa tem debaixo dos pés
Esta é a parte que ninguém em Bruxelas quer ler.
Em 2013, a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos publicou a única avaliação continental dos recursos de xisto da Europa alguma vez feita, e ninguém a refez desde então. As estimativas de recursos tecnicamente recuperáveis, já ponderadas pelo risco: cerca de quatro biliões de metros cúbicos de gás na Polónia, outros tantos em França, mais quase cinco mil milhões de barris de petróleo na bacia de Paris, e volumes menores na Roménia, nos Países Baixos, na Alemanha e na Bulgária. Somados, em números redondos, doze biliões de metros cúbicos para a União, que consome cerca de 330 mil milhões por ano: trinta e cinco anos de consumo, debaixo de Lublin, de Champanhe, da Baixa Saxónia e da planície do Danúbio. No Reino Unido, o Serviço Geológico Britânico estimou o gás contido no xisto de Bowland, sob o centro de Inglaterra, em quase 40 biliões de metros cúbicos, sem saber quanto seria recuperável.
“Tecnicamente recuperável” é um número de geólogo, não de contabilista. A Polónia tentou. Entre 2010 e 2016 as grandes petrolíferas perfuraram dezenas de poços na bacia do Báltico, encontraram a rocha mais difícil de fraturar e os caudais mais pobres do que os análogos da Pensilvânia, e foram-se embora; a agência americana cortou 20% à estimativa polaca depois dos primeiros resultados. Talvez o xisto francês seja tão dececionante como o polaco. Talvez seja tão bom como o do Texas. Ninguém sabe, e este é o ponto: a França garantiu que ninguém saberia. Proibiu a fraturação hidráulica em 2011, antes de um único poço de pesquisa ter sido perfurado, e em 2017 foi mais longe e proibiu novas pesquisas de hidrocarbonetos de qualquer tipo e mandou acabar toda a produção até 2040. A Alemanha proibiu na prática a extração não convencional em 2017. A fraturação é proibida em França e na Áustria e permitida, com regulação apertada, na Polónia e na Roménia. A Espanha escreveu na sua lei do clima de 2021 a proibição de novas pesquisas. A Irlanda acabou com novas licenças de pesquisa de petróleo no mar em 2019 e de gás em 2021. A Dinamarca acabou com novas rondas de licenciamento no mar do Norte em 2020. Portugal, como vou descrever, perdeu a última concessão no mar em 2018 sem um furo.
Depois há Groningen, que tem o maior campo de gás da Europa, descoberto em 1959, com 450 mil milhões de metros cúbicos de gás recuperável ainda lá dentro quando o parlamento holandês o fechou por lei em 2024. Os sismos são reais e os danos na província são reais; este é o único encerramento europeu com uma razão física por trás. Mas veja-se o que se decidiu a seguir. Os poços estão a ser selados com duas tampas de aço e centenas de metros de betão, um trabalho que deve durar até 2035 ou 2039, para que o campo não possa ser reaberto nem numa emergência. O atual governo holandês chamou a manter o campo disponível para uma emergência uma coisa socialmente inaceitável. Em setembro de 2021, com o preço do gás holandês em máximos históricos, perguntaram ao Ministério da Economia se deixaria o operador produzir mais para aliviar os preços, e a resposta foi: absolutamente não. A Europa não está só a deixar o gás no chão. Está a deitar-lhe betão em cima.
E eis o paradoxo que devia envergonhar quem defende isto. A Europa proibiu a fraturação hidráulica no seu solo enquanto se tornava o maior cliente do gás produzido por fraturação hidráulica no Texas e no Louisiana, transportado através do Atlântico em forma líquida a quatro ou cinco vezes o preço a que se vende na origem. O gás de xisto americano é inaceitável na bacia de Paris e indispensável no porto de Dunquerque. Se a objeção fosse ambiental, aplicar-se-ia à molécula. Aplica-se só ao mapa. É este o aspeto da ideologia quando é escrita num código mineiro.
As opções, por horizonte
O objetivo é um só: energia mais barata e mais nossa. Não há uma solução única para lá chegar. Há uma sequência, ordenada pela rapidez com que cada opção entrega um megawatt-hora mais barato.
