Um dia depois de Marques Mendes se ter despedido do comentário político na SIC para preparar a sua candidatura à Presidência da República, Luís Montenegro reiterou esta segunda-feira a identificação do PSD com o perfil do agora ex-comentador.

“Já tive ocasião de dizer ainda antes de haver candidatura qual era o contexto em que o PSD iria tomar a sua decisão e tive ocasião de dizer numa entrevista que o Dr. Luís Marques Mendes preenche em absoluto os requisitos que estabelecemos para podermos estar ao lado de uma candidatura ganhadora e que dê ao país um horizonte, nos próximos anos da magistratura presidencial, que traga reforço da estabilidade política, da cooperação institucional e serviço aos portugueses e às portuguesas”, afirmou.

Em declarações à margem do retiro de líderes da União Europeia, em Bruxelas, o primeiro-ministro vincou também a sua esperança nas capacidades de Marques Mendes superar as previsões que têm sido traçadas pelas sondagens e que apontam de forma unânime o almirante Gouveia e Melo como principal favorito.

“Se fossemos fazer política tomar decisões com base nas sondagens estaríamos ao sabor do vento. Há uma coisa que podemos extrair como conclusão desses estudos: é que a eleição está aberta. Não há nenhuma dessas candidaturas que se perfila que esteja perto de obter  metade dos votos mais um, ou seja, que haja um desfecho à primeira volta”, explicou.

Na despedida do seu programa de domingo à noite, o ex-líder do PSD definiu um lema para a sua candidatura à Presidência, elogiou os que o apoiam e deixou avisos ao almirante, que confia que pode vencer.

Tarifas dos EUA? “Não é preciso ser um Prémio Nobel da Economia…”

Com alguma ironia à mistura, Luís Montenegro não deixou de fazer um reparo à anunciada intenção de Donald Trump aplicar tarifas comerciais aos produtos da União Europeia (UE). O primeiro-ministro português notou que isso vai ter repercussões negativas para os próprios Estados Unidos e que a UE precisa de assumir uma posição conjunta. “É minha convicção que o aumento das tarifas que a administração americana vem anunciando não favorece a própria economia dos EUA, mas isso é uma decisão que compete à administração e que temos de respeitar”, observou.

Sublinhando a importância de EUA e Europa manterem a capacidade de diálogo comercial e político, Montenegro garantiu que as ameaças de Trump nessa matéria “estão a ser levadas a sério”, mas que a sua concretização “não será muito auspiciosa para a consolidação de ciclos de crescimento económico que sejam duradouros”.

“A administração tem toda a legitimidade, é preciso respeitar as suas posições, mas isto é um diálogo evolutivo. Não é preciso ser um prémio Nobel da Economia para perceber que o aumento das tarifas sobre produtos que colaboram para a formação do preço do lado das indústrias americanas vai impactar um aumento de preços. Já aconteceu isso quando a primeira administração Trump esteve em funções”, lembrou.

No entender de Luís Montenegro, a Europa deve avançar com “soluções de concertação” com os EUA e que isso é necessário para os dois lados do Atlântico se manterem fortes a nível económico. Todavia, o líder do Governo destacou também os “muitos desafios” que Bruxelas enfrenta, face aos motores económicos “engripados” de França e Alemanha, e que a Europa precisa de desregular a economia para se conseguir manter competitiva.

“É preciso olhar para as questões com realismo: a Europa, nos últimos anos, teve excesso de regulamentação e objetivos talvez demasiado ambiciosos naquilo que diz respeito a ter regras similares aos outros blocos comerciais. E isso fez com que, por exemplo, em algumas tecnologias de ponta, a China e os EUA estejam mais avançados do que nós, veja-se o caso da inteligência artificial”, referiu.

Nesse sentido, apelou ao avanço em duas reformas económicas comunitárias, perante o investimento privado “altamente limitado” a nível europeu. “Por isso é tão importante terminarmos de vez a união bancária e podermos incrementar um mercado de capitais comum, porque grande parte do capital europeu é investido na bolsa de Nova Iorque. A Europa tem de ter capacidade de olhar para isto e de se entender”, concluiu.