1 Socialismo agora

Há poucas semanas, Ross Douthat falou no seu Interesting Times com Bhaskar Sunkara, um dos editores fundadores da revista Jacobin, autor de The Socialist Manifesto: The Case for Radical Politics in an Era of Extreme Inequality (2020) e membro da Democratic Socialists of America (DSA). Quando Sunkara referiu que “este é um momento emocionante para se ser de esquerda nos Estados Unidos”, Douthat não evitou a pergunta com que parecemos obcecados:

“Na política norte-americana da década de 1990, no rescaldo da Guerra Fria, o socialismo parecia uma ideia ultrapassada. Agora, parece ser uma fação influente no seio do Partido Democrata, com potencial para transformar o partido. Porquê o socialismo agora?”

Tal como, na Europa, muitas pessoas se surpreendem com o regresso de ideias “que pareciam ultrapassadas” – como as vitórias da AfD na Alemanha ou o apoio dos mais jovens ao Chega entre nós –, também nos Estados Unidos causa perplexidade que, num país que teve durante décadas a URSS e o comunismo como inimigos, tantos se orgulhem agora de ser “socialistas”.

Podemos adotar uma resposta simplista (e mesmo preguiçosa) e dizer que, por exemplo, o crescimento dos movimentos nacionalistas ou de direita radical resulta do “fim da vergonha”. A realidade é, no entanto, mais complexa e a contingência assume um papel fundamental: os tempos mudam, as pessoas mudam e respostas que antes pareciam as melhores ou, pelo menos, as mais aceitáveis já não respondem aos anseios das populações. É natural, por isso, que as novas gerações se sintam atraídas por soluções que antes eram minoritárias ou, até, silenciadas – e isso tem alimentado o crescimento dos extremos. Nos Estados Unidos, aconteceu primeiro com o populismo MAGA, que Donald Trump conseguiu mobilizar; agora está a acontecer com a fação mais radical do Partido Democrata, como vimos na semana passada.

O sucesso crescente da DSA tem gerado muitas reações críticas no espaço público, de que é exemplo David Brooks que, na revista The Atlantic, escreveu:

“Quando ouço a ala progressista, lembro-me sempre de uma frase do livro de Richard Weaver, de 1948, intitulado Ideas have Consequences: «O problema da geração contemporânea é que não leu a ata da última reunião.» Tudo o que os progressistas propõem já foi tentado antes, repetidamente, com resultados terríveis. Controlo das rendas? Já foi tentado. Nacionalização da indústria? Já foi tentado. Concentração de poder para perseguir a ideia de justiça? Já foi tentado.”

O problema é que a questão geracional não se resolve apelando à História.

2 A questão geracional

Tal como acontece com muitos movimentos de direita radical (pensemos naquilo que há uns anos se designava como o youthquake) e de esquerda radical (pensemos no crescimento do Green Party no Reino Unido), também o crescimento da DSA tem uma base geracional: a média de idades dos seus membros está a diminuir desde 2013 e, desde 2021, três em cada quatro membros têm menos de 40 anos.

A verdade é que o “fator idade” tem-se afirmado como mais uma fratura na sociedade norte-americana (a par da classe, do sexo ou da raça), com uma narrativa que ganhou força após as presidências de Joe Biden e Donald Trump. As novas gerações, muito mobilizadas pela dinâmica digital, aparecem como zangadas com o sistema, revoltadas com o custo de vida, desesperadas com a dificuldade de comprar ou arrendar casa e, muitas vezes, ainda sobrecarregadas com os empréstimos das propinas.

Não é, assim, surpreendente que um dos grupos do eleitorado a ser mobilizado pela DSA corresponda a um conjunto amplo de pessoas que, sem fortes convicções ideológicas, sentem que o sistema parece desenhado para beneficiar uns e explorar outros. E como as propostas da DSA prometem solucionar o problema da habitação, garantem o perdão das dívidas decorrentes das propinas e anunciam cuidados médicos universais tornam-se apelativas – tendo em conta que tudo o resto falhou. Este grupo pode até sentir-se desconfortável com o rótulo de socialismo, mas criam ligações de confiança com figuras como Zohran Mamdani e desvalorizam as propostas mais radicais que constam do seu programa.

As mesmas ambiguidades não se colocam a respeito de um segundo grupo de pessoas que surgem associados à DSA por convicção ideológica. Podem ter-se radicalizado enquanto jovens e participam ativamente nas suas ações políticas, acreditando que o capitalismo deve ser substituído por um sistema mais justo; ou radicalizaram-se mais recentemente como efeito das ideias woke ou em reação às políticas de regulação migratória de Donald Trump. Defenderão convictamente o aumento de impostos para financiar serviços públicos e maior intervenção do estado para controlo de rendas, habitação pública ou mercearias comunitárias.

Este segundo grupo pode partilhar com um terceiro a questão política que mais polémica tem gerado em torno da DSA: a questão palestiniana. Muitos jovens universitários parecem ter passado da “ocupação das universidades” para a “ocupação do partido democrata”, com o objetivo de reposicionar o seu apoio a Israel. Muitos dos candidatos fizeram deste tema a sua plataforma, mas a questão parece criar divisões até dentro da DSA (de que as polémicas em torno de Hasan Piker são exemplo).

3 A gerontocracia da América

Por muito relevante que seja a questão palestiniana, a questão filosoficamente mais interessante da narrativa pública que tem alimentado o crescimento da DSA resulta de uma espécie de revolta geracional que está subjacente à crítica ao sistema. Aqueles que pertencem aos dois primeiros grupos têm verbalizado a sua crítica acusando um inimigo específico: a culpa seria dos “boomers”, a geração que nasceu após a segunda guerra mundial e beneficiou de condições económicas tão favoráveis que lhes foi permitido acumular poder político e económico.

E é por terem acumulado – em inglês, usam a expressão “hoard” ou “hoarding” – todo este poder que as novas gerações se veriam hoje destituídas da possibilidade de ter empregos bem remunerados, adquirir casa e não sofrer com o custo de vida. A velha narrativa que opunha capitalistas ao proletariado foi agora substituída pela luta entre gerações, entre aqueles que se apropriaram dos recursos e aqueles que ficaram com muito pouco.

As questões levantadas por estas lutas geracionais não são simples.

Estão as novas gerações efetivamente piores do que as gerações anteriores ou partiram antes de um patamar mais elevado? E devem os mais velhos ter obrigações financeiras específicas em relação aos mais novos?

Por outro lado, será adequado pedir aos mais velhos que, simplesmente, se afastem? Afinal, como podemos valorizar socialmente o aumento da esperança média de vida e depois querer excluir os mais velhos da vida ativa? E sugerir que a eutanásia deve ser considerada nesta discussão não nos faz recuar às eras mais sombrias da humanidade?

E não menos difícil: se tantos elementos das novas gerações escolhem um estilo de vida que passa por não ter filhos, não trabalhar tanto e não estar disponível para cuidar dos mais velhos, que legitimidade moral lhes sobra para reivindicar direitos?

Voltamos na próxima semana.

No próximo sábado estarei no 1.º Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Filosofia Política para debater “o papel público da Filosofa Política”. A discussão será aberta ao público: apareçam!