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A melhor música que ninguém esperava: seis discos que levamos de janeiro

Este artigo tem mais de 1 ano

Canções feitas por quem a tudo dói, hip hop nervoso e sem regras, eletrónica para quem até nem gosta de eletrónica, melodias misteriosas vindas de Menorca e garage rock democrático. Há de tudo.

5 fotos

Nunca acontece nada em janeiro. O dinheiro foi estourado nas prendas e em jantares de Natal, mais as mini-férias em que se deu cabo do subsídio numa viagenzinha, naquela roupita que há muito se tinha debaixo de olho e depois ainda houve aquelas sapatilhas, porque nunca se tem demasiadas sapatilhas.

Sabem quem está muito a par de tudo isto? A indústria musical, que guarda os pesos pesados para mais tarde. Em janeiro anuncia os discos que vai lançar – o que é sempre uma festa entre os jornalistas – mas por norma esta é a época de apostar em gente nova e desconhecida, só para ver se criam público, enquanto os tubarões esperam a hora de atacar.

Exceto quando somos a mega-estrela Bad Bunny – quando somos a mega-estrela Bad Bunny lançamos um disco em janeiro porque nos apetece, porque podemos, porque sim. Mas calma que DeBÍ TiRAR MáS FOToS não foi o único disco que mereceu a nossa atenção em janeiro – e é a pensar em todos os álbuns que merecem o vosso amor e sobre os quais ainda não conseguirmos escrever que sai este texto.

“Waiting Room”

Kathryn Mohr

Nem percam um segundo com este lindíssimo Waiting Room, disco de estreia de Kathryn Mohr, se a música que gostam de ouvir for deliberadamente pop, ou pelo menos tiver produção exímia, ganchos a cada meia dúzia de compassos e explosões orelhudas no refrão.

Waiting Room é feito de desconforto, vive num mundo de minimalismo lo-fi cheio de ruído, como a ruína de uma lareira que já não acende – uma guitarra dedilhada de forma esparsa, a voz cheia prenha de tristezas: isto é música de desconforto, de quem não convive bem com a temperatura da própria pele, de quem se recusa a acreditar na imagem que o espelho devolve e escolhe olhar para dentro a custo, é música feita por quem lhe dói tudo, à maneira da Cat Power ou dos Smog dos primeiros tempos, e exige a vossa paciência e todo o vosso coração (mas sereis recompensados).

“Jump Out”

De OsamaSon

Desde que o Spotify se tornou o principal meio de consumo de música que os artistas começaram a editar discos longuíssimos, seguidos de uma edição deluxe com ainda mais faixas – a razão é simples: quanto mais faixas colocarem na plataforma mais chances têm de uma pegar e tornar-se viral. E assim chegamos aos 18 temas de Jump Out, que são manifestamente excessivos, como aliás, o hip-hop de OmasaSon é (marado seria outro adjetivo possível).

Acontece que OmasaSon compensa com faixalhões daqueles que se tem de pôr em repeat: Fool é simplesmente incrível, Round of Applause soa a uma batedeira a procriar com a banda-sonora de um videojogo, The whole world is free tem uma grande melodia no meio do mais delirante beat – beats que são das coisas mais estranhas e alucinantes dos últimos tempos e que muito possivelmente deviam qualificar com alguma forma de drogas psicadélica.

“Crazy Arms”

Pigeon Pit

É quase impossível ouvir dois compassos de Crazy Arms sem pensar “Onde é que já ouvi isto?”. As guitarras picadinhas, a voa nasalada, os guinchos, a ligeira desafinação, enfim, os truques todos acumulados em décadas de indie-rock dizem presente – e quando digo todos, isso inclui solos de harmónica. É com os Pastels que as minhas sinapses estão a estabelecer uma relação? Ou será com os Clean?

Talvez se Dylan fosse o vocalista dos Ramones e tomasse muitas anfetaminas, talvez fizesse música assim. Ou se os Go-Betweens se juntassem aos Waterboys, sim, muito possivelmente seria este o resultado, uma espécie de indie-rock semi-rural, com muitas sílabas por compasso, violinos, canções excessivas, uma festa incrível que não vai ser ouvida por ninguém e é pena, é uma pena dos diabos, porque isto merece muito amor.

“DÍA”

Ela Minus

O regresso de Ela Minus é indiscutivelmente um discos mais belos e sedutores dos últimos longos tempos, um poço de mistérios cuja recompensa está sempre no cume de um refrão inesperado. Acts of Rebelion, o disco de estreia, já deixara a promessa de feitos maiores – mas era ainda um disco de eletrónica experimental escura, a espaços sufocante.

DÍA é outra coisa: não recusa a experimentação (audível logo na primeira faixa, ABRIR MONTE), mas aceita que é possível à luz solar atravessar as nuvens e chegar aos humanos – e de repente há teclas e um BATIDÃO DAQUELES que nos dá vontade de abanar o corpo todo e berrar horas a fio, como na magistral BROKEN. Em QQQQ ouve-se espanhol e a batida volta a acelerar num 4 por 4 óbvio, fácil e gostosão. Lembramo-nos dos primeiros discos de Björk, aquele tipo de eletrónica que mesmo quem não gosta de eletrónica gosta – DÍA é isso.

“Parenòstic”

Anna Ferrer

Às vezes as dicas estão mesmo à nossa frente, nomeadamente no título: Parenòstic é uma palavra menorquina que resulta da fusão entre “pronòstic” e “parenostre” e faz referência a antigos almanaques que reuniam informação essencial: sobre colheitas, tradições locais ou previsões meteorológicas. De certa maneira é o que Parenòstic faz: vai beber à tradição e prevê o futuro, usando como modus operandi a união entre a canção tradicional e, por exemplo, a eletrónica.

Por vezes esta fica de fora, como na admirável Glosa a Menorca, assente em guitarra dedilhada e numa melodia tradicional; ou na assombrosa M’agrada s’espigolar, em que camadas e camadas de vozes se vão sobrepondo, até se criar uma cada vez maior complexidade polifónica. Não é aqui que vão encontrar aquele refrão que toda a gente irá cantar no verão, mas Parenòstic é daqueles discos que os melómanos amam – a sair da sombra, rumo à luz, sem perder um miligrama de mistério.

“Lower”

Benjamin Booker

Não é preciso mais que uma canção para saber ao que Lower vem: BLACK OPPS é uma bluesada tingida de gospel e repleta de ruído, feedback a chispar por todos os lados e um batidão. Não admira que Jack White o tenha convidado há uns anos para abrir os seus concertos, porque são certamente almas gémeas e beberam da mesma poção. Booker já soou mais garage-rock, depois em 2017, com Witness, adicionou a soul ao seu cardápio e teria sido muito fácil seguir uma carreira de revivalismo, com o seu núcleo duro de fãs e uma vida santa.

Mas Booker gosta de experimentar, de sujar as canções, de acrescentar uma dose de inesperado – e depois acontece isto: LWA IN THE TRAILER PARK é uma maravilha, cheia de eletrónica em fundo, com a melodia em registo call-and-response e um baita groove que nos põe a abanar a cabecinha e os ombros de imediato, enquanto milhentos arranjos (synths, pianos, só ele saberá tudo o que aqui enfiou) cirandam em redor da voz. Há nisto uma  certa viragem para o hip-hop, pelas batidas, pelo ruído do vinil, mas sem nunca cair completamente no género, mantendo sempre uma ligação à tradição ou, como na ótima POMPEEII STATUES unindo tradição e beats com uma classe ao alcance de poucos. Um daqueles discaços que infelizmente correm o risco de passarem despercebidos.

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