Acontecesse o que viesse a acontecer, Beyoncé já estaria a fazer história no momento em que os nomeados dos prémios Grammy de 2025 foram anunciados: sendo já a artista mais galardoada da história da Recording Academy, com 32 estatuetas, a cantora de 43 anos passou também a ser a mais nomeada de sempre, com 99 distinções, ultrapassando o marido Jay-Z. Nesta madrugada de domingo para segunda-feira, porém, cimentou ainda mais a sua lenda.
Partindo como a mais nomeada de todos os artistas que compareceram à Crypto.com Arena, não se pode afirmar que Beyoncé tenha sido a vencedora da noite: afinal de contas, conquistou “apenas” três das 11 categorias a que estava nomeada. Mas o que contará certamente para a história foi o calibre das honrarias. Depois do choque em ver o seu Cowboy Carter vencer Melhor Álbum Country, foi chamada ao palco para receber o mais prestigiado de todos os Grammy, o Álbum do Ano.
Apesar do burburinho antes desta gala ser de que à quinta tentativa seria de vez, não deixou de ser surpreendente ser neste álbum em particular que Beyoncé tenha sido distinguida com tal prémio, quando antes já tinha falhado com lançamentos como I Am… Sasha Fierce, Beyoncé, Lemonade e Renaissance. “Foram muitos, muitos anos”, admitiu no seu breve discurso, que dedicou a Linda Martell, pioneira da música country negra e que participou no álbum. Com esta vitória, Beyoncé tornou-se na primeira mulher negra desde Lauryn Hill, em 1999, com The Miseducation of Lauryn Hill, a vencer este troféu.
O único Grammy que fica a faltar a Beyoncé é o de Gravação do Ano e se a cantora não o obteve, é porque a distinção foi para o outro grande vencedor da noite: Kendrick Lamar. No decurso da disputa que dominou o verão de 2024, o seu arquirrival Drake lançou-lhe a seguinte farpa, querendo insinuar que colhia mais interesse junto da indústria e da crítica do que do público: “O Kendrick acabou de abrir a boca, alguém que lhe vá entregar um Grammy agora mesmo”. A Recording Academy tomou nota, porque o rapper recebeu mais cinco, todos eles por Not Like Us, a devastadora canção que pôs fim ao beef e singrou-o como o atual rei do hip-hop — já Drake, não logrou sequer uma única nomeação nesta edição.
Drake contra Kendrick Lamar: de onde vem este “beef” e com que canções se faz esta luta de rappers?
Como tem vindo a ser hábito nos Grammy, o grosso dos prémios a distribuir pelas dezenas de categorias ficou reservado para uma extensa pré-cerimónia que foi decorrendo à medida que os flashes continuavam a disparar na passadeira vermelha. Foi nesse preâmbulo que se ficou a saber que Lamar já não sairia de mãos a abanar, com três estatuetas por Melhor Performance Rap, Melhor Canção Rap e Melhor Videoclip. O artista não foi receber essas troféus (foi o produtor DJ Mustard em seu nome), mas o caso mudou de figura quando foi hora de entregar Canção do Ano e Gravação do Ano — e para uma breve explicação, se a primeira apenas celebra os compositores de uma determinada faixa, a segunda engloba também produtores e engenheiros de som que tenha trabalhado no estúdio.
Aí, Lamar já se encontrava de carne e osso na Crypto.com Arena, interrompendo a preparação da sua atuação iminente no intervalo do Super Bowl, a 9 de fevereiro, para celebrar “em casa”, já que não só o rapper é de Los Angeles como Not Like Us foi concebida como um forma de honrar a sonoridade da cidade. “No final de contas, nada é mais poderoso do que a música rap. Nós somos a cultura”, afirmou.
