Visionário e artesão de um surrealismo particular. Dominador da arte de trabalhar o bem e o mal, o medo, a dúvida e o desconhecido, os sonhos e os pesadelos, a imaginação e a livre interpretação, o instinto e o segredo. Morreu o realizador norte-americano David Lynch, aos 78 anos. A informação foi avançada pela família no Facebook. “Há um grande vazio no mundo, agora que ele já não está connosco. Mas, como ele diria: ‘Mantenham os olhos no donut e não no vazio'”, pode ler-se na publicação.
Como o próprio explicou, o “donut” eram as coisas positivas, o seu trabalho e as suas crenças, enquanto o “vazio” são as críticas e a negatividade à volta do seu trabalho. Este lema acabou por definir a sua forma de trabalhar, fiel a uma visão do mundo transporta para uma expressão artística peculiar, surrealista e de vanguarda.
A sua carreira fica marcada por filmes como Mulholand Drive, Lost Highway, Veludo Azul ou O Homem Elefante, tal como pela série de televisão Twin Peaks. As longas-metragens valeram-lhe nomeações ao Óscar de Melhor Realizador. Contudo, só viria a ganhar a estatueta dourada da Academia em 2019, com um prémio honorário de celebração de toda a sua carreira.
▲ Dean Stockwell, Francesca Annis e David Lynch na rodagem de "Dune", filme de 1984
Nancy Moran
Assumiu que o cinema poderia ser suporte e, ao mesmo tempo, conteúdo. Poderia ser o veículo, mas também a obra ela própria, tudo em simultâneo. Ainda assim, foi para a televisão que desenvolveu um dos trabalhos que deu mais popularidade, a Twin Peaks que se estreou em 1990. No mesmo ano, ganhou a Palma de Ouro em Cannes por Coração Selvagem, a história de um romance frenético, Nicolas Cage e Laura Dern em fuga, ultrapassando limites e recusando sensatez.
Entre o policial e o retrato de uma América pequena num cenário grandioso, entre o thriller criminoso e um sobrenatural idiossincrático (elementos, aliás, que pontuaram diferentes episódios criativos do americano), Twin Peaks transformou-se num fenómeno de cultura popular, que acabaria por ser cancelado em 1991, após duas temporadas, mas que continuou a ser citação e inspiração.
No ano passado, em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Lynch revelou que se tinha afastado da realização devido a um enfisema pulmonar, causado pelo consumo perpétuo de tabaco ao longo da vida. “Eu gosto de fazer filmes. Eu gosto de trabalhar. Eu não quero parar”, tinha dito em 2018, numa entrevista ao The Guardian. Em 2022 haveria de ter um cameo em The Fabelmans, de Steven Spielberg, ao interpretar o realizador John Ford no final do filme.
▲ Em 1988 com a atriz Isabella Rossellini, a transfiguração personificada em "Veludo Azul", com quem Lynch teve uma relação entre 1987 e 1991
Ron Galella Collection via Getty
“É um dia maravilhoso, com o sol a brilhar e céus azuis”, rematou a família esta quinta-feira, na publicação em que anunciou a morte de Lynch. No verão passado, o realizador revelou que tinha um enfisema pulmonar e em novembro, em entrevista à revista People, assumiu “mal conseguia andar” e que respirar era como “ter um saco de plástico na cabeça”, ao mesmo tempo que apelava aos fumadores para pararem. Ainda assim, no comunicado que fizeram, os familiares de David Lynch não adiantaram detalhes ou causas oficiais da morte do americano.
Sem qualquer ligação com a morte de Lynch, mas assumindo todo o surrealismo possível, decorre até 23 de janeiro, entre o Nimas, em Lisboa, o Trindade, no Porto, e a Casa do Cinema de Coimbra, o ciclo “Os Enigma de David Lynch”.
Entre o instinto e o abstrato
Imprimiu tamanha densidade na obra que assinou que acabou por motivar a criação de um adjetivo. “Lynchiano” é usado muitas vezes para descrever o trabalho de outros, mas sempre a avisar que se trata de alguém a querer seguir o mestre. Com matemática surpreendente, Lynch ficou-se pela dezena de filmes. Um corpo de trabalho aparentemente reduzido quando comparado com o impacto que teve.