Agora até 2030: a rede. Cada diferença de preço persistente entre dois mercados vizinhos é um cabo em falta. A Espanha teve em 2025 um preço médio de 65 euros por megawatt-hora, o terceiro mais baixo da Europa a seguir aos nórdicos e à França; no mesmo dia de janeiro de 2025 em que a Espanha chegou a 145, a Alemanha chegou a 231. Na onda de calor de julho, os preços subiram 15% em Espanha e 175% na Alemanha. Onde havia interligações a eletricidade foi para onde fazia mais falta e os picos dissiparam-se. Um mercado ligado arbitraria estas diferenças; a sua persistência é a medida dos cabos que não se construíram. E dos que se escondem: a Alemanha recusa dividir a sua zona de preço única, e assim tapa o gargalo entre o vento do norte e a indústria do sul com um preço médio; a Suécia tem quatro zonas, e o norte a 28 euros é o resultado de dizer a verdade.
A Península Ibérica é o caso extremo. A capacidade de troca entre Espanha e França é de cerca de 2,8 gigawatts, pouco mais de 2% da potência instalada em Espanha, quando a meta europeia é que cada país consiga trocar com os vizinhos pelo menos 15% da sua potência em 2030. O cabo do golfo da Biscaia, em construção, acrescenta 2 gigawatts no fim da década, e mesmo assim a Península fica a um quarto da meta. O apagão de 28 de abril de 2025 foi a fatura: o relatório final da ENTSO-E encontrou falhas sistémicas no controlo de tensão e na gestão de potência reativa, e notou que a interligação limitada da Península com o resto da Europa agravou o colapso. Cabos e controlo de tensão são aborrecidos. São também a única opção desta lista que se paga dentro de uma legislatura.
Agora até 2035: armazenamento e capacidade firme atrás das renováveis. As renováveis forneceram metade da eletricidade da União em 2025. Os painéis são a parte barata. O que falta é o que está atrás deles às sete da tarde. A conta da Ember para Itália explica porque é que a resposta já não tem de ser o gás. Um megawatt-hora solar produzido ao meio-dia custa cerca de 15 euros. Guardá-lo numa bateria e entregá-lo à noite acrescenta cerca de 49 euros de custo da bateria, o que dá perto de 64 euros pelo megawatt-hora entregue às oito da noite. A central a gás que hoje faz o preço nessa hora, entre combustível e licenças de carbono, produz a 111. A bateria já bate o gás, e a diferença só vai alargar. A Europa devia estar a construir baterias e bombagem ao ritmo a que construiu painéis, e devia deixar de fingir que o hidrogénio verde fará este trabalho a um preço que alguém pague.
Agora até 2040: petróleo e gás doméstico. Reabrir a pesquisa. Uma ronda de licenciamento na bacia de Paris, na Baixa Saxónia, nos xistos do Báltico, ao largo do Alentejo, no mar Negro e no Adriático, com as condições ambientais mais estritas que a Europa souber escrever, diria ao continente em cinco anos o que tem. Parte disso será a Polónia outra vez. Parte pode ser Bowland. O Neptun Deep da Roménia, no mar Negro, o único grande projeto que passou, começa a produzir no ano que vem. Cada mil milhões de metros cúbicos produzidos em casa substituem mil milhões importados ao preço do mercado mundial. A diferença entre o custo de o extrair e o preço a que se vende fica na Europa em vez de ir para o Texas, cada volume adicional baixa o preço para todos, e nenhum navio tem de atravessar Ormuz. E manter os poços de Groningen tapados, não betonados, como a reserva estratégica que são.
Agora até 2045: nuclear. O nuclear fornece cerca de 23% da eletricidade da União e cerca de metade da eletricidade de baixo carbono, e a Finlândia mostra que dá preços mais estáveis e competitivos do que países em saída como a Alemanha. Mas o calendário honesto é longo. O teto da EDF para os primeiros seis reatores novos de França é 72,8 mil milhões de euros, com decisão final de investimento esperada até ao fim de 2026 e primeiro betão em 2029; o primeiro deles não estará em operação antes de 2038. O historial por trás da cautela: Flamanville 3 chegou com 13 anos de atraso e 12 mil milhões de euros acima do orçamento, e Hinkley Point C vai já em cerca de 46 mil milhões de libras.