A celebração entre as cinzas
Num dos seus discursos, Lamar falou como esta cerimónia dos Grammy é “a verdadeira prova de que podemos continuar a restaurar a cidade”. Tal apontamento sinalizou como seria difícil contornar o facto da edição deste ano ocorrer meras semanas após os devastadores incêndios que deixaram vastas zonas de Los Angeles totalmente destruídas e a organização fez questão de sinalizar que, apesar de não haver adiamentos ou mudanças estruturais de planos, seria dado um particular enfoque ao tema.
Apesar do seu trabalho ser, acima de tudo, fazer rir, o comediante Trevor Noah — na quinta vez em que apresentou a cerimónia — assumiu que este ano o tom seria mais sóbrio. “Hoje não estamos apenas a celebrar a nossa música favorita”, mas também “celebrar a cidade que nos trouxe a nossa música favorita”. Além de sublinhar que os espaços de anúncios televisivos seriam ocupados por empresas locais afetadas pelos fogos, aproveitou durante várias ocasiões para pedir doações para as vítimas e chegando mesmo a cobrar ajuda à própria estação a emitir a gala, a CBS. “Vocês têm o dinheiro para isso. Vamos lá, façam alguma coisa”, apontou.
Em consonância com a solenidade do momento, a banda responsável pela atuação de abertura foram os Dawes, um duo de folk-rock de dois irmãos que perderam as casas durante os fogos. Acompanhados por um elenco que incluiu John Legend, Brad Paisley, Sheryl Crow, Brittany Howard e Annie Clarke (St. Vincent), tocaram I Love L.A., de Randy Newman, enquanto passavam imagens de pessoas a regressar às suas residências devastadas e a recuperar objetos que julgavam destruídos. Noutros momentos de homenagem à cidade, os irmãos Finneas e Billie Eilish — ambos angelenos — recordaram as zonas onde cresceram enquanto tocavam Birds of a Feather, ao passo que Lady Gaga e Bruno Mars optaram por trocar o seu mega-êxito Die With a Smile por uma versão de California Dreamin’.
Os tributos a Los Angeles e às suas gentes sucederam-se ao longo das quase quatro horas de gala, sendo o corolário quando vários membros dos bombeiros entregaram o prémio de Álbum do Ano a Beyoncé. No entanto, essa não foi a única homenagem da noite. Além do habitual In Memorium — que incluiu figuras como Liam Payne, Marianne Faithfull e Sam Moore —, um dos momentos altos deste ano foi um conjunto de atuações em honra de Quincy Jones, falecido aos 91 anos em novembro.
Quincy Jones (1933-2024): o homem que foi tudo o que quis ser
No grande regresso de Will Smith às cerimónias de prémios desde a debacle de 2022, Jones foi descrito pelo ator e rapper como “uma das figuras mais inovadoras e influentes do nosso tempo”, sendo o seu trabalho de composição e arranjo relembrado por Cynthia Erivo a cantar Fly Me to the Moon com Herbie Hancock a acompanhar ao piano ou Stevie Wonder a tocar um trecho de We Are the World. A finalizar esse momento, Janelle Monae evocou a maior das criações de Quincy Jones, Michael Jackson, a cantar Don’t Stop Till You Get Enough (com direito a moonwalking e outros passos de dança).
Janelle Monáe performs "Don’t Stop ’til You Get Enough" during the Quincy Jones tribute at the 2025 #Grammys pic.twitter.com/yvre306N38
— The Hollywood Reporter (@THR) February 3, 2025
Os alertas para uma indústria em revolução
Um dos grandes temas da indústria musical em 2024 foi o surgimento de uma nova geração de estrelas pop a reservar o seu lugar ao sol no topo das tabelas, com os nomes de Charli XCX, Sabrina Carpenter e Chappell Roan à cabeça entre as artistas mais bem sucedidas. Esta edição dos Grammy comprovou-o, pois não só foram nomeadas para várias categorias como cada uma recebeu pelo menos uma estatueta e cantou alguns dos seus êxitos que marcaram o ano transato.
