A semana de Alta Costura não é para toda a gente. As entradas nos desfiles são restritas, tal como as listas de clientes, e um convite é um verdadeiro bilhete dourado ao estilo Willy Wonka. Depois é necessária uma certa resistência para combater o frio que se se faz sentir em Paris em janeiro com o amor às tendências e usar roupas leves e pele à mostra. E, já agora, há que assistir aos desfiles com a autoconfiança de quem está habituado a escolher estas peças, porque é destas passerelles que saltam as criações que brilham nas passadeiras vermelhas e nas festas mais exclusivas. Entre 22 e 25 de janeiro Paris voltou a ser palco da semana de Alta Costura e foram apresentadas as coleções primavera/verão 2024. Escolhemos oito coleções e reunimos muitas celebridades numa galeria, para mostrar um pouco da magia que por lá aconteceu.

As criações alienígenas de Schiaparelli

Daniel Roseberry andou a viajar no tempo e no espaço para criar a coleção de Alta Costura da casa Schiaparelli e depois aterrou no Petit Palais para a apresentar na passada segunda-feira e dar o arranque da semana com as propostas de primavera/verão 2024. Foi às origens da casa, ao final do século XX e até ao seu Texas natal buscar inspiração para uma coleção onde se destacam as texturas e algumas silhuetas dramaticamente exageradas. Elsa Schiaparelli era fascinada por astrologia e o seu tio, de seu nome Giovanni, era o diretor do Brera Observatory em Milão. O interesse nos astros passou da família para a casa de moda e, nesta estação, também para a passerelle em forma de homenagem, segundo assume a própria maison, e cuja coleção se chama “Schiaparalien”.

Porém salta à vista a inspiração na estética tecnológica. “Toda a coleção é uma espécie de diálogo entre o passado e o futuro”, explica o designer à Vogue e conta também que há um look que é feito com “tecnologias antigas pré-iPhone”. Placas, uma máquina calculadora, um CD e até uma pequena ventoinha que outrora arrefeceu computadores misturam-se com cristais Swarovsky e joias num puzzle que dá forma a um vestido curto, reto e de manga comprida. O vestido chama-se “The Mother” e qualquer semelhança com “motherboard” não é coincidência. Outro look conta ainda com boneco estilo robot ao colo da modelo.

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A Dior entre um vestido do fundador e o trench-coat

Como sempre, o ponto de partida de uma coleção Dior é complexo, e para esta coleção Maria Grazia Chiuri partiu do conceito de “aura” e também na definição que o autor Walter Benjamin lhe dá,  o reflexo do que torna única e autêntica uma obra de arte, e criou uma série de peças, cada uma com a sua aura. Mas há mais, a musa desta coleção é o vestido La Sigale, desenhado pelo próprio Sr. Dior para a coleção de outono/inverno 1952, com uma construção escultural e o moiré como tecido de eleição. Na prática estas inspirações traduziram-se numa coleção onde brilham os casacos estruturados, as saias rodadas, os vestidos de cintura apertada e saia ampla e ricos bordados que apetece tocar, tudo elemento básicos da linguagem Dior.

Destaque especial para uma série de looks inspirados no trench-coat para os quais as “fadas” do atelier da maison se encarregaram de tornar o tecido de algodão prático em vestidos elegantes de corte elaborado. Quanto à tradição de Chiuri de entregar a cenografia do desfile a uma artista plástica, desta vez coube a Isabella Ducrot transformar a sala do Museu Rodin onde aconteceu o desfile na instalação “Big Aura” tendo como ponto de partida trajes dos sultões otomanos.

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A dança das bailarinas Chanel

O desfile da casa Chanel mostrou uma curta-metragem, “Le button” (O botão), assinada por Dave Free e Kendrick Lamar. Conta a história de uma jovem, interpretada pela embaixadora da marca Margaret Qualley, em busca do botão perdido do punho seu casaco Chanel, e acaba com a frase: “Beauty within the imperfections of time” (Beleza dentro das imperfeições do tempo). Para Gabrielle Chanel os botões eram como joias e Virginie Viard, a designer ao leme da marca, juntou aos botões ao universo do bailado para contar a sua história para este verão.

