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Axel Rudakubana, o jovem de 18 anos que matou três meninas numa aula de dança em Southport, no Reino Unido, em julho passado, foi condenado esta quinta-feira a prisão perpétua com uma pena mínima de 52 anos pelos homicídios de Alice da Silva Aguiar, de nove anos, Bebe King, de seis anos, e Elsie Dot Stancombe, de sete anos. O juiz disse mesmo que é “improvável que ele alguma vez deixe a prisão”.

A audiência de condenação do cidadão britânico decorreu no Tribunal Penal de Liverpool. Rudakubana já se tinha declarado culpado, na segunda-feira, de três crimes de homicídio, depois de ter invadido a aula de dança e ter esfaqueado várias crianças, acabando por matar três. Entre as vítimas estava Alice Aguiar da Silva, uma menina de nove anos, lusodescendente, filha de madeirenses.

Admitiu ainda a culpa pelas restante 13 acusações que lhe foram imputadas, incluindo a tentativa de homicídio de 10 pessoas no dia do ataque à escola de dança, nas quais se incluem oito crianças, que não podem ser identificadas por razões legais, e dois adultos – Leanne Lucas e John Hayes.

Enfrentava ainda acusações pelos crimes de posse de arma branca no dia dos esfaqueamentos, da produção de uma toxina biológica, a ricina, e ainda de posse de material terrorista. Segundo a BBC, tinha na sua posse um ficheiro PDF intitulado “Estudos militares na Jihad contra os tiranos, o manual de treino da Al Qaeda”.

O ataque em Southport, que decorreu durante uma aula de dança temática sobre Taylor Swift, chocou a comunidade britânica e acabou por receber atenção mediática internacional, principalmente devido à idade das vítimas, mas também devido à desinformação que começou a circular sobre o caso logo após a tragédia ser conhecida: a autoria do esfaqueamento foi atribuída a um imigrante muçulmano.

A conhecida obsessão com massacres e as três sinalizações. Passado do atacante de Southport expõe falhas do governo britânico

Rudakubana é um cidadão britânico, filho de pais ruandeses. Foi criado numa família devota à religião católica e ficou provado em tribunal que a prática do crime não esteve associada diretamente a qualquer tipo de organização terrorista, ainda que o atacante se tenha inspirado em massacres escolares e ataques terroristas.

A falsa informação de que poderia estar em causa um ato de terrorismo praticado por um imigrante recebido pelo Reino Unido levou a intensos protestos anti-imigração, que se prolongaram ao longo de semanas após o ataque. Começaram em Southport, local do ataque, mas estenderam-se por vários pontos do Reino Unido, alguns que se tornaram em motins, com vários atos de violência promovidos por organizações de extrema-direita.

O ataque despertou a atenção de várias personalidades, incluindo de Taylor Swift, que esteve reunida com várias sobreviventes e familiares das vítimas mortais. O Rei Carlos III também se encontrou com as crianças que sobreviveram ao esfaqueamento em Southport. Da mesma forma, o príncipe William e Kate Middleton visitaram Southport para conhecer famílias das vítimas do ataque com faca.

Rei Carlos III encontra-se com crianças que sobreviveram ao esfaqueamento em Southport

“Preciso de um paramédico, estou a sentir-me mal”. Homicida teve de ser retirado da sala de audiência à força

Rudakubana surgiu em tribunal de cabeça baixa e a usar a habitual máscara cirúrgica que lhe cobre grande parte da cara. Já dentro da sala de audiências, gritou: “Preciso de um paramédico porque me estou a sentir mal.”

O juiz Justice Goose, responsável pelo julgamento, assegurou que o arguido tinha sido visto por médicos na manhã desta quinta-feira e que estava apto a participar na audiência. “Quero que esta audiência continue”, assegurou. Relatos de funcionários da prisão davam conta de que não comia e não bebia água há vários dias.

Stan Reiz, advogado de defesa do homem, apelou à suspensão da sessão, mas o juiz ordenou, perante o descontrolo de Rudakubana, que os polícias presentes no tribunal usassem a força para o retirar do banco dos réus para uma sala ao lado. “Não vou ficar calado, estou a sofrer!”, continuou a gritar o jovem de 18 anos.

A sessão decorreu sem a presença do arguido e contou com as declarações e testemunhos das duas professoras que estavam no estúdio de dança quando o ataque ocorreu, bem como dos pais das dez crianças que sobreviveram ao ataque e que, segundo os mesmos, ficaram de tal maneira traumatizadas que atualmente não têm capacidade de ficar sozinhas, tendo, em alguns casos, o seu desenvolvimento regredido ao ponto de precisarem dos mesmos cuidados de bebés pequenos.

Juiz diz que Rudakubana “planeou matar o maior número de pessoas possível”

A decisão de condenação a prisão perpétua, declarada esta quinta-feira é incomum, uma vez que o arguido tinha 17 anos em julho de 2024, quando cometeu o ataque. Por norma, no Reino Unido, esta sentença só pode ser imposta a criminosos com 21 anos ou mais. O juiz considerou as circunstâncias do crime enquanto excecionais, justificando assim a pena.

Entende que o agressor tinha o objetivo de “matar o maior número de pessoas possível” e que foi por isso que comprou a faca, com uma ponta particularmente afiada, para cometer o crime.

Deu como provado que este tinha lido informações sobre como esfaquear pessoas e que foi quando viu a publicidade da festa infantil na Southport Heartspace Dance School que decidiu matar o maior número possível de pessoas, tendo como alvo crianças muito pequenas.

Justice Goose diz estar convencido de que, se Rudakubana não tivesse decidido matar dessa forma, era muito provável que utilizasse a ricina que tinha produzido no seu próprio quarto para cometer um ataque químico.

O juiz admitiu ainda que teve de “aceitar” o facto de não haver provas de que Axel Rudakubana tivesse qualquer causa terrorista, mas acrescenta que a sua culpabilidade é “equivalente à de questões terroristas, independentemente do seu objetivo”.