Estamos todos a viver (e a cantar) o verão de Sabrina Carpenter, Charli XCX e Chappell Roan
Ao fim de vários anos a batalhar nas segundas ligas da pop — em termos de reconhecimento, isto é —, Charli XCX fez do verão de 2024 o verão brat e, como tal, foi coroada este ano como dois Grammy de nota: Melhor Gravação Dance/Pop por Van Dutch, Melhor Álbum Eletrónica/Dança por Brat. Já Sabrina Carpenter, que teve em Espresso e Please, Please, Pleasealgumas das mais ubíquas canções dos últimos meses, recebeu Melhor Performance Pop a Solo pela primeira e Melhor Álbum Pop por Short N’ Sweet.
Apesar de apenas ter vencido numa das seis categorias que disputava, Chappell Roan é uma das maiores histórias de sucesso desta edição ao vencer Artista Revelação. Recordando como a sua ascensão foi inesperada — especialmente depois da sua primeira editora, a Atlantic, dispensá-la — e das privações que passou enquanto artista independente a tentar ganhar a vida, a cantora de 26 anos alertou para uma indústria que continua a descurar os seus talentos.
Chappell Roan: "Record labels need to treat their artists as valuable employees with a livable wage and health insurance and protection. Labels, we got you — but do you got us?" https://t.co/CbojGLDvaP pic.twitter.com/JFC83pe15h
— Variety (@Variety) February 3, 2025
“Disse a mim própria que, se alguma vez ganhasse um Grammy e pudesse estar aqui em frente das pessoas mais poderosas da música, exigiria que as editoras e a indústria que lucram milhões de dólares à custa dos artistas oferecessem um salário digno e, sobretudo, cuidados de saúde aos artistas em desenvolvimento”, afirmou, sob uma chuva de aplausos. Lendo a sua mensagem de um caderno que transportava, terminou com a pergunta “Editoras, nós protegemo-vos — mas será que vocês nos protegem a nós?”
A resposta talvez ficará para outra altura, mas Harvey Mason Jr, o CEO da Recording Academy, aproveitou para falar de um tema análogo: a forma como os Grammy foram visados pelos seus processos de nomeação opacos e antiquados. Tendo assumido esta responsabilidade em 2020, quis que “a organização mudasse e se modernizasse para que pudéssemos ser melhores e servir esta comunidade musical dinâmica e global”.
Como tal, o executivo recordou que foram criados novos grupos de defesa para artistas negros, LGBTQ+ e mulheres, bem como uma base de votação mais jovem e diversificada, com 66% de novos membros. Tais mudanças sortiram efeito: um dos maiores críticos dos Grammy, the Weeknd, quebrou o seu boicote público aos prémios para um atuação surpresa.
THE WEEKND
PLAYBOI CARTITIMELESS
????LIVE AT THE GRAMMYS???? pic.twitter.com/19R5mnXGu0
— NFR Podcast (@nfr_podcast) February 3, 2025
Não tendo sido uma edição pródiga em discursos políticos — trazendo à memória uma situação idêntica nos Globos de Ouro —, aqueles que surgiram foram especialmente pungentes. Tendo vencido Melhor Performance Pop de Duo ou Grupo com Bruno Mars por Die With a Smile, Lady Gaga falou em prol das pessoas transgénero. “Só quero dizer esta noite que as pessoas trans não são invisíveis. As pessoas trans merecem amor. A comunidade queer merece ser apoiada. A música é amor”, defendeu.
No outro discurso de oposição explícita à nova administração Trump, Shakira, sem nunca evocar o nome do Presidente dos EUA, dedicou a sua vitória pelo Melhor Álbum Pop Latino por Las Mujeres Ya No Lloran “aos meus irmãos e irmãs imigrantes neste país”. “Vocês são amados, vocês valem a pena. Lutarei sempre convosco. E a todas as mulheres que trabalham arduamente todos os dias para sustentar as suas famílias — vocês são as verdadeiras lobas”, terminou, numa referência a uma das suas músicas, She Wolf.
