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Morreu a escritora e poetisa Maria Teresa Horta, aos 87 anos

Este artigo tem mais de 1 ano

A última das "Três Marias", uma das autoras das "Novas Cartas Portuguesas", a escritora, poetisa, jornalista e ativista pelo feminismo morreu em casa, aos 87 anos.

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Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Morreu, aos 87 anos, Maria Teresa Horta, escritora, poetisa e jornalista, confirmou o Observador esta terça-feira. A morte deveu-se a causas naturais na casa da artista.

“É com profunda tristeza e sentida mágoa que a Dom Quixote, a pedido da sua família, informa que a escritora Maria Teresa Horta faleceu, esta manhã, em Lisboa”, escreveu a editora na sua página de Facebook, destacando uma “perda de dimensões incalculáveis para a literatura portuguesa, para a poesia, o jornalismo e o feminismo, a quem Maria Teresa Horta dedicou, orgulhosamente, grande parte da sua vida”.

“Os livros de Maria Teresa Horta, esses, mantêm-se vivos e continuarão a ter o merecido lugar de destaque no catálogo da Dom Quixote”, acrescenta a editora.

A autora tornou-se numa das mais reconhecidas escritoras do país quando, ao lado de Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, lançou o livro Novas Cartas Portuguesas, em 1972. A audácia de uma obra abertamente feminista e opositora aos ditames do Estado Novo — criticando, entre outras coisas, a guerra colonial e a repressão fascista — valeu-lhes um processo judicial “por ofensa à moral pública”, tendo o livro sido apreendido, banido e censurado pelo regime.

“Novas Cartas Portuguesas”: 50 anos depois, literatura com mão no mundo

As “Três Marias”, como viriam ser conhecidas as autoras, foram sujeitas a interrogatórios na polícia e um julgamento que terminou após a revolução de 25 de Abril de 1974, com a sua absolvição.

Nascida em Lisboa, a 20 de maio de 1937, Maria Teresa Horta foi descendente, pelo lado materno, de uma família da alta aristocracia portuguesa, contando entre os seus antepassados a célebre poeta Marquesa de Alorna. Viria frequentar a Faculdade de Letras, onde integrou os círculos literários da época, fazendo parte do grupo da Poesia 61. A sua estreia literária deu-se em 1960 com Espelho inicial, seguindo-se uma prolífica produção ao longo da década.

Parte do Movimento Feminista de Portugal, seria em 1971 que a sua militância anti-regime se agudizou, quando foi alvo de violência nas ruas após publicar Minha senhora de mim, livro de poesia que subvertia o papel da mulher como objeto de desejo, tornando-a a ela no sexo dominante em relação ao homem. O livro foi também censurado e apreendido. Numa entrevista à agência Lusa, afirmou que a ideia de conceber Novas Cartas Portuguesas partiu dessa experiência, após terem-lhe dito “isto é para aprenderes a não escreveres como escreves”.

Além de escritora, desenvolveu atividade como jornalista, escrevendo para publicações como Diário de Lisboa, A Capital, República, O Século, Diário de Notícias e Jornal de Letras e Artes, entre outros. Neste rol destaca-se o seu papel a chefiar o suplemento Literatura e Arte do defunto A Capital.

A sua militância feminista estendeu-se à política partidária, tornando-se militante do Partido Comunista Português em 1975, condição que manteria até 1989, quando se deu a queda do muro de Berlim e o início do fim da União Soviética. Foi também junto das hostes comunistas que chefiou a redação da revista Mulheres, projeto editorial que lhe permitiu entrevistar mulheres de relevo da política, da cultura e da literatura, entre as quais Maria de Lourdes Pintasilgo, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras e Maria Bethânia.

Como legado poético, deixa obras como Educação sentimental, As mulheres de Abril, Rosa sangrenta, Inquietude, Poemas para Leonor e Paixão. Este último livro, a sua última públicação a título individual, em 2021, trata-se de uma homenagem ao amor pelo jornalista Luís de Barros, o seu marido, que morreu em 2019. A sua poesia foi coligida em Poesia Reunida, datada de 2009, mas também na antologia pessoal Eu Sou a Minha Poesia, de 2019.

Na ficção, além de Novas Cartas Portuguesas, destacam-se obras como os romances Ema, A Paixão Segundo Constança H., As Luzes de Leonor ou o volume de contos Meninas, além de um livro que compila as crónicas publicadas no suplemento Literatura e Arte do jornal A Capital, entre 1968 e 1972, intitulado Quotidiano Instável.

O impacto que teve na sociedade portuguesa e no movimento feminista levaram a estação pública britânica BBC a incluí-la em dezembro numa lista de 100 mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo, que inclui artistas, ativistas, advogadas e cientistas.

Maria Teresa Horta na lista da BBC das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras

Entre os prémios literários que foi acumulando constam o prémio Máxima Vida Literária por Poesia Reunida, o prémio Autores 2017, na categoria melhor livro de poesia, para Anunciações e o Prémio Literário Casino da Póvoa, que ganhou em 2021 pela obra Estranhezas. Recebeu também Prémio Máxima de Literatura e o Prémio D. Dinis 2011 da Fundação Casa de Mateus por As Luzes de Leonor, mas recusou-se a receber este segundo das mãos do então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, por considerar que este estava “a destruir o país”. Igualmente polémica foi a recusa do quarto lugar ‘ex-aequo’ do Prémio Oceanos, em 2017, por considerar que lhe tirava a dignidade.

