O ataque em Southport, que decorreu durante uma aula de dança temática sobre Taylor Swift, chocou a comunidade britânica e acabou por receber atenção mediática internacional, principalmente devido à idade das vítimas — foram mortas três meninas de seis, sete e nove anos, uma delas portuguesa. Mas houve um outro dado marcante: a desinformação que começou a circular sobre o caso logo após a tragédia ser conhecida: a autoria do esfaqueamento foi atribuída a um imigrante muçulmano.

Mas Axel Rudakubana, o atacante identificado, de 18 anos, não tem ligações à comunidade islâmica. Nasceu na cidade de Cardiff, País de Gales, como fez questão de destacar a polícia de Merseyside, a cargo da investigação, que tomou a medida invulgar de emitir um comunicado em que destaca precisamente a nacionalidade britânica do atacante, cujos pais, sim, têm origem ruandesa.

Southport. Adolescente acusado de matar três crianças (uma delas portuguesa) em aula com música de Taylor Swift declara-se culpado

Rudakubana, que atingiu a maioridade já depois de ser detido, após consumar o ataque, declarou-se esta segunda-feira culpado de três crimes de homicídio, depois de ter invadido a aula de dança e ter esfaqueado várias crianças, acabando por matar três. Entre as vítimas estava Alice Aguiar da Silva, uma menina de nove anos, lusodescendente, filha de madeirenses.

A falsa informação de que poderia estar em causa um ato de terrorismo praticado por um imigrante recebido pelo Reino Unido levou a intensos protestos anti-imigração, que se prolongaram ao longo de semanas. Começaram em Southport, local do ataque, mas estenderam-se por vários pontos do Reino Unido, alguns com vários atos de violência.

Jovem foi sinalizado três vezes pelo estado britânico. Ex-professores e colegas lembram que era vidrado em massacres

Antes de avançar para o ataque bárbaro, o jovem já tinha dado sinais e mais sinais de instabilidade psicológica e de obsessão por ataques terroristas e massacres em escolas. Também se identificava com a comunidade “Incel” e até já tinha levado a cabo um ataque com recurso a um taco de hóquei na sua antiga escola. Foi expulso, quando tinha apenas 13 anos, porque andava com uma lâmina.

Mesmo depois de todos estes alertas, Rudakubana conseguiu comprar uma faca através da Amazon e colocar em prática o ataque com o qual fantasiava desde a pré-adolescência. A facilidade com que o conseguiu fazer e a liberdade de que dispunha, mesmo depois de ameaças repetidas, deixa o governo britânico debaixo de fogo.

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Não foi uma, não foram duas, mas sim três as vezes que Axel Rudakubana foi encaminhado para um programa estatal de prevenção de violência e extremismo no Reino Unido. Os sinais, bem precoces, estavam lá. Logo aos 13 anos, em 2019, os professores que o acompanhavam alertaram para a obsessão do pré-adolescente por massacres em escolas, sendo encaminhado pela primeira vez para o programa “Prevent” por essas suspeitas e de que poderia estar prestes a agir em relação de acordo com os seus pensamentos.

Mas não foram só as ideias manifestadas pelo jovem que colocaram quem o rodeava em alerta. Ainda com 13 anos, foi apanhado com uma lâmina na sala de aula. O episódio resultou na expulsão da escola que frequentava, a Range High School, em Formby.

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Já depois de ter sido enviado para uma unidade de ensino especializada, Rudakubana entrou na sua antiga escola e atacou outros alunos com um taco de hóquei, revela o Telegraph. Tinha uma “lista de alvos” de alunos que queria atacar. Os colegas foram fechados nas salas de aula durante o incidente e o agressor só foi impedido de causar mais ferimentos aos alunos quando foi atirado ao chão pelo diretor da escola. A polícia foi chamada e ele foi encaminhado para a justiça juvenil.

Dois anos depois deste incidente, e já após o confinamento motivado pela pandemia de Covid-19, Rudakubana foi sinalizado mais duas vezes. Mostrava um interesse doentio por atos de terrorismo, com destaque para os ataques jihadistas de 2017.

Consumia também vasto conteúdo relacionado com a violência “Incel”, termo que significa “celibatários involuntários” — homens que odeiam mulheres (o sexo feminino) e que, em casos mais graves, desejam cometer ou cometem mesmo atos de violência contra as mesmas.

