“Eu via o Rui sempre de bola debaixo do braço, sempre”. A frase pronunciada por Cândida Borges, mãe do novo treinador do Sporting, descreve de forma resumida a paixão do filho pelo futebol. Este amor à modalidade começou bem antes de Rui Borges pisar o campo do Mirandela. Foi em casa que teve o primeiro exemplo da vida que mais tarde viria a seguir. O pai, Manuel Borges, ex-jogador de Mirandela, Tirsense e P. Ferreira espelhou no filho a emoção de acompanhar cada jogo, cada decisão e cada conquista. “Como tinha visto o percurso do pai, ficou a perceber melhor o mundo do futebol”, explica ao Observador.

Mas o ânimo de acompanhar estes jogos era tal que estar na bancada não era suficiente. Já quando andava no ensino primário tinha a vontade de transmitir aos colegas a paixão que via dentro das quatro linhas. “Quando acabou o quarto ano a professora disse-me assim: ‘Eu dou aulas há 20 anos e só tive um aluno que era tão doido pelo futebol como o seu filho. Ele chega aqui à segunda-feira e conta o relato todo do que se passou nos jogos do fim de semana”, lembra Cândida Borges.

Embora a cabeça do (agora) treinador do Sporting estivesse já voltada para o futebol, a mãe sublinha que várias vezes repetia ao filho uma frase: “Tens de ter boa notas. Se não tiveres, sais do futebol”. Uma promessa que ficou cumprida, já que Rui Borges “nunca tirou negativas”, salientou Cândida, entre risos.

Ainda assim, Cândida confessa que “não queria que ele fosse futebolista”. Recorda até ter questionado o filho, aquando da sua contratação para o Bragança, o que serias se não fosse treinador. Rui Borges respondeu que trabalharia num banco (visto que estudava também economia), mas Cândida viu que não era esse o rumo destinado ao filho. Mesmo não sendo muito fã da ideia ao princípio, a mãe recorda que Rui não perdeu a força e até previu que chegaria aos clubes mais aclamados. “Uma vez, caiu um pedacinho de papel de um livro que tinha esta frase escrita por ele: ‘Eu ainda vou fazer ver à minha mãe que vou estar num clube grande”, conta ao Observador. Foi aí que percebeu, o filho estava focado e também ela acreditou que “ia chegar longe”.

Se para a mãe houve algumas dúvidas sobre o percurso de Rui Borges, para a irmã não. “Ele nasceu para isto”, reitera Fábia Borges. Também ela destaca o percurso do irmão, que teve sempre no “pensamento o futebol”. “Mesmo quando era jogador foi sempre um estratega que ainda é. Mas foi como treinador que começámos a perceber que ele realmente nasceu para aquilo”, sublinha.

A verdade é que o futebol já corria nas veias de grande parte da família. Entre o pai, Rui Borges e a própria irmã, a “genética esteve lá sempre”, salienta Fábia Borges. A notícia de que o irmão viria a ser o novo treinador do Sporting foi recebida como uma “prenda de Natal”, mas que souberam, desde logo, poderia não ser bem recebida por todos. “Foi uma decisão mesmo importante e que ele teve noção de que a massa associativa do Vitória iria criticar bastante, porque são um grande clube também e realmente ele gostou muito de trabalhar lá. Mas pronto, são decisões que têm de ser tomadas”, reflete a irmã de Rui Borges.

Questionada sobre o jogo de estreia do novo treinador do Sporting frente ao Benfica, Fábia mostra-se confiante e destaca a principal característica que distingue o irmão dos demais. “Ele consegue criar amizade com qualquer gente facilmente e acho que isso é muito importante no balneário. Acho que ele faz amizade mesmo com o jogadores, embora tenha noção de que tem de manter um nível um bocadinho diferente do tempo em que era jogador e acho que vai fazer toda a diferença neste caso”, sublinha.

Quem acompanhou de perto este ambiente de balneário, enquanto Rui Borges foi jogador, foi Carlos Correia, atual presidente do Mirandela e seu ex-treinador. “Já se via na altura quando era capitão de equipa, que conseguia fazer um bom grupo no balneário. É um bom líder, trabalhador, honesto, um ser humano espetacular e vai conseguir aquilo que ele deseja. Já chegou lá, ao topo. Mas acho que ainda vai conseguir mais”, reflete.

Carlos Correia não esconde o orgulho do seu antigo jogador e admite que sempre soube que “Rui Borges ia chegar a um dos grandes”. “Ele começou aqui como jogador, depois ele queria ser treinador, era um objetivo dele e então lancei-o como treinador na equipa sénior do Mirandela. Já se notava que tinha muito potencial”, conta. Também Ricardo Chaves, agora treinador adjunto do Sporting, veio do Mirandela, explica Carlos Correia: “A equipa técnica que está com ele passou toda por aqui por nós . O Ricardo Chaves foi meu jogador aqui, foi treinador também. Depois saiu o Ricardo Chaves, entrou o Rui Borges e depois a partir daí o Rui Borges pediu para sair na altura em dezembro para ir para o Académico de Viseu”.

Depois do Académico de Viseu, Rui Borges passou ainda por Académica, Nacional, Vilafranquense, Mafra e Moreirense. O nome do mirandelense, ainda assim, ganhou mais fama quando chegou ao V. Guimarães, tendo conseguido colocar a equipa nos oitavos de final da Liga Conferência e deixando-a agora em sexto lugar da Primeira Liga. O currículo de Rui Borges abriu agora um novo capítulo, com estreia marcada aos comandos do Sporting no próximo domingo frente ao Benfica.