A dança é uma companheira de viagem da maison, seja como fonte de inspiração ou como cliente de figurinos. Por isso não foi estranho ver as modelos “dançarem” na passerelle com saias esvoaçantes em leves tules de tons claros e meias brancas que davam às pernas um efeito de percelana. Claro que houve também os clássicos tailleurs, ricas texturas e peças com formas amplas que seguem o mood e convidam à liberdade de movimentos. O palco desta dança foi o Grand Palais Éphémère.

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A viagem de Armani

Ao fechar do segundo dia de semana de Alta Costura, os convidados rumaram ao Palais de Tokyo para conhecer a nova coleção de Giorgio Armani que se chamava, tal como a linha de couture do designer “Privé”. Com 89 anos o Sr. Armani continua a criar e nos bastidores, enquanto as modelos se alinhavam para entrar na passerelle, disse à jornalista Suzy Menkes: “Vais ter uma surpresa!”. A resposta estava ali à frente dela e que depois todos podemos ver, uma coleção rica em cor, com padrões florais, riscas, brilhos. “Foi como se o designer tivesse decidido divertir-se” escreveu Menkes na sua conta de Instagram.

A inspiração da coleção foram diferentes culturas do ocidente ao oriente, por isso saltam à vista referências que lembre os quimonos ou estética asiática. Esta inspiração “representa o sonho de uma mulher que é influenciada por todos os locais que visita”, escreve a marca nas redes sociais. Independentemente das influências, a coleção tem assinatura Armani, seja nos casacos estruturados, nas calças fluidas ou nos vestidos prontos para saltar para qualquer passadeira vermelha.

A coleção de Gaultier pela mão de Simone Rocha

Nesta estação foi Simone Rocha a designer convidada a criar uma coleção de Alta Costura para a casa Jean Paul Gaultier. A ideia é juntar dois estilos, e cabe ao designer que vai fazer uma espécie de residência artística na maison francesa, fazer a coleção contar uma história de acordo com o léxico Gaultier. “Eu queria fazer algo que fosse atrativo, provador, divertido, sensual, feminino e forte” disse Rocha à Vogue France. “Eu não me teria atrevido a fazer isto na minha própria coleção”, confessou também a designer a Suzy Menkes.

Foi Gaultier quem a escolheu e lá estava ele na primeira fila para ver a coleção desfilar. As referências não passaram despercebidas. Estavam lá as riscas marinheiras, mas feitas com fitas cujas pontas esvoaçavam no ar, os corpetes com atilhos, as transparências atrevidas e referências a artesanato. Até os corpetes com cones que Madonna tornou famosos a Sra. Rocha foi buscar ao baú de sucessos de Gaultier. Apresentou um modelo fiel ao original, mas também serviu versões muito próprias com espinhos. Elementos provocadores e pinceladas de sexualidade, mas com a doçura a que Simone Rocha já habituou.

A vitamina de cor de Valentino

“A coleção é um jogo de peças, um guarda-roupa moderno — as roupas do nosso tempo”, pode ler-se no comunicado da casa Valentino. Pierpaolo Piccioli dedicou à coleção um post no seu Instagram onde explica que parte da inspiração está no próprio nome, “Le Salon”, que “é o lugar, o habitat natural para tudo o que tem a ver com couture, não apenas os vestidos, mas também que observam, as modelos a andar, as costureiras a reverem obsessivamente o seu trabalho, toda a gente envolvida na elaboração”, explica o designer ao leme da marca. “Contudo, a verdadeira alma, a essência de tudo, é o que não se vê, o que é difícil de traduzir em palavras porque tem a ver com o intangível valor do tempo.”

Na coleção “Le Salon” o luxo não é ostensivo, mas é visível. Sobre uma passadeira rosa e num edifício na Place Vêndome, desfilaram looks compostos por peças a formarem blocos de cor, com ricas tonalidades, e com texturas que vão dos brilhos, ao folhos passando por plumas e simples jogos de brilhos e sombras proporcionados pelo cair dos tecidos. A coleção contou com modelos masculinos e não podia faltar a homenagem do designer aos mágicos do seu atelier que também desfilaram, envergando as batas brancas com que tornam as roupas encantadas em realidade.

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