Sabe o que são “incels” e porque odeiam mulheres?

Apesar de ter sido encaminhado várias vezes para o programa estatal britânico de prevenção de terrorismo, e mesmo perante os relatos de violência consumada, foi sempre concluído que Rudakubana não tinha uma ideologia terrorista. Como destaca o Telegraph, este argumento é o mesmo utilizado pela polícia para justificar a não acusação judicial de crimes de terrorismo em relação ao assassinato das três crianças em Southport.

Além dos incidentes a envolver o jovem em ambiente escolar, a Polícia de Lancashire também foi chamada à casa onde vivia em cinco ocasiões distintas entre 2019 e 2022, na sequência de preocupações com o seu comportamento. De todas estas vezes, os agentes encaminharam o assunto para o Centro de Salvaguarda Multi-Agência e para os serviços sociais para crianças foram envolvidos, dada a sua idade.

Soube-se ainda, recentemente, que Rudakubana foi impedido pelo próprio pai de se deslocar à sua antiga escola na semana anterior ao ataque de Southport. O jovem, na altura com 17 anos, reservou um táxi de casa em Banks, Lancashire, para a Range High School em Formby, no dia 22 de julho de 2024. A sua roupa — uma camisola de capuz verde e máscara cirúrgica — era a mesma que viria a usar dali a sete dias, para cometer os assassinatos de Southport.

O pai conseguiu demovê-lo de seguir viagem depois de uma acesa discussão testemunhada pelo taxista. O mesmo não aconteceria na semana seguinte, quando se deslocou até à escola de dança para atacar com uma faca um grupo de meninas que participavam na aula de dança de Taylor Swift.

Governo britânico acusado de “encobrir” passado do assassino de Southport

É o próprio governo britânico a admitir que é uma “vergonha total” que Axel Rudakubana tenha conseguido ter acesso online à faca que encomendou na Amazon, mesmo depois de todas as vezes que foi sinalizado e até encaminhado para o sistema de justiça juvenil.

O programa governamental de combate ao extremismo “Prevent” também foi objeto de escrutínio depois de se ter descoberto que o homicida tinha sido encaminhado para o mesmo três vezes antes de cometer os crimes de 29 de julho, pelos quais se declarou agora culpado.

Entretanto, a ministra da Administração Interna, Yvette Cooper, anunciou que foi aberto um inquérito público aos ataques. Em declarações ao país, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse esta segunda-feira que é necessário apurar as razões pelas quais as autoridades falharam naquilo que o trabalhista descreveu como o seu “dever supremo” de proteger três jovens raparigas esfaqueadas até à morte por Axel Rudakubana.

Isto depois de Nigel Farage, o líder do partido britânico Reform, ter afirmado que o governo e a polícia tiveram um comportamento “abominável” em relação ao caso de Southport. Sugeriu até que os motins que se seguiram aos assassinatos de julho de 2024 poderiam não ter acontecido se o público tivesse sido informado da verdade mais cedo. “Tem havido um encobrimento gigantesco desde o primeiro dia”, garantiu o opositor político de Starmer.

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A verdade é que, como destaca o Telegraph, mesmo com o desmentido em relação ao autor do ataque ser um “imigrante muçulmano”, pouco foi o alívio transmitido à opinião pública britânica. Aqueles que saíram à rua para protestar, nas semanas após o ataque, já estavam convictos de que o massacre na aula de dança frequentada por crianças tinha sido um ataque terrorista, ainda que não praticado por um imigrante, pelo menos inspirado pelo Estado Islâmico.

Foi o próprio primeiro-ministro britânico a admitir, esta segunda-feira, que “o terrorismo mudou”. Enquanto no passado era refletido nas ameaças de grupos altamente organizados para atos de violência extrema, atualmente são planeados por “jovens nos seus quartos” que acedem a material online e que mergulham neste mundo de violência.

Rudakubana não foi ouvido a gritar qualquer palavra muçulmana ou ligada a grupos terroristas no local do crime. Foi criado por uma família cristã praticante e, na fase inicial da investigação, não havia nada óbvio que apontasse para o facto de ser muçulmano convertido ou ter qualquer outra ideologia, daí o caso não ter sido classificado enquanto um ato terrorista. Não deixa, contudo, de ter sido influenciado diretamente por ataques que tiveram motivações terroristas.