Começou tudo com Eraserhead, em 1977, um compêndio de ansiedade e de angústia, ambiente infernalmente industrial como paradoxo para o protagonismo que o corpo humano (e respetiva repulsa) tem na narrativa. Lançados ali estavam os parâmetros que seriam seguidos, ampliados, transfigurados.
▲ Fotografada com Laura Dern em 1990, o ano de "Coração Selvagem", que a atriz americana protagonizou com Nicolas Cage
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A América foi outra das personagens constantes. Aquela que o viu nascer — no estado do Montana — não foi a que chegou a retratar com mais glamour, não foi a Hollywood das estrelas e dos estúdios, a Los Angeles dos excessos e das possibilidades, que levou até Mulholland Drive (pleno de eortismo, protagonizado por duas atrizes wannabe numa delirante Hollywood distante dos estereótipos) ou Inland Empire (investimento pessoal que seria o último filme de Lynch)
Mas mesmo a estes títulos de produção mais grandiosa foi capaz de imprimir o sentido de mistério, de thriller de proximidade, de negrume, de ansiedade, de incapacidade de aceitar o que o ser humano consegue fazer, pensar, motivar. Como fez em O Homem Elefante, sobre Joseph Merrick, desfigurado transformado em atração; como fez na deliciosa psicose de Veludo Azul, uma história de depravação disfarçada de elegância; como fez na manipulação de instintos como o desejo ou a vingança em Lost Highway.
Entre todas estas narrativas, dançou entre os extremos. Foi da adaptação de uma obra de ficção científica — é dele o Dune de 1984, blockbuster que não chegou a sê-lo, mas que se fixou no imaginário de tantos. Como aconteceu com Dennis Villeneuve, autor do recente díptico que recuperou a obra de Frank Herbert para o cinema (agora também sem série de TV, na Max) — ao melodrama brilhantemente batizado de Uma História Simples (1999), sobre o homem, inspirado pela epopeia verdadeira de Alvin Straight (daí o título original Straight Story) que atravessou a América num cortador de relva para tentar acertar o tempo perdido com um irmão moribundo.
▲ No Governors Ball de 2019, quando foi distinguido com o prémio honorário da Academia de Hollywood
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Estudou arte com matrícula oficial enquanto jovem adulto, mas pareceu continuar a fazê-lo década após década. A pintura deu-lhe primeiro suporte para a plasticidade da expressão artística. Mas tarde, no cinema, essa mesma pintura revelou-se como iniciação fundamental para quem sempre teve como natural o cruzar de dimensões impossíveis no cinema. E na meditação transcendental encontrou mais uma porta para a busca de uma simplicidade que sempre o desafiou (porventura, a mesma que o levou a criar uma espécie de farda, casaco e camisa, sem gravata, botão do colarinho apertado).
Ali estava o ecrã como tela, sim, mas também como portal. E se Lynch seguiu o que a história do cinema americano tivera já feito, também criou novos espaços, sobretudo aproveitando aquilo que o espectador não vê e não conhece. Para que nunca fosse desvendada a realidade, demasiado pequena para David Lynch e demasiado pequena para os que nele foram buscar inspiração para a música, da mais óbvia Chrysta Bell, que apadrinhou, ao mundo de Lana Del Rey, que por vezes parece percorrer-lhe os passos, passando pelo próprio, que gravou três álbuns, e pelas referências que entregou a Angelo Badalamenti, que lhe compôs bandas sonoras, chegando a nomes como os Chromatics ou The Knife.
Da mesma forma foi ponto de partida para outras expressões, da moda à arquitetura. Lynch tornou-se inevitável, tornou-se inescapável. O adjetivo Lynchiano acabou por atravessar fronteiras estilísticas e linguísticas. Mesmo que na América não tivesse granjeado os elogios e as reverências que conquistou na Europa. Mesmo que nunca tenha integrado uma “escola”, um “movimento” ou um “grupo”. Mais do que tudo isso, fez-se sinónimo do muito que vale a intuição e a manipulação do abstrato, paixões que transmitiu a quem o seguiu.
Além da relação com Isabella Rossellini, David Lynch casou quatro vezes (a última em 2009, com a atriz Emily Stofle). Tinha três filhos: Jennifer, Austin e Riley Lynch.