A ordem das operações é portanto: prolongar cada reator existente que possa funcionar em segurança, porque um reator já pago é o megawatt-hora de baixo carbono mais barato da Europa; depois construir em série, à coreana, para que a décima unidade custe metade da primeira; e tratar a nova estratégia de reatores modulares da Comissão, que aponta para os primeiros no início da década de 2030, como uma opção e não como um plano. O custo de um reator novo é sobretudo custo de capital, e é por isso que o Estado francês vai financiar pelo menos metade da construção com empréstimo bonificado e garantir o preço da eletricidade por quarenta anos; sem esse desenho financeiro, nenhum reator novo se constrói na Europa. A Alemanha devia religar o que ainda pode religar.
Sempre: licenciar em meses, não em anos, e pagar pela firmeza. Um cabo de alta tensão demora hoje na Europa entre sete e dez anos a aprovar e dois a construir; a rede é o único ativo energético cujo prazo é feito de papel. Os projetos de rede devem ter licenciamento único, prazos com silêncio positivo e expropriação acelerada, como as autoestradas tiveram. E o mercado tem de pagar a quem garante potência nas horas sem vento: mecanismos de capacidade para baterias, bombagem, gás e nuclear, contratados a dez anos, em vez de a indústria descobrir a firmeza pelo preço no dia em que ela falta.
Sempre: deixar de taxar aquilo que se quer. Um preço do carbono de 60 a 90 euros por tonelada é um imposto sobre a produção europeia que nenhum concorrente paga, e o ajustamento na fronteira não chega aos bens que interessam. Ou se estende o ajustamento aos produtos acabados, o que é administrativamente impossível, ou se aceita que o preço do carbono deve ser fixado ao nível que a indústria europeia aguenta e não ao nível que a consciência europeia prefere. O mesmo para a camada fiscal nas faturas de eletricidade: nas famílias, na maior parte dos Estados-membros, um terço ou mais do que se paga é imposto e custo de política, não energia. A geração barata e a fatura cara coexistem porque os governos usam a fatura como base tributária. E o mesmo, em Portugal, para os 84 cêntimos por litro de gasóleo com que começámos.
E há a hipocrisia final, que é de classe. Os impostos sobre a energia são dos mais regressivos que existem. As famílias mais pobres gastam uma fração muito maior do rendimento em aquecimento e em transportes, porque não podem trocar de casa nem de carro, e são os seus empregos, na fábrica de vidro, na cerâmica e na siderurgia, que desaparecem quando a energia encarece. Em Portugal, uma em cada seis pessoas diz não conseguir aquecer a casa no inverno, contra uma em cada onze na União. A política que faz isto foi desenhada por ambientalistas urbanos de classe alta, que compram o carro elétrico com subsídio, instalam a bomba de calor com incentivo e não conhecem ninguém que trabalhe numa fábrica. Chamam-lhe justiça climática. É uma transferência dos que sentem o frio para os que sentem a virtude.
Portugal
Portugal é o país da Europa que fez melhor a metade renovável e pior a outra metade.
Os factos. Em 2025, as renováveis cobriram 68% de um consumo de eletricidade que bateu o recorde de sempre, e o Eurostat conta 82,9% da eletricidade gerada em Portugal como renovável, o terceiro valor da União. O resto foi quase todo gás, que cresceu 54% num ano. O plano nacional aponta para 93% de eletricidade renovável em 2030. Portugal está, em termos grossistas, no canto mais barato do continente a seguir aos nórdicos e à França. E no sábado importava eletricidade de Espanha, com as renováveis em 44% do consumo, porque o outono está seco e o vento não sopra.
Seis coisas, por ordem de consequência.
Primeira, saber o que temos. Em 2015, sete empresas tinham 18 concessões para pesquisar petróleo e gás em Portugal. Em dezembro de 2016, o Governo rescindiu os contratos da Portfuel e da Repsol/Partex no Algarve. Em agosto de 2018, o tribunal de Loulé deu uma providência cautelar contra o furo da ENI e da Galp ao largo de Aljezur, e em outubro o consórcio abandonou o projeto, dizendo que se tornara impossível avaliar o potencial offshore do país, ao abrigo de um contrato assinado em 2007. A Australis saiu da Batalha dizendo que não pôde completar a avaliação de uma descoberta que fizera. Portugal nunca perfurou um poço de pesquisa em águas profundas. Reabrir licenças de pesquisa no mar e em terra não é uma decisão de produzir. É uma decisão de saber. Um país que se recusa a ler a geologia não está a proteger o ambiente; está a proteger um estado de espírito.