Numa nota final, assinale-se que, fruto da queda de popularidade do rock enquanto género musical, nenhuma das suas categorias teve espaço durante a gala, sendo todos atribuídos na pré-cerimónia. E a sinalizar isso mesmo, os 13 mil votantes da Recording Academy consideraram Now and Then — a canção que Paul McCartney e Ringo Starr desencantaram do baú e restauraram através de inteligência artificial — a Melhor Performance Rock, valendo aos The Beatles um Grammy 28 anos depois da última conquista e 55 anos depois de terem terminado. Já o Melhor Álbum Rock foi para Hackney Diamonds, o 24.º longa duração dos The Rolling Stones. A distinção de Melhor Canção Rock recaiu em Broken Man, de St. Vincent. O projeto de Annie Clarke, de resto, foi outro dos grandes vencedores desta leva, ao obter também galardões pelo Melhor Álbum de Música Alternativa por All Born Screaming e pela Melhor Performance de Música Alternativa, com Flea, desse mesmo lançamento.
O grito de St. Vincent: “Isto sou eu, não tenho como escapar”
Veja aqui a lista completa de vencedores:
Gravação do Ano
- The Beatles – Now and Then
- Beyoncé – Texas Hold ’Em
- Sabrina Carpenter – Espresso
- Charli xcx – 360
- Billie Eilish – Birds of a Feather
- Kendrick Lamar – Not Like Us
- Chappell Roan – Good Luck, Babe!
- Taylor Swift – Fortnight (ft Post Malone)
Álbum do Ano
- André 3000 – New Blue Sun
- Beyoncé – Cowboy Carter
- Sabrina Carpenter – Short N’ Sweet
- Charli xcx – Brat
- Jacob Collier – Djesse Vol 4
- Billie Eilish – Hit Me Hard and Soft
- Chappell Roan – The Rise and Fall of a Midwestern Princess
- Taylor Swift – The Tortured Poets Department
Canção do Ano
- Beyoncé – Texas Hold ’Em
- Sabrina Carpenter – Please Please Please
- Billie Eilish – Birds of a Feather
- Kendrick Lamar – Not Like Us
- Bruno Mars and Lady Gaga – Die With a Smile
- Chappell Roan – Good Luck, Babe!
- Shaboozey – A Bar Song (Tipsy)
- Taylor Swift – Fortnight (ft Post Malone)
Artista Revelação
- Benson Boone
- Sabrina Carpenter
- Doechii
- Khruangbin
- Raye
- Chappell Roan
- Shaboozey
- Teddy Swim
Melhor Performance Pop a Solo
- Beyoncé – Bodyguard
- Sabrina Carpenter – Espresso
- Charli xcx – Apple
- Billie Eilish – Birds of a Feather
- Chappell Roan – Good Luck, Babe!
Melhor Performance Pop de Duo ou Grupo
- Gracie Abrams ft. Taylor Swift — us.
