À primeira vista, pode apenas parecer um jardim residencial mal cuidado, com falhas e completamente seco pelo sol. E é suposto sê-lo. É o vencedor do World’s Ugliest Lawn, uma competição que premeia quem não gasta recursos naturais, criada com o propósito de ser “uma iniciativa global para poupar água alterando a norma dos relvados verdes”.

Esta competição teve início em 2022 em Gotland, a maior ilha da Suécia, como forma de promover a conservação da água num território onde este bem escasseia na forma potável. A proibição da rega nesse ano devido à escassez de água levou a uma competição entre os residentes e que rapidamente ganhou dimensão mundial, em 2023.

A vencedora deste ano foi Leisa Elliott, residente de Birdlings Flat, uma pequena localidade costeira da Nova Zelândia. Em declarações ao The Guardian, Elliott afirma que a água potável a quem tem acesso vem de um poço nas redondezas, pelo que não a desperdiça em rega.

“O meu objetivo foi criar um jardim que cuida de si próprio, criando o seu próprio ritmo natural. A Mãe Natureza faz a rega aqui. Quando a chuva chega, a transformação é impressionante. Um oásis depois de um deserto é um espetáculo para se ver”, diz.

O júri do concurso, inteiramente composto por residentes de Gotland, votou em unanimidade pelo jardim de Elliott — no atual estado de seca em que se encontra, isto é — ao fim de apenas uma hora. “O seu relvado pode não ganhar concursos de beleza, mas conquista corações pela sua mensagem de sustentabilidade e adaptabilidade. O solo, ressequido e texturado pelos elementos, é pontilhado por reentrâncias naturais, esculpidas pelo tempo e adornado com as cores suaves de uma paisagem que prospera sem interferência humana”, deliberaram.

A competição pelo relvado mais feio do mundo, afirma Mimmi Gibson, diretora de marca da agência de turismo Region Gotland, é acirrada. “Quero dizer, são todos tão maus. São tão terríveis”, reagiu ao The Guardian.

Veja-se o exemplo do segundo classificado, o jardim completamente dominado por silvas e ervas daninhas de Emilia Vallara, em Brescia, em Itália. “É uma celebração da natureza deixada inteiramente à sua sorte. Este terreno acidentado, com as suas pedras escondidas, buracos imprevisíveis e vegetação indomável, oferece um encanto selvagem que desafia as normas tradicionais de jardinagem. Nunca regado nem aparado, o jardim prospera apenas com a chuva, abraçando a beleza crua da natureza selvagem autossustentável”, lê-se na nota do júri.

O tom, apesar de jocoso e bem disposto, traz consigo uma mensagem séria. “São utilizadas enormes quantidades de água para regar os relvados por razões estéticas. À medida que o mundo aquece, a escassez de água é um problema crescente. A UNESCO prevê que a escassez de água nas zonas urbanas duplique, passando de 930 milhões em 2016 para 1,7-2,4 mil milhões de pessoas em 2050. Ao não regar os relvados por razões estéticas, podemos proteger a disponibilidade das águas subterrâneas”, lê-se no manifesto do concurso.

Segundo Mimmi Gibson, esta e outra iniciativas com o mesmo foco têm ajudado a poupar entre 5% a 7% de água todos os anos em Gotland. “O concurso ‘O relvado mais feio do mundo’ é a nossa forma de inspirar mudanças positivas a nível global e de mostrar que a sustentabilidade não tem de ser aborrecida”, defendem os organizadores.