Fizeram história no dia 19, quando venceram a Noruega e somaram três triunfos em três jornadas da fase de grupos. Fizeram história no dia 24, quando venceram Espanha pela primeira vez e garantiram o melhor resultado de sempre. Fizeram história no dia 29, quando venceram a Alemanha e alcançaram umas inéditas meias-finais. Esta sexta-feira, a Seleção Nacional de andebol só quer fazer com que o dia 31 também seja um dia histórico.
Contra a Dinamarca, em Oslo, Portugal tem a hercúlea tarefa de vencer os tricampeões mundiais — mas também tem o sonho inabalável de chegar a uma final de Campeonato do Mundo que seria estratosférica para toda a modalidade. Grande parte disso, dessa esperança sem limites, recai em Martim e Francisco Costa, os dois irmãos do Sporting que têm assumido enorme preponderância na Seleção Nacional de Paulo Jorge Pereira.
Com 22 e 19 anos, Martim e Francisco jogam juntos no Sporting e na Seleção e são treinados pelo pai, Ricardo Costa, que também foi jogador e internacional — assim como a mãe, Cândida Costa, que só terminou a carreira quando ficou grávida do filho mais velho. Nascidos e criados para fazerem vida do andebol, os dois irmãos são agora os nomes maiores de um grupo que só sabe fazer história.
▲ Martim e Francisco Costa partilharam um abraço depois da vitória contra a Alemanha, nos quartos de final do Mundial
A mãe jogava, o pai jogava. Os filhos só podiam jogar
Conta-nos a história que, quando se é filho de um atleta de alta competição, o futuro reserva um de dois destinos: ou se persegue a mesma alta competição, mesmo que não seja na mesma modalidade, ou se persegue algo muito longínquo. Conta-nos a história, então, que raramente existe um meio-termo. Ou tudo ou nada. E o caso da família Costa é o exemplo paradigmático de quem multiplicou o tudo por dois.
A história de Martim e Francisco, na verdade, começa com Ricardo e Cândida. Os pais dos atuais internacionais pela Seleção Nacional de andebol conheceram-se com apenas 17 anos, apresentados por um árbitro, quando ela ainda jogava no Madalenense e ele no Boavista. Cândida não demorou a saltar para o Colégio de Gaia, equipa muito relevante no panorama do andebol feminino nacional, enquanto que Ricardo chegou ao FC Porto pouco depois e quando já namoravam. Quase em conjunto, chegaram às respetivas seleções: ela foi internacional em 33 ocasiões, até terminar a carreira aos 25 anos e quando engravidou do mais velho dos irmãos, e ele em 147, sendo o oitavo jogador com mais internacionalizações por Portugal.
Se é certo que a carreira de Cândida terminou no momento em que soube que ia ser mãe pela primeira vez — ainda treinou as camadas jovens do Colégio dos Carvalhos, onde os filhos estudavam, mas seguiu caminho como professora de Educação Física —, a carreira de Ricardo não demorou a acelerar. O lateral esteve sete anos no FC Porto, de 1996 a 2003, e ainda passou duas temporadas no Águas Santas antes de rumar a Espanha para representar Algeciras e Ademar León. Despediu-se em 2012, com uma última época nos dragões, e somou um Campeonato, três Taças de Portugal e duas Supertaças. Na Seleção, esteve em três Mundiais e quatro Europeus, marcando o golo decisivo da primeira vitória de sempre em fases finais de grandes competições, no Euro 2000, contra a Eslovénia.
Martim, o filho mais velho, nasceu em 2002 e quando Ricardo Costa ainda jogava no FC Porto. Francisco, o filho mais novo que depressa se tornou simplesmente Kiko, nasceu em 2005 e quando Ricardo Costa já jogava no Algeciras. “Na alcofa já iam ver os jogos. Lembro-me perfeitamente do Kiko a gatinhar no pavilhão em Algeciras, enquanto o Martim, com três anos, andava lá a correr com os filhos dos colegas do pai”, lembrou Cândida Costa em entrevista à revista Visão, recordando a altura em que a família trocou Vila Nova de Gaia por Espanha.
A transferência de Ricardo Costa para o Ademar León, onde passou cinco anos, levou a família a mudar-se do sul para o norte de Espanha. Foi por lá que se tornaram ainda mais habituais os finais de tarde a “brincar ao andebol”, com Ricardo e Cândida a fazerem equipa contra os dois filhos. Mesmo na rua, “iam o tempo todo a fintar e a saltar, como se estivessem a jogar”, contou a mãe na mesma entrevista. Em casa, partiram-se jarras, bibelots e mesas de centro, já que a sala se tornou um “campo aberto” para jogar andebol.
