Na estreia de Jonathan Anderson na alta-costura da Dior, a estrela (também) foi John Galliano. Há quase 15 anos que o designer foi demitido da direção criativa da maison na sequência de comentários racistas. Desde então, nunca mais esteve num desfile da marca — até esta segunda-feira, quando surpreendentemente apareceu no Museu Rodin, em Paris, para ver a coleção primavera/verão 2026 na Semana da Alta-Costura de Paris. Os ciclâmenes que o antigo diretor criativo ofereceu ao designer irlandês numa visita ao atelier antes da apresentação da sua primeira coleção feminina, em outubro, ganharam destaque, reproduzidos em brincos gigantes em cada modelo e também pelo teto do espaço, “símbolos poéticos de continuidade criativa“, diz o comunicado da Dior. “Quando eu estava na universidade, John era Deus. Ele construiu a Dior no mundo moderno. É muito bom tê-lo de volta”, destacou Anderson, antes do desfile, citado pelo New York Times.
Na alta-costura, Jonathan Anderson continua a prestar homenagem aos que passaram pela maison — seja com a recriação do vestido Miss Dior de 1949 ou na presença da silhueta da Bar Jacket num sobretudo de pele — mas, principalmente, revela uma visão muito única e própria desta nova fase Dior. Peças com silhuetas esculturais foram inspiradas, por exemplo, nas cerâmicas de Magdalene Odundo, a artista queniana conhecida pelas peças que se assemelham a partes do corpo humano. O trabalho manual vê-se nas flores recortadas da seda e reunidas em bordados densos, nos fios tecidos à mão em tweeds e no tricô, que entra para a alta-costura também para celebrar o artesanato e a experimentação. A herança e a natureza combinam-se não só no uso das flores mas nos acessórios: tecido reciclado do século XVIII cobriu carteiras de mão, e pulseiras foram cravejadas com fragmentos de meteoritos.
Para a imprensa especializada internacional, o desfile da última segunda-feira serviu para reafirmar a posição de Jonathan Anderson como um dos principais designers de moda da sua geração e consagrar as suas apostas para a Dior. Da plateia, o criador de moda irlandês recebeu o apoio não só de Galliano, mas dos membros da família Arnault, dona da LVMH, e nomes do showbizz: de Rihanna a Lauren Sánchez Bezos. Quase um ano depois de assumir as rédeas da marca, Anderson pode não ser unânime, mas mostra-se versátil e transversal.
▲ Rihanna e Jennifer Lawrence no desfile de alta-costura da Dior na passada segunda-feira
Horas antes, a Schiaparelli apresentava a sua agonia e êxtase, ou a a coleção de Daniel Roseberry inspirada na Capela Sistina. “A essência emocional desta coleção foi-me revelada durante um retiro criativo nos arredores de Roma. Certa tarde, organizei uma visita de última hora à Capela Sistina”, explica o diretor criativo da maison. “Pela primeira vez em anos, parei de pensar em como algo deveria ser, e passei a pensar em como me sinto ao criá-lo. Essa revelação influenciou cada parte desta coleção. Traços precisos e rabiscos rápidos transformaram-se em caudas de escorpião. Desenhei ferrões e dentes de cobra, arquétipos quiméricos da alta-costura com veneno. Eu sabia que essas criaturas reptilianas, se tornariam as heroínas da coleção, o nosso teto: seriam aves voadoras, desafiando a gravidade, ousadas em cores, explosivas em silhueta”, diz.
Roseberry dá o tom de Juízo Final à coleção com penas, bordados 3D, formas que imitam a cauda de um escorpião ou a presa de uma cobra, rendas recortadas à mão e bouquets de seda que dão o efeito trompe d’oeil. As suas criaturas míticas procuram referências também em arquétipos de mulheres, como o vestido “Isabella Blowfish”, inspirado na editora de moda Isabella Blow, formado com centenas de camadas de tule que dão a ilusão de um sombreado, bordados com cristais e espinhos de organza revestidos de resina aplicados sobre os ombros. “Muitas pessoas perguntam-me qual é o propósito da alta-costura. Certamente não é criar roupas para o dia a dia. Mas, para mim, a alta-costura permite-me conectar com o adolescente esperançoso que um dia fui, aquele que decidiu não seguir carreira em medicina, finanças ou direito, mas sim perseguir aquela fantasia singular que a moda ainda pode proporcionar. Que o resto do ano seja dedicado à realidade. Mas nada é mais poderoso — ou atemporal — ou, para mim, mais importante agora, do que dar asas à minha imaginação”, conclui Roseberry, que reforça os códigos da maison, ao apostar em formas e temas surrealistas e referências da natureza, além de peças clássicas como o Elsa Jacket.
Fora da passerelle o destaque foi o visual de Teyana Taylor, inspirado nas joias roubadas do Louvre em 2025. A atriz nomeada ao Óscar por Batalha Atrás de Batalha usou um vestido de renda preto sem forro que deixou em evidência as recriações da coroa e do colar com laço que pertenceram à Imperatriz Eugénia — personalidade que é considerada pioneira na alta-costura.
▲ Na plateia do desfile da Schiaparelli, Teyana Taylor "roubou" os holofotes com recriações das jóias roubadas do Louvre em 2025
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O desfile de celebridades continuou esta terça-feira, na estreia de Matthieu Blazy na alta-costura da Chanel. De Nicole Kidman a Dua Lipa, o Grand Palais encheu-se de personalidades do cinema e da moda, e também de cogumelos, num cenário típico de País das Maravilhas. Por um caminho que visto de cima fazia uma espécie de labirinto entre o público, as modelos desfilaram uma alta-costura “leve”, e que procura aquilo que Coco Chanel idealizou para a mulher moderna.
▲ O Grand Palais transformou-se num País das Maravilhas para a estreia de Matthieu Blazy na alta-costura da Chanel
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“Queria ver se, ao tirarmos as assinaturas tradicionais da Chanel — como o tweed ou os botões de joias — ainda teríamos a essência”, disse o diretor criativo da maison, antes do desfile, à WWD. Assim, o clássico coordenado de fato e saia ganha uma nova versão em chiffon nude, o tradicional vestido preto vem com um decote nas costas e a estrutura rígida do tweed transforma-se em formas e tecidos mais fluidos e transparentes. “Inicialmente tudo era mais complexo, e durante o processo de design estive sempre a retirar coisas. Tirei tudo o que parecia muito pesado. Fizemos vestidos enormes, lindos. Não é que não funcionassem, mas sentia que a mensagem não estava clara. Estávamos a perder a vista da essência da casa, que são roupas que as mulheres podem realmente usar”, explica o designer, sobre a coleção, que só foi apresentada ao mundo quatro horas depois do desfile decorrer em Paris.