Foi-se o ouro, podia ficar o bronze. Em termos lógicos, e depois da derrota de Portugal frente à Dinamarca nas meias-finais do Campeonato do Mundo de andebol, esta deveria ser a forma de análise ao que se passara na sexta-feira e ao que iria acontecer este domingo. No entanto, e como em quase tudo, há um “mas”. E esse “mas”, que na verdade eram três em conjunto, era o contexto para entender aquilo que se iria passar em Oslo no jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares. A Seleção perdeu nas meias mas teve pela frente a melhor equipa (de longe) da competição, grande favorita a sagrar-se tetracampeã mundial. A Seleção tinha agora pela frente 60 minutos para fazer ainda mais história mas contra uma França campeã europeia e beliscada no orgulho pela derrota com a Croácia. A Seleção podia ou não ganhar medalhas mas já era uma “campeã”.
Quando Portugal derrotou de forma tranquila os EUA no início da fase preliminar, quase a fazer ainda um “luto” pela forma como Miguel Martins foi suspenso por doping no dia em em que deveria começar mais uma grande competição, ficou a dúvida mais acentuada sobre até onde seria possível os Heróis do Mar navegarem pelos mares de Oslo, onde acabou por fazer toda a campanha na Unity Arena. O Brasil tinha ganho de forma surpreendente à Noruega, a Noruega queria mostrar a outra face. Ambos foram derrotadas pela Seleção. Foi aí que Paulo Pereira montou a rampa de lançamento para uma campanha a todos os níveis histórica, com o empate frente à Suécia e os triunfos com Espanha e Chile a carimbarem pela primeira vez uma presença nos quartos de um Campeonato do Mundo. Por Miguel Martins, pela baixa por lesão de Alexandre Cavalcanti, pelas figuras que ainda poderiam ajudar mas não atravessam o seu melhor momento, foi “o” feito.
Parecia quase destinado o triunfo frente à Alemanha nos quartos, num encontro com tempo extra de mais dez minutos que mostrou tudo aquilo que Portugal fez ao longo da competição. Primeiro, a grande entrada no jogo com uma defesa à prova de bala. Depois, o superar das adversidades quando viu Luís Frade expulso e mais algumas exclusões penderem a balança para o lado contrário. A seguir, a capacidade de nunca desligar da partida quando a desvantagem parecia estar a diluir-se sem retorno. Por fim, o aparecimento de quem tinha andado mais apagado durante o jogo, como Martim Costa, para assumir a partida sem medo e marcar os golos decisivos para a vitória. A partir dali, o único “impossível” era mesmo repetir a surpresa com a Dinamarca, que está a anos luz dos outros. Mas o sonho de chegar a uma medalha continuava presente.
“Embora seja muito meritório o quarto lugar, nós vamos lutar para levar esta medalha. Tal como disse no início, não queria morrer sem ter uma medalha por Portugal. Os encontros estão a deixar os jogadores cada vez com mais marcas mas jogar contra a França implica logo um plus de energia. Fizemos o campeonato todo com dois defesas centrais [Salvador Salvador e Victor Iturriza] e ambos jogavam depois também ao ataque. O impacto a que são submetidos por vezes nota-se mais com o avolumar da competição. Das últimas seis vezes que jogamos com eles desde 2019, ganhámos três e perdemos três. Agora vamos fazer o desempate e vamos ver o que podemos fazer. Vamos preparar o jogo, ver onde podemos alcançar mais um golo e onde podemos limitar mais um golo à França. Vamos ver o que podemos fazer mas vamos dar tudo em campo uma vez mais”, garantira Paulo Pereira, numa antevisão feita muito à base daquilo que tinha sido toda a prova.
Apoio não iria faltar. A falange de apoio de Portugal estaria longe daquela com que a Croácia eliminou nas meias-finais a França (o ambiente em Zagreb foi determinante para o disparar no resultado dos balcânicos) mas a Seleção tornou-se uma espécie de “equipa da moda” na competição também à boleia da história dos dois irmãos Martim e Kiko Costa, vistos por todos como o futuro da modalidade em termos mundiais. Com isso, faltava contrariar tudo o resto. Nove jogos em menos de 20 dias, um desgaste físico acumulado que já deixava marcas, a própria maior valia individual dos gauleses que deitaram tudo a perder em 30 minutos irreconhecíveis com os croatas. As memórias dos duelos com os franceses, essas, eram as melhores.
Como Paulo Pereira recordava, os últimos seis duelos desde 2020 tinham vitórias repartidas, sendo que a última tinha sorrido aos gauleses mas no Torneio de França, um particular de preparação para o Mundial. Antes, Portugal tivera três vitórias que ficaram para a história: em casa na qualificação para o Campeonato da Europa de 2020, na fase final do Europeu e, mais relevante de todos, no torneio de qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, com Rui Silva a garantir o 29-28 nos últimos instantes de jogo. Era esse capítulo que a Seleção queria prolongar quatro anos depois em Oslo, foi esse capítulo que falhou com um remate defendido de António Areia no derradeiro segundo. Entre todas as vitórias conquistadas durante 20 dias no Mundial, a Geração de Ouro só não teve o seu bronze – mas será uma mera questão de tempo.
