A fotografia tornou-se famosa por ser um retrato perfeito e cru das atrocidades causadas pelo napalm na guerra do Vietname. Mostra uma menina de 9 anos, completamente nua, depois de se ter desfeito das roupas que lhe queimavam a pele pelo agente químico lançado em bombas. Do outro lado da lente, pelo que se sabia até hoje, estava Nick Ut, o fotógrafo vietnamita que trabalhava em 1972 para a Associated Press (AP) e a quem a agência de notícias sempre atribuiu o seu crédito. A autoria da imagem é agora contestada num documentário que estreou este sábado no festival de cinema independente Sundance.
“The Stringer” — expressão em inglês para designar um jornalista freelancer — apresenta uma história diferente daquela que há anos tem sido associada à captação da fotografia premiada. No documentário, dirigido por Bao Nguyen, um grupo de jornalistas e investigadores alegam que o fotógrafo que captou o momento, a 8 de junho de 1972, é afinal Nguyen Thành Nghe, um “motorista vietnamita da NBC que vendeu suas fotos à AP como freelancer”.
A principal testemunha da suposta falsificação da autoria da imagem é Carl Robinson, um ex-editor de fotografia da AP na delegação vietnamita de Saigon, que alega que Horst Faas, o então chefe da editoria, que morreu em 2012, ordenou que ele alterasse o crédito da imagem e “a transformasse em Nick Ut” antes de a foto ser enviada para os serviços centrais da agência.
Citado pelo The Guardian, Robinson afirma, tanto no documentário como em declarações posteriores, que a culpa por ter atribuído incorretamente a autoria da fotografia o perseguiu durante anos e que, aos 80 anos, se sentiu compelido a encontrar o fotógrafo a quem os créditos foram roubados. “Não queria morrer antes de esta história ser conhecida”, admitiu durante uma sessão de perguntas e respostas após a estreia do filme em Park City. “Queria encontrá-lo e pedir desculpa”, afirmou mesmo.
“Rapariga do Napalm” acompanhou a retirada de 236 refugiados da guerra na Ucrânia
Robinson contactou pela primeira vez o investigador principal e narrador do documentário, Gary Knight, com a alegação em 2010. Só muito depois disso é que Knight e mais três jornalistas — Fiona Turner, Terri Lichstein e Lê Vân — começaram a investigar a alegação, acabando por chegar à fala com o suposto fotógrafo a quem os créditos da fotografia premiada terão sido retirados indevidamente.
Nguyen Thành Nghe está emigrado nos EUA e vive atualmente na Califórnia. Surge no documentário a garantir que foi ele que tirou a fotografia que valeu um prémio Pulitzer a Ut: “Trabalhei arduamente para a obter, mas aquele tipo ficou com tudo.”
No documentário, o principal responsável pela suposta acreditação errónea da fotografia, Horst Faas, é descrito como “complicado, dogmático e imponente”. Diz-se que terá dito que foi Nick Ut a tirar a fotografia porque era o único fotógrafo da equipa da AP no terreno naquele dia, não querendo por isso admitir ter recorrido ao trabalho de freelancers.
AP diz que produtores do documentário não quiseram ouvir quem atesta que fotografia foi tirada por Nick Ut
Outra hipótese de justificação dissecada no documentário diz respeito a uma dívida de gratidão do chefe de fotografia da delegação da AP ao fotógrafo — que na altura tinha apenas 21 anos — e que tinha visto os dois irmãos a morrer na guerra, um deles em serviço jornalístico para a AP .
“A AP contratou-o ainda adolescente para ajudar a sustentar a família depois de outro irmão, Huynh Thanh My, ter morrido em combate numa missão para a AP em 1965”, destaca-se num relatório publicado pela própria agência a 15 de janeiro, que endereça a investigação de alegações sobre a autoria da fotografia cujo nome original é “O terror da guerra”, mas que ficou popularmente conhecida como “A rapariga do Napalm”.
“Quando a fotografia foi tirada em 1972, ‘Nick’ Huynh Cong Ut já trabalhava para a AP há seis anos, primeiro como assistente de câmara escura e, mais tarde, como fotógrafo de campo. Ut era então conhecido pelos colegas no Vietname e, de acordo com Faas, tinha desenvolvido um instinto apurado para a fotografia noticiosa, trabalhando na movimentada câmara escura de Saigão”, acrescenta-se no relatório.
Kim Phuc Phan Thi (R), sobrevivente da guerra do Vietname, também conhecida como “Napalm Girl” a ouvir o o fotojornalista Nick Ut, vencedor do Prémio Pulitzer
A AP nega o que o documentário apresentado no Sundance quer provar. “Embora várias testemunhas importantes tenham falecido, a AP falou com sete pessoas que testemunharam os acontecimentos na estrada em Trang Bang ou no gabinete da AP em Saigão, quando a fotografia foi revelada e impressa. Nenhuma das pessoas com quem a AP falou foi entrevistada para o filme”, garante a agência de notícias.
“Os que foram contactados recusaram participar, quer porque contestavam a tese de que Ut não tinha
tirado a fotografia, ou porque desconfiavam da exigência dos realizadores que exigiram a assinatura de um acordo de confidencialidade, o que não é prática jornalística”, relata-se ainda.
É ainda apresentada a história de uma destas alegadas testemunhas que, ao dar a sua versão dos acontecimentos, que ia de encontro aos créditos originais dados à fotografia, nunca mais foi contactada pela produção do documentário.
“Narrativa geral em torno da imagem tem sido consistente durante décadas”
A AP alega ainda ter examinado os negativos, que ainda tem na sua posse, da reportagem fotográfica da guerra no Vietname, e ter procurado todas as imagens disponíveis de outros fotógrafos e equipas de filmagem presentes no local no dia 8 de junho de 1972, bem como ter feito um levantamento de todas as histórias orais sobre a fotografia da “Napalm Girl”. Tudo para atestar os verdadeiros créditos da mesma.
“A narrativa geral em torno da imagem tem sido consistente durante décadas, mesmo que alguns pormenores se tenham esbatido ao longo de meio século e no meio do nevoeiro traumático da guerra: Ut trouxe os seus oito rolos de filme para o gabinete depois do bombardeamento de ‘fogo amigo’ da aldeia pelas forças sul-vietnamitas, durante o qual Kim Phuc ficou gravemente queimada”, alega-se ainda.
Publicou ainda uma seleção de outras fotografias tiradas por Ut no dia do ataque que dizem mostrar um “conjunto particularmente forte de trabalhos de uma numa vasta área à volta da aldeia”. “Ele fotografou soldados sul-vietnamitas em patrulha, cenas da aldeia enquanto decorriam os combates, pessoas comuns a fugir antes e depois do ataque e o e o sofrimento das pessoas envolvidas nos acontecimentos”, descreve-se.
Captura de ecrã do relatório “Investigating claims around ‘The Terror of War’ photograph” da Associated Press
A AP defende que, a sua prática ao longo dos anos é a prova de nunca ter demonstrado “vergonha” em publicar fotografias de populares: “Não haveria razão para atribuir o crédito a um membro do pessoal pela foto enviada por um observador.”
“A política de Faas era ser generoso com os vietnamitas para os encorajar a continuar a trazer as suas melhores fotografias para a AP no futuro”, defende ainda a agência.