Na cabeça da manequim Luíza Perote o “Capitão”, um chapéu preto esculpido em penas e mousseline de seda que adquire a forma de um navio. O homem ao leme desta criação é Ludovic De Saint Sernin, o nome mais recente a ocupar o lugar de designer convidado da marca Jean Paul Gaultier, de quem se escreve que conseguiu ser “mais Gaultier que Gaultier”, superando o couturier francês de 72 anos, o “enfant terrible” das marinières e do icónico soutien cónico usado por Madonna na Blonde Ambition Tour, em 1990.
Em Paris, por estes dias palco da novidades da alta-costura, Ludovic apresentou na passada quarta-feira a coleção primavera-verão 2025 com o seu toque pessoal, sucedendo a anteriores timoneiros como os designers Chitose Abe, Julien Dossena, Nicolas di Felice, Glenn Martens, Olivier Rousteing, Haider Ackermann e Simone Rocha, a quem Jean Paul foi confiando esta missão desde que se retirou da moda, em 2020.
Dos marinheiros para as ninfas, a galeria é reforçada pelas mais célebres sereias da atualidade. Em custom Jean Paul Gaultier by De Saint Sernin surgiram Aya Nakamura, artista em língua francesa que lidera no streaming; Kylie Jenner, fotografa por Stuart Winecoff; ou as modelos Hunter Schafer, Candice Swanepoel e Rosie Alice Huntington-Whiteley. Astros mais ou menos curvilínios que povoam as redes sociais e que se ajustam na perfeição aos códigos fixados por Gaultier, com a sua estética náutica que é sempre uma viagem ao bas fond e os seus atilhos, corpetes e espartilhos. Não faltaram sequer os cabelos ensopados das manequins ou os vestígios de algas, um mergulho com o dedo do hair stylist Guido Palau.
Estabelecido em Paris, Ludovic de Saint Sernin notabilizou-se com a extravagância das criações para a Balmain de Olivier Rousteing. Em 2017 estreou-se com uma linha em nome próprio. Duas temporadas mais tarde, a singularidade do trabalho valheu-lhe seleção para o prestigiado prémio LVMH. Entre o sex appeal do boudoir e a sofisticação para o dia a dia, os elementos sugestivos que povoam as suas coleções contagiaram agora o espírito Gaultier.
Corriam os primeiros anos de 1980 quando Jean Paul encontrou no mar o seu caminho, assinando a famosa coleção Boy Toy. Já em 2008, os piratas fizeram a sua entrada em cena triunfal, uma pérola a que De Saint Sernin regressou agora, entre referências a nós, caravelas, âncoras e outra iconografia essencial — e o manequim Indiana Van’t Slot em modo corsário que adere ao tule sem um pingo de complexos. Não faltaram looks que parecem encardidos pelo grão da areia e conjuntos de latex com textura crocodilo, que evocam a fase Gaultier enquanto diretor criativo da Hermès, cargo que desempenhou entre 2003 e 2010. E visuais batizados com os apropriados nomes de “The Hydra”, “The Leviathan” ou “La Mariée”, uma noiva com saia de sereia e um corpete branco adornado com penas.