Abriu a entrevista a dizer que se candidata contra a ideia de que Pedro Nuno Santos tem um “destino manifesto” de ser o líder do PS, acabou a garantir que não avança como “oposição” a ninguém. No entanto, ao longo da conversa com Daniel Oliveira, no podcast Perguntar Não Ofende, José Luís Carneiro foi apontando — com ou sem encorajamento — defeitos ao adversário e retratando-se como o homem que pode conquistar mais votos para o PS, atento ao que os estudos de opinião apontam sobre a sua “notoriedade positiva”.
No início da longa conversa, Carneiro fez questão de lembrar que no PS não há “donos dos votos nem das consciências” para dizer que vem combater a ideia de que há um “destino manifesto” e uma “inevitabilidade” que define que Pedro Nuno Santos chegará à liderança do PS. E atirou com força contra o adversário principal e a sua opção por não fazer debates nesta fase enquanto se afirma um “grande democrata”: “É incompreensível. Em democracias não há monólogos”, disparou Carneiro, avisando para o perigo de “monolitismo” no PS.
Sobre a sua notoriedade, que poderá ser mais baixa do que a de Pedro Nuno, mostrou-se atento na avaliação de “muitos” estudos de opinião: segundo esses estudos, e até as “informações não editadas” que disponibilizam, o PS poderá ganhar com uma ampla maioria, desde que fale ao centro — “e quem tem perfil para falar sou eu”. Além disso, frisou, Pedro Nuno até pode ser mais conhecido junto do eleitorado, mas Carneiro garante que tem uma “notoriedade positiva superior à dele” — e até apontou que a sua entrevista à TVI ganhou, em audiências, à de Pedro Nuno (mais 75 mil espectadores), o que lhe indica que a sua campanha poderá ter “um nível de progressão muito superior”.
As farpas a Pedro Nuno continuaram ao longo da entrevista: Carneiro defendeu a ideia, que já tinha transmitido, de avançar com uma reforma da Justiça e um aprofundamento do regime das incompatibilidades e disse ter “verificado agora” que Pedro Nuno já admite poder “falar sobre o assunto”; também sugeriu que o oponente imita os seus argumentos na distribuição de temas em que podem falar com a esquerda (como investimento e rendimentos) e direita (soberania e regime).
Ao falar do baixo investimento público atirou mais uma farpa, sugerindo ao entrevistador que, apesar de as suas pastas governativas não terem muito a ver com o assunto, poderia colocar a questão ao adversário principal (“é uma pergunta que pode colocar ao Pedro Nuno que tinha grande parte do bolo investimento público na sua mão, pode explicar o que fez com habitação e transportes”).
E, questionado sobre o balanço do mandato de Pedro Nuno nas Infraestruturas, disse que deu “o melhor de si” e apontou elementos positivos na Habitação (embora lembrando que herdou a estratégia da secretária de Estado que o antecedeu) e na ferrovia (recordando também que o plano era do Governo como um todo), mas atirou contra a “gestão” do dossiê TAP: “Atuou menos bem na gestão do dossiê TAP, que teve impactos muito negativos nesta maioria absoluta. (…) A reestruturação está a mostrar bons resultados, mas aí estavam várias pessoas a contribuir para esse objetivo”.
Sem bloco central, com críticas à esquerda
Nesta entrevista, Carneiro voltou a distanciar-se da ideia de que viabilizará um Governo do PSD se for preciso, agarrando-se à mensagem principal: está convicto de que, se ganhar o PS, ganhará as legislativas. E frisou que consigo “não haverá bloco central”, voltando a remeter planos para acordos com outros partidos para eventuais conversas que venham a existir, após as eleições, nos órgãos do PS.
Sobre a geringonça, analisou a forma como, no seu entender, a esquerda “colocou o PS como principal competidor eleitoral” e quis romper com o PS (contra a vontade de Jerónimo de Sousa, “vencido” pelo comité central do PCP, sublinhou) apesar do “esforço genuíno” de Costa de chegar mais longe no diálogo: “Ficámos incrédulos”. Mas agora, sugeriu, o contexto é diferente e deixa a esquerda mais longe do PS: “Não estamos no quadro de 2015, temos duas guerras com as quais estamos confrontados”.
Além disso, Carneiro defende que o PS tem de desenvolver uma “cultura reformista”, apostar no crescimento do país e nas contas certas. Nisso, e em vários outros aspetos, defendeu o legado deste Governo — no SNS disse que as soluções estruturais encontradas demoram a ser implementadas e que quer aprofundar o diálogo com o setor e articular-se com instituições do setor social; na Educação, comprometeu-se a “avaliar os termos da alegada injustiça relativa” do tempo de serviço que ficou congelado e “estimar custos” para o que seria uma recuperação desse tempo que, recordou, exigiria uma despesa permanente.
Pelo meio, ainda voltou ao ataque a Pedro Nuno Santos, recordando mais uma vez a frase do adversário, em 2011, defendendo a ideia de ameaçar não pagar a dívida e fazer “tremer as pernas” dos banqueiros alemães. “Aquilo que defendemos no domínio público tem efeitos junto da capacidade negocial que temos junto das instituições”, frisou.
Quanto ao seu próprio legado enquanto ministro, defendeu que tem sido “intransigente” com o uso desproporcional da força nas polícias e que não se pode assumir que existe um “problema estrutural” de simpatia em relação à extrema-direita, mas também não negou que esse aspeto seja uma preocupação, assumindo: “Há manifestações de simpatia por teses incompatíveis com o Estado de Direito e para esses têm de haver mão dura do ponto de vista disciplinar e de responsabilidade criminal. Tem havido um aperto muito grande particularmente na exigência sobre direitos, liberdades e garantias”.
O processo de extinção do SEF, defendeu, não poderia ter sido feito de forma mais célere e, ao mesmo tempo, em segurança. Quanto à polémica do cartoon sobre racismo na polícia (francesa), sobre a qual ligou à administração da RTP para manifestar o seu desagrado, disse nesta entrevista que não foi uma tentativa de condicionar a televisão pública, mas de “atenuar o sentimento de injustiça que se estava a sentir” entre os polícias portugueses. E aproveitou para revelar que nessa altura, pelo ministro, “nem a GNR nem a PSP tinham apresentado queixa”, e Carneiro tentou “sensibilizá-los” para isso.