- Beyoncé ft. Post Malone — LEVII’S JEANS
- Charli xcx & Billie Eilish — Guess
- Ariana Grande, Brandy & Monica — the boy is mine
- Lady Gaga & Bruno Mars — Die With A Smile
Melhor Álbum Pop
- Sabrina Carpenter – Short N’ Sweet
- Billie Eilish – Hit Me Hard and Soft
- Ariana Grande — eternal sunshine
- Chappell Roan – The Rise and Fall of a Midwestern Princess
- Taylor Swift – The Tortured Poets Department
Melhor Performance Rock
- The Beatles — Now and Then
- The Black Keys — Beautiful People (Stay High)
- Green Day — The American Dream Is Killing Me
- Idles — Gift Horse
- Pearl Jam — Dark Matter
- St. Vincent — Broken Man
Melhor Álbum Rock
- The Black Crowes — Happiness Bastards
- Fontaines D.C. — Romance
- Green Day — Saviors
- IDLES — TANGK
- Pearl Jam — Dark Matter
- The Rolling Stones — Hackney Diamonds
- Jack White — No Name
Melhor Canção Rock
- The Black Keys — Beautiful People (Stay High)
- St. Vincent — Broken Man
- Pearl Jam — Dark Matter
- Green Day — Dilemma
- Idles — Gift Horse
Melhor Gravação Eletrónica / Dance
- Disclosure — She’s Gone, Dance On
- Four Tet — Loved
- Fred Again.. & Baby Keem — Leavemealone
- Justice & Tame Impala — Neverender
- Kaytranada feat. Childish Gambino — Witchy
Melhor Gravação Dance / Pop
- Ariana Grande — Yes, And
- Billie Eilish — The Love of My Life [Over Now Extended Edit]
- Charli XCX — Von Dutch
- Madison Beer — Make You Mine
- Troye Sivan — Got Me Started
Melhor Álbum Eletrónica / Dança
- Charli XCX — Brat
- Four Tet — Three
- Justice — Hyperdrama
- Kaytranada — Timeless
- Zedd — Telos
Melhor Performance Música Alternativa
- Cage the Elephant — Neon Pill
- Nick Cave & the Bad Seeds — Song of the Lake
- Fontaines D.C. — Starburster
- Kim Gordon — Bye Bye
- St. Vincent — Flea
Melhor Álbum Música Alternativa
- Brittany Howard — What Now
- Clairo — Charm
- Kim Gordon — The Collective
- Nick Cave & the Bad Seeds — Wild God
- St. Vincent — All Born Screaming
Melhor Performance R&B
- Chris Brown — Residuals
- Coco Jones — Here We Go (Uh Oh)
- Jhené Aiko — Guidance
- Muni Long — Made for Me (Live on BET)
- SZA — Saturn
Melhor Canção R&B
- Coco Jones — Here We Go (Uh Oh)
- Kehlani — After Hours
- Muni Long — Ruined Me
- SZA — Saturn
- Tems — Burning
Melhor Álbum R&B
- Chris Brown – 11:11 (Deluxe)
- Lalah Hathaway – Vantablack
- Lucky Daye – Algorithm
- Muni Long – Revenge
- Usher – Coming Home
Melhor Performance Rap
- Cardi B — Enough (Miami)
- Common & Pete Rock feat. Posdnuos — When the Sun Shines Again
- Doechii — Nissan Altima
- Eminem — Houdini
- Future, Metro Boomin & Kendrick Lamar — Like That
- Glorilla — Yeah Glo!
- Kendrick Lamar — Not Like Us
Melhor Canção Rap
- Future, Metro Boomin & Kendrick Lamar — Like That
- Glorilla — Yeah Glo!
- Kendrick Lamar — Not Like Us
- Rapsody & Hit-Boy — Asteroids
- ¥$, Kanye West, Ty Dolla $ign & Rich the Kid feat. Playboi Carti — Carnival
Melhor Álbum Rap
- Common & Pete Rock — The Auditorium Vol. 1
- Doechii — Alligator Bites Never Heal
- Eminem — The Death of Slim Shady (Coup de Grâce)
- Future & Metro Boomin — We Don’t Trust You
- J. Cole — Might Delete Later
Melhor Videoclip
- A$AP Rocky — Tailor Swif
- Charli XCX — 360
- Eminem — Houdini
- Kendrick Lamar — Not Like Us
- Taylor Swift feat. Post Malone — Fortnight
Melhor Performance Metal
- Gojira, Marina Viotti & Victor le Masne — Mea Culpa (Ah! Ça ira!)
- Judas Priest — Crown of Horns
- Knocked Loose feat. Poppy — Suffocate
- Metallica — Screaming Suicide
- Spiritbox — Cellar Door