Continua a 20 de janeiro a batalha legal do príncipe Harry contra a News Group Newspapers (NGN), de Rupert Murdoch, num caso em que o filho do rei Carlos III acusa os jornais The Sun e o extinto News of the World de obterem informações privadas sobre a sua vida através de técnicas ilegais. O duque de Sussex decidiu avançar para julgamento em novembro, depois de outros 38 casos terem sido resolvidos, incluindo o de figuras públicas como a ex-Spice Girl Melanie Brown, o ator Hugh Grant ou o pai do ex-futebolista David Beckham, Ted Beckham. Além de Harry, o único caso que ainda vai a tribunal é o do antigo vice-líder do Partido Trabalhista Britânico, Tom Watson. O julgamento decorre no Tribunal Superior de Londres e deve durar cerca de 8 semanas.
Este é um dos três grupos de media britânico contra os quais o duque de Sussex agiu judicialmente. Em 2023 Harry venceu uma ação contra o Mirror Group Newspaper, dono do Daily Mirror, que foi condenado a pagar uma indemnização de cerca de 164 mil euros por ter hackeado o telefone do príncipe entre 2003 e 2009. O juíz responsável pela decisão é Timothy Fancourt, o mesmo que vai julgar o caso contra o grupo de Rupert Murdoch. O príncipe ainda tem uma ação contra a Associated Newspapers, detentora do Daily Mail, que deve ir a julgamento em 2026.
Dono de um império dos media, Rupert Murdoch tem 93 anos e é uma das pessoas mais ricas do mundo segundo a Forbes. Empresário do setor desde os anos 1950, além do The Sun, Murdoch também é dono de títulos como o The Wall Street Journal ou o canal de televisão Fox News, o qual também enfrenta um processo na justiça estadunidense por difamação durante a cobertura pós eleições presidenciais de 2020. Em 2023 Murdoch retirou-se da chefia dos seus negócios, incluindo a presidência do conselho de administração da Fox e da News Corporation, mantendo apenas um cargo emérito. A liderança ficou com o filho, Lachlan Murdoch, de 53 anos.
A estratégia de Harry em tribunal
O caso de Harry cita 30 artigos e 20 incidentes entre 1998 e 2011, incluindo 16 investigadores privados e 23 jornalistas. Contudo, de acordo com a revista norte-americana Variety, as queixas do príncipe não são sobre escutas telefónicas. Ao invés disso o duque de Sussex acusa as publicações de obterem informações privadas através de técnicas enganosas, o chamado “blagging”, especificamente em artigos que afirmavam que o príncipe usava drogas. De acordo com o que disse em dezembro o advogado de Harry, David Sherborne, numa audiência que ultimou os detalhes do julgamento, as histórias serão falsas, entretanto, mesmo assim, a diretora executiva dos jornais do NGN, Rebekah Brooks, afirmou na altura ao Palácio de Buckingham que as informações eram sustentadas por evidências.
Além das acusações relacionadas aos artigos sobre Harry e Tom Watson, a equipa de defesa de Murdoch terá de responder também pelas condutas das publicações durante o período. É que a estratégia de David Sherborne é começar o julgamento a mostrar evidências compiladas ao longo dos anos de que os jornais usavam escutas telefónicas e obtinham informações privadas ou confidenciais através de meios enganosos de forma institucionalizada. O advogado pretende assim afirmar que nada poderia ter acontecido sem o conhecimento e direção dos executivos do NGN. Além disso, Sherborne pretende provar que, depois das alegações de escutas telefónicas se tornarem públicas, terá havido um esforço por parte dos executivos em destruir provas.
O advogado Anthony Hudson, que lidera a defesa do grupo de Murdoch, tentou evitar as alegações que afirma serem “genéricas”, justificando que Sherborne queria transformar o julgamento num inquérito público. Além disso, Hudson pediu o adiamento ao alegar que não teve tempo para analisar as 200 mil páginas do processo, a maioria das quais declarações de testemunhas. Entretanto, o juiz Timothy Fancourt negou o pedido.