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???????? Um desfecho histórico, uma campanha sem precedentes e um ???????????? ???????????????????? ???????????????????????????????????????????????? ???????????????? para recordar para sempre! ✨
Que orgulho, Heróis! ❤️ #heroisdomar #andebolportugal #inspiredbyhandball pic.twitter.com/rj3REGoAPl
— Federação de Andebol de Portugal (@AndebolPortugal) February 2, 2025
O encontro começou com traços típicos de confronto entre equipas que perderam nas meias, com velocidade acima da média, muitos golos e propósitos bem diferentes apresentados por França e Portugal: os gauleses sempre a apostar em transições rápidas ou ataques em menos de 30 segundos perante o 6:0 da Seleção, com remates de primeira linha ou solicitações dos pontas, os jogadores nacionais a fazerem ataques organizados mais longos à procura do poder de fogo dos irmãos Costa ou dos espaços que ficavam na segunda linha. Foi assim que a partida foi andando, com 4-3 para a França aos cinco minutos, empate aos dez e nova igualdade aos 13′, altura em que pela primeira houve três ataques consecutivos falhados com o resultado em 8-8.
5'
IL EST EN FEU ! ????
Déjà 4 buts pour Aymeric Minne !
????????5-4???????? pic.twitter.com/qR5JCqsQqD— Equipes de France de Handball (@FRAHandball) February 2, 2025
Quando Diogo Rêma defendia, Rémi Desbonnet também defendia. Quando havia uma falha técnica nacional no ataque, os franceses também faziam faltas atacantes. Quando um marcava, outro marcava. Paulo Pereira fez a primeira paragem técnica quando a eficácia global estava nos 80%, visivelmente agastado com a forma como Portugal “dava” bolas fáceis na defesa. “Eles não podem saltar aos nove metros sem nada à frente, não pode ser”, alertava o selecionador nacional quando o resultado estava ainda em 12-11. O empate veio de seguida, o pior período também: com a França a melhorar no plano defensivo e Portugal a não encontrar soluções ofensivas, os gauleses conseguiram um parcial de 3-0 para as primeiras vantagens acima de um golo da diferença com Aymeric Minne e Julien Bos em destaque. Foi só um período mau, foi um período que definiu uma primeira parte marcada pelo equilíbrio que terminou com vantagem francesa por 19-17.
30'
C'est reparti !
????????19-17???????? pic.twitter.com/XmbUGT8Py1— Equipes de France de Handball (@FRAHandball) February 2, 2025
Charles Bolzinger entrou para a baliza dos bleus no início da segunda parte e fez duas defesas num minuto, apenas menos uma do que Desbonnet… em meia hora. No entanto, com a defesa a mostrar argumentos que não mostrara na primeira parte e Capdeville na baliza, Portugal voltou a empatar e passou mesmo para a frente aos 36′, quando as duas equipas estavam com menos uma unidade (21-20). Com o mesmo mérito com que chegaram a este encontro, os Heróis do Mar estavam na luta real por uma medalha num Mundial, com 23-23 a 20 minutos do final. As forças físicas estavam a níveis diferentes, com os franceses muito mais soltos mas os portugueses a terem um coração enorme com uma parede chamada Capdeville a fazer quatro defesas consecutivas que foi segurando a Seleção quando jogava com menos um e tinha problemas no ataque.
WOW! ???? A neck and neck bronze medal game took a neck save from Charles Bolzinger to be decided ????. And it's France who climb the podium at the 2025 World Championship! ????????????#CRODENNOR2025 #inspiredbyhandball @FRAHandball pic.twitter.com/Ox8qRJQv3p
— International Handball Federation (@ihfhandball) February 2, 2025
Portugal chegou a ter dois golos de vantagem (26-24), a França conseguiu novamente empatar, houve nova paragem técnica de Paulo Pereira numa fase em que os gauleses fizeram um parcial de 3-0 em três minutos e meio. Também os gauleses paravam o jogo, com os últimos cinco minutos a chegarem com empate a 31 e tudo em aberto para a Seleção pela medalha de bronze contra um conjunto que foi ao pódio em nove dos últimos 12 Mundiais. Foi mesmo até ao derradeiro minuto, não chegou: com António Areia a não conseguir converter o ataque nos últimos segundos, a França garantiu a vitória por 35-34 e voltou a ficar no pódio num Campeonato do Mundo contra uma equipa de Portugal que está apenas a chegar onde lhe está destinado.
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???????? Uma luta de gigantes até ao último segundo. Os Heróis do Mar deram tudo e Portugal está orgulhoso! ❤️????
©️ Saša Pahič Szabó / kolektiff#heroisdomar #portugal #andebolportugal #inspiredbyhandball pic.twitter.com/QASKOuwgqk
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