Havia pelo menos duas razões para se desfazer deles. Desde logo, porque não veste o mesmo vestido duas vezes. Depois, porque aumentou de tamanho e as luxuosas peças deixaram de caber. Em plena semana de alta-costura, um acontecimento paralelo destacou-se esta quinta-feira no calendário parisiense. No hotel Bristol, Mouna Ayoub, colecionadora libanesa de 68 anos e antiga mulher do magnata saudita Nasser Ibrahim Al-Rashid leiloou 95 criações icónicas da Dior, incluindo criações malditas do consulado de John Galliano. Contas feitas, a venda rendeu, segundo a revista Vogue, uns recordistas 6,19 milhões de euros.
Socialite e filantropa, Ayoub pertence ao ultra restrito círculo que compra efetivamente alta-costura em todo o mundo, um reduto circunscrito em todo o mundo a não mais de 4 mil compradores regulares, segundo a Harpers’s Bazaar. Ao longo das três horas que durou a sessão, foi possível licitar e apreciar um acervo que foi reunindo ao longo das últimas décadas, sob o lema “The Mouna Ayoub Haute Couture Collection”, que reflete uma das mais robustas coleções privadas do género. Pelos impressionantes valores atingidos, há mesmo quem já o chame de “leilão do século”, pelo menos no que ao segmento da alta-costura diz respeito.
Segundo a Vogue Bussiness, o desfecho do evento organizado pela Maurice Auction trouxe também resultados recorde para criações de antigos diretores criativos da maison fundada por Christian Dior em 1946, como Gianfranco Ferré, John Galliano e Raf Simons. Os organizadores descreveram o leilão como uma venda definidora, sublinhando tanto a raridade das peças quanto o interesse assumido entre colecionadores deste tipo de espólio. Os vestidos com assinatura Galliano foram, aliás, dos mais cobiçados, apesar de antigas polémicas, ou talvez por isso mesmo.
A sua coleção primavera/verão 2000 “Clochards” (ou “Sem Abrigo”) combinou escândalo com tafetá e acabou por ser a estrela desta concorrida jornada no Le Bristol. Um vestido de seda pintado (na imagem em cima) ultrapassou mesmo o meio milhão de dólares, acrescentando mais uma camada a esta longa história. Quando a infame coleção foi lançada, foi recebida genericamente com choque — à exceção de Mouna, que a comprou na totalidade. “Na alta-costura, nada é demasiado caro para mim”, chegou a confessar à revista Interview.
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Para que fique claro, Ayoub não disse adeus a todo o seu arquivo Dior, uma ligação que começou ainda durante a liderança criativa de Marc Bohan. A colecionadora conservou peças mais recentes, com cunho de Maria Grazia Chiuri, bem como vestidos de Galliano de anos posteriores, dando seguimento a uma relação frutífera. “Galliano e eu começámos quase juntos com Dior. O ano em que ele chegou à Dior foi o ano em que me divorciei. Eu era muito jovem quando comecei com Dior. Mas quando Galliano chegou, eu tinha 38 ou 39 anos. Vi a sua primeira coleção e fiquei impressionado. Eu disse: “É assim que quero usar meus vestidos de agora em diante. Isto é quem eu quero ser.” Foi uma grande explosão de alegria. Ele também é um contador de histórias muito bom – cada peça tem uma história para ele. Ele tinha uma visão e uma técnica que eram iguais a ninguém.”, recordou à Interview em vésperas do leilão, lembrando a única vez em que repetiu um vestido no seu trajeto na alta-costura: aconteceu com um vestido preto Galliano, que usou primeiro na festa de aniversário do Elton John e depois no Festival de Cannes.
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A biografia de Mouna tem ela própria muita renda. Nascida no Kuwait, no seio de uma família de origem libanesa cristã, tinha 18 anos e era empregada de mesa em Paris quando conheceu o futuro marido, Nasser Ibrahim Al-Rashid, um bem sucedido empresário da Arábia Saudita, 20 anos mais velho, que a pediu em casamento poucos meses depois. Nesses anos 70, já atraída pelo mundo da alta-costura parisiense, começou a construir uma coleção de vestido Chanel e Saint Laurent. O gatilho foi a busca pelo seu primeiro vestido de noiva, uma primeira experiência com este mundo através de Jean-Louis Scherrer.
Em 1978, já convertida à religião muçulmana, as peças viajariam com Ayoub para Riade, mas o choque cultural duraria 20 anos, ao longo dos quais, garantia “nunca parou de chorar”. Sim, Al-Rashid permitia-lhe o acesso a todos os luxos, mas restritos códigos de vestuário aplicados às mulheres em solo saudita obrigavam-na a “viver escondida”.
Uma criação Dior por John Galliano © Getty Images
Mas foi esse património material que lhe permitiu ensaiar a fuga para uma nova vida. Ayoub desfez-se de joias e organizou vendas regulares dos bens que o marido lhe comprava no estrangeiro. Tornou-se rica o suficiente para investir em ações americanas e em 1995, após duas tentativas fracassadas para se separar, garantiu por fim o divórcio. Ao marido deixou uma carta. “Para mim, o casamento é mais do que jatos privados e iates”. Em 2000, num livro de 230 páginas, La Verité, tentava limpar a imagem que adquirira no médio Oriente, onde foi rotulada de acompanhante de luxo.
A libanesa regressou a Paris, onde se instalou — continuando a alimentar o seu precioso de acervo de mais de um milhar de vestidos de alta-costura. Este não foi o primeiro grande leilão promovido pela socialite. Em novembro de 2023 desfez-se de 252 vestidos Chanel, do período de 1990 a 2014, que se encontravam empacotados na sua casa no Mónaco, conforme deu conta a revista WWD. À epoca explicou que tinham deixado de lhe servir e oferecia ainda uma segunda razão. “Queria dar oportunidade às novas gerações de terem peças de alta costura desenhadas por Karl Lagerfeld.”, descreveu então.
Claro que Mouna continua a investir em alta-costura, apesar desta generosa limpeza de armário. Mal Jonathan Anderson se estreou esta semana, não hesitou: comprou-lhe um vestido preto bordado.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]