Quem se vai sentar no banco das testemunhas
Nesta mesma audiência prévia, os advogados dos jornais de Rupert Murdoch pediram quatro dias para interrogar Harry sobre todos os artigos citados no processo. Apesar de poder participar nas audiências por videoconferência, é esperado que o príncipe viaje em fevereiro para estar pessoalmente em tribunal, em Londres, o que significa que ficaria durante este período longe da mulher, Meghan Markle, e dos dois filhos, Archie e Lilibet, que vivem na Califórnia, nos Estados Unidos da América, já que a família não o deve acompanhar. Além disso, enquanto durar o interrogatório, o duque de Sussex não poderá discutir o depoimento com ninguém, nem mesmo com os próprios advogados.
Um dos principais executivos que poderá ser chamado ao banco das testemunhas é Will Lewis, o publisher e CEO do The Washington Post, que em julho de 2024 foi acusado pelo ex-primeiro-ministro Gordon Brown de ter comandado os esforços para apagar os emails mais comprometedores no caso das escutas telefónicas. Outro nome que a defesa de Harry quer interrogar é Paul Cheesbrough, um dos executivos que lidera atualmente uma das empresas de streaming de Murdoch, a Tubi Media Group, na California. Na altura dos acontecimentos, Cheesbrough trabalhava com Lewis e era um dos principais especialistas digitais do escritório de Murdoch em Londres. A equipa de defesa de Harry pretende interrogá-lo por um período de 5 a 6 horas.
No dia 6 de janeiro o juiz Timothy Fancourt negou a intimação de 10 testemunhas de acusação por considerar que os seus depoimentos seriam “meros comentários argumentativos”. Entre as testemunhas que não poderão ser ouvidas está o ex-primeiro ministro Gordon Brown, a mãe da cantora Charotte Church ou o antigo membro do parlamento britânico John Bercow. “Parece-me que algumas testemunhas gostariam de expressas suas opiniões fortes sobre a forma como foram tratadas pelos jornais”, escreveu o juíz, no despacho.
As escutas telefónicas que o The Sun nunca assumiu
O News of the World era um jornal semanal de domingo que fechou em 2011, depois do escândalo de escutas telefónicas tornar-se público. Entretanto, o grupo de Rupert Murdoch sempre rejeitou qualquer infração por parte do The Sun, apesar do jornal ter chegado a acordo em processos anteriores relacionados com acusações de escutas telefónicas e obtenção de informações de forma ilegal. Anthony Hudson reforçou em tribunal que “mais de 1300 queixas foram resolvidas. A NGN mostrou repetidamente a sua boa vontade em entrar em acordo com as partes e compensá-las mais do que apropriadamente”.
Seguir em frente com o caso pode custar a Harry enormes encargos legais, mesmo que vença o processo. Entretanto, no início de dezembro numa participação no Dealbook Summit, um evento organizado pelo The New York Times, o príncipe destacou que o seu objetivo é responsabilizar os jornais. “Este processo tem quase 15 anos. O encobrimento das escutas é relativamente novo. Acho que esta será a peça que vai chocar o mundo”, disse, durante a conversa com o colunista do NYT Andrew Ross Sorkin sobre desinformação nos media. “Nestes cinco anos, a retaliação e intimidação das quais fui alvo como testemunha foi extraordinária, especialmente contra a minha mulher e meus filhos”.
O “acordo secreto” entre Palácio de Buckingham e NGN
Em 2023 Harry revelou num testemunho escrito apresentado em tribunal, que a avó, a rainha Isabel II, apoiava o processo contra a NGN. Contudo, o príncipe alega que foi impedido de seguir em frente com a ação em 2019 por causa do pai, o agora rei Carlos. “Fui convocado ao Palácio de Buckingham e foi-me dito que tinha de abandonar todas as ações legais porque tinham um efeito negativo em toda a família”, escreveu o duque de Sussex na altura. “Agora compreendo o porquê dos funcionários da Clarence House não ajudarem e bloquearem todas as nossas jogadas, uma vez que tinham uma estratégia de longo prazo para manter os média do seu lado, a fim de facilitar o caminho para a minha madrasta ser aceite pelo povo britânico como Rainha consorte quando o momento chegasse”.
Além disso, no mesmo testemunho, Harry afirma que o irmão, William, terá recebido em 2020 uma “elevada quantia monetária” do grupo de Murdoch num acordo para resolver as acusações de escutas telefónicas de forma discreta. “Isto prova a existência de um acordo secreto entre a instituição e os executivos da NGN”, escreveu.