Segunda, sair da ilha ibérica. Todos os argumentos sobre a rede valem a dobrar para um país que está atrás de Espanha, que está atrás dos Pirenéus. O interesse de Lisboa no cabo da Biscaia e numa terceira ligação pirenaica é maior do que o de Madrid, e Portugal devia ser a voz mais alta em Bruxelas sobre a partilha de custos transfronteiriços e o parceiro mais impaciente com Madrid. As 22 recomendações do relatório do apagão, sobre o controlo de tensão acima de tudo, são o seguro mais barato que o país alguma vez comprará, e a admissão da própria REN de que a produção renovável tem sido restringida desde abril de 2025 para salvaguardar a segurança é o custo de não o ter comprado antes.
Terceira, lutar por Almaraz. A saída espanhola do nuclear começa em Almaraz, a cem quilómetros da fronteira, em 2027 e 2028. Cada megawatt-hora que deixar de produzir será substituído por gás, e o gás faz o preço de todo o mercado ibérico nas horas sem sol, que são as que pesam na fatura; Portugal paga esse preço quer esteja a importar quer a exportar nessa hora, porque o mercado é um só. Um governo português que não diz nada sobre Almaraz está a escolher preços mais altos em silêncio. Portugal não tem central nuclear nem caminho realista para uma antes de 2045; a sua política nuclear é a de Espanha e a de França, e devia comportar-se em conformidade.
Quarta, vender os eletrões em produtos. Enquanto os cabos não existirem, Portugal não consegue exportar muita eletricidade. Consegue exportar energia incorporada em coisas: centros de dados em Sines, onde se constrói um campus de mais de um gigawatt sobre a promessa de eletricidade renovável barata e de uma amarração de cabo atlântico; aço verde e alumínio secundário; lítio refinado ao lado da mina do Barroso em vez de embarcado para a China. É o modelo norueguês, e o único disponível para um país com geração barata e fronteiras caras. A eletricidade barata segura a indústria que de outro modo sairia da Europa por completo.
Quinta, armazenamento antes de mais painéis. A solar portuguesa é restringida ao meio-dia enquanto as turbinas a gás correm às oito da noite. O euro marginal compra hoje mais em bombagem e baterias do que em mais um parque solar. O Tâmega mostrou que se faz à escala; faça-se mais vezes.
Sexta, a fatura e a bomba. As famílias e as empresas portuguesas pagam, em paridade de poder de compra, das eletricidades mais caras da Europa por uma das gerações mais baratas, porque a fatura carrega vinte anos de custos de política por cima. E o gasóleo a 2,22 euros carrega 84 cêntimos de Estado, mais uma taxa de carbono que se cobra a quem já não tem onde fugir. São decisões que Lisboa pode tomar sozinha, sem Bruxelas, sem Madrid e sem vento.
A penitência
A política energética europeia foi uma penitência: um programa de autonegação assumido na convicção de que sofrer à vista de todos mudaria o comportamento do mundo. O mundo não mudou. As emissões bateram um recorde no ano passado. As fábricas mudaram-se, o fumo foi com elas, e a Europa paga pelo gás que importa do Texas mais do que o Texas paga para o queimar, enquanto se proíbe de procurar o mesmo gás debaixo da Champanhe. Chamei-lhe virtude hipócrita e suicida. Não conheço adjetivos mais exatos.
O remédio não é exótico. Cabos, baterias, sondas, reatores mantidos abertos, centrais em conserva em vez de demolidas, um preço do carbono a que a indústria sobreviva, nenhum fornecedor com mais de um quinto de nada, e a humildade de aprender o que há debaixo do chão antes de decidir não lhe tocar. Portugal tem dos eletrões mais baratos da Europa Ocidental e das faturas mais caras, e nunca perfurou um único poço em águas profundas para saber o que mais tem.
Na província de Groningen, a selagem de cerca de 300 poços começou em 2024. Cerca de 70 já foram cheios de betão. O trabalho deve terminar entre 2035 e 2039, com 450 mil milhões de metros cúbicos de gás ainda lá em baixo.