O regresso a Portugal, que culminou com o fim da carreira de Ricardo Costa, fez com que Martim e Francisco entrassem finalmente em equipas de andebol. O sítio era mais do que óbvio: o Colégio dos Carvalhos, onde estudavam, onde o pai também tinha jogado e onde a mãe era professora. Em 2017, o lateral Martim deu o salto para o FC Porto, onde Ricardo Costa já tinha sido adjunto e treinador principal. Em 2020, depois de uma breve passagem pelo FC Gaia, o também lateral Francisco juntou-se ao irmão nos dragões. Ao mesmo tempo, a pandemia de Covid-19 parou o mundo — mas não parou os dois irmãos, que se empenharam em treinos consecutivos no ginásio do Colégio dos Carvalhos, onde o pai ainda era coordenador de andebol, numa preparação física que os preparou para o salto que estava quase a acontecer.
▲ Ricardo Costa, antigo lateral da Seleção Nacional, é treinador do Sporting (e dos dois filhos) desde 2021
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Do Porto para Lisboa com uma aposta numa família inteira
Em 2021, tudo mudou. Quando estava ao leme do Artística de Avanca, Ricardo Costa foi convidado pela estrutura liderada por Frederico Varandas para substituir Rui Silva e assumir o comando do andebol do Sporting. Dias antes, com apenas 18 anos, Martim Costa já tinha sido anunciado como reforço dos leões. Dias depois, com apenas 16 anos, Francisco Costa foi anunciado como reforço dos leões. Ao todo, o Sporting pagou 250 mil euros em cláusulas de rescisão ao FC Porto e fez um all in na família Costa.
Martim Costa eleito melhor jovem andebolista europeu de 2023/24
Em quatro anos, nos últimos quatro anos, pai e filhos tornaram-se um autêntico sinónimo de andebol em Portugal. Ganharam três Taças de Portugal, duas Supertaças e foram campeões nacionais na última temporada, para além das prestações impressionantes na EHF Champions League, onde o Sporting está em posição de apuramento para o playoff que dá acesso aos quartos de final. Martim Costa foi eleito o melhor jogador jovem da Europa no passado mês de novembro, Kiko Costa foi o segundo melhor jogador jovem do mundo em 2022 — mas nenhuma distinção individual tem comparação ao que têm alcançado na Seleção Nacional.
A estreia aconteceu em abril de 2022, quando Paulo Jorge Pereira convocou os dois irmãos para a eliminatória de acesso ao Campeonato do Mundo, frente aos Países Baixos. Francisco cumpriu os primeiros minutos logo na primeira mão, uma derrota em Portimão, mas Martim não saiu do banco. Na segunda mão, em Eindhoven, Portugal tinha uma margem de erro absolutamente nula.
Logo à chegada à cidade neerlandesa, ainda no aeroporto, Paulo Jorge Pereira disse a Martim que seria titular — assim como o irmão. A resposta do mais velho dos manos Costa foi avassaladora. Melhor marcador do jogo, dez golos, vitória por 35-28 e Portugal apurado para o Campeonato do Mundo. Estiveram nesse Mundial, repetiram a convocatória no Euro 2024 onde Martim Costa foi o melhor marcador com 54 golos e chegaram ao atual Campeonato do Mundo no melhor momento das respetivas carreiras.
Esta quarta-feira, horas antes do jogo épico em que Portugal eliminou a Alemanha com um golo de Martim Costa a três segundos do fim, Ricardo Costa aproveitou as redes sociais para deixar uma mensagem aos dois filhos. “Quando estamos dentro de um quarto de hotel à espera de um jogo destes, infelizmente, não temos a perceção do que estamos a fazer. Muitas vezes, a pressão não nos deixa curtir o momento. O sentimento de ‘nunca mais chega a hora’ não pode tirar o gozo que é estar a jogar a este nível. Aproveitem ao máximo, gravem esses momentos tão bonitos nas vossas mentes, ainda que a pressão não vos deixe. Contrariem isso e divirtam-se. Ouçam a melhor música no trajeto até ao pavilhão, sorriam durante o aquecimento e quando for dado o apito arregacem as mangas e vão com tudo. Vocês são os maiores de sempre e façam com que a montanha seja ainda maior para quem vem atrás”, escreveu.
Portugal ganhou e chegou às meias-finais de um Mundial de andebol pela primeira vez, escrevendo mais uma página extraordinária no percurso já impressionante da geração orientada por Paulo Jorge Pereira. Esta sexta-feira, em Oslo, o adversário é a tricampeã mundial Dinamarca. Algo que não impediu Ricardo Costa, o pai dos “maiores de sempre” que em conjunto já marcaram 81 golos na competição, de comprar bilhete para uma final onde acredita que vai ver os dois filhos.