Entre as distinções que recebeu em vida, destaca-se a Medalha de Mérito Cultural conferida pelo Ministério da Cultura em 2020 e a Grande-Oficial da Ordem da Liberdade pela mão de Marcelo Rebelo de Sousa, em 2022, Já antes, em 2004, tinha sido agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.

Maria Teresa Horta, uma escritora que deixa “um legado de liberdade”

Autora de A Desobediente, a biografia de Maria Teresa Horta, a escritora e jornalista Patrícia Reis afirmou à Rádio Observador que esta deixa “um legado de liberdade, de convicções, de democracia, de poesia, de literatura, de conversa, de estabelecer diálogo, de sermos maiores que nós próprios e que as nossas convicções, de estarmos disponíveis para o outro”.

No entanto, não obstante tratar-se de “um dos grandes nomes da literatura portuguesa”, Patrícia Reis considera que Maria Teresa Horta “não teve porventura o reconhecimento que deveria ter tido do ponto de vista dos prémios e do interesse da academia”.

“Importa dizer isto porque a Maria Teresa merecia ter tido muito mais do que teve, é uma mulher importantíssima para nós mulheres jornalistas e para nós mulheres escritoras e para todas as pessoas que advogam a causa feminista, porque ela sempre teve este posicionamento de lutar pelos direitos das mulheres”, defende.

“Maria Teresa Horta deixa um legado de liberdade”

Para Patrícia Reis, a militância de Maria Teresa Horta penalizou-a. “O facto de ser feminista não contribuiu grandemente para ter uma aura de grande escritora, porque este país também não permeia as pessoas que têm voz e a Teresa tinha uma voz, muito específica e muito forte”.

Parte dessa voz fez-se ouvir no jornalismo, uma das grandes paixões da escritora, que “foi jornalista até o fim, porque é uma forma de ver o mundo; não se está jornalista, é-se jornalista”. Patrícia Reis destacou também o seu papel pioneiro para a representação feminina na imprensa, pois “foi das primeiras mulheres a ocupar as redações de jornais”. “É preciso dizer que as mulheres até à década de 60 do século XX não tinham como entrar nas redações de jornais. Portanto, também nisso a Teresa foi pioneira. É uma perda incalculável, é um facto”, comentou.

“Maria Teresa Horta, sempre”

De futuro, a biógrafa espera que a obra de Maria Teresa Horta seja “revisitada e estudada”. “Espero que haja uma reedição e todo um carinho e acompanhamento para revisitarmos a obra e ela chegar às novas gerações”, concluiu.

O presidente da Associação Portuguesa de Escritores alinhou por uma bitola idêntica, sublinhando uma obra “nem sempre tão reconhecida quanto devia ter sido, que passa e que fica para as gerações que irão lê-la”. Em declarações à agência Lusa, José Manuel Mendes quis recordar acima de tudo “a amiga”, uma personalidade “marcada profundamente pela emoção e pela inteligência, por uma autonomia impossível de constranger”.

No seu entender, o país está de luto, incluindo esta designação “o país das letras, não só dos escritores, mas dos leitores, mas também aquele país real, sobre o qual ela nos deixou páginas inesquecíveis, no romance, como na prosa cronística e jornalística, e ainda em pormenores de particular beleza na poesia, que está reunida em diferentes volumes”.

Já a Contraponto Editores, chancela do Grupo BertrandCírculo que editou A Desobediente, reagiu à morte de Maria Teresa Horta, classificando-a como “uma das personalidades mais influentes e inspiradoras do nosso tempo”.

“Defensora incansável da liberdade e dos direitos das mulheres, numa altura em que assumir essa luta exigia uma determinação inabalável, Maria Teresa Horta deixa uma obra marcante que merece continuar a ser lida e admirada por várias gerações”, lê-se num comunicado enviado à imprensa.

Ativa, atenta, ruidosa: Maria Teresa Horta

No campo literário, Luísa Costa Gomes também reagiu à morte de uma amiga “de uma generosidade extraordinária” e que “vai deixar saudades, porque tinha muitos amigos, muitas pessoas que a admiravam e que gostavam muito dela”. À agência Lusa, a escritora de 70 anos destacou uma pessoa que “para além da importância que teve nas letras portuguesas e no movimento feminista, foi extremamente importante, uma lutadora que nunca desarmou”.

Governo e Presidência evocam a “figura notável” da escritora

O Presidente da República já reagiu à morte de Maria Teresa Horta, evocando a sua figura numa nota publicada no website da Presidência.

Nesse texto, Marcelo Rebelo de Sousa destaca a forma como as Novas Cartas Portuguesas “dessublimavam o sacrifício e a submissão, fazendo um retrato sociologicamente cru e linguisticamente inventivo da condição feminina nos anos finais da ditadura.” Foi com a publicação dessa obra que “o nome de Maria Teresa Horta ficou associado como poucos à militância feminista, tanto no domínio político-social como no literário, bem como à polémica desassombrada e à franqueza erótica”, sendo ainda destacada a sua atividade jornalística.

“À sua família e amigos, e a todas e todas que fizeram dela uma inspiração e um exemplo, apresento sentidas condolências”, termina a nota do Presidente.

A ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, também já reagiu, dizendo ter recebido “com profundo pesar” a notícia da morte de “uma das mais importantes vozes da literatura portuguesa contemporânea e uma figura notável na luta pelos direitos das mulheres em Portugal”, sublinhando como “desafiou o regime ditatorial e tornou-se um marco do feminismo português”.

“Ao longo da sua notável carreira literária, que se estendeu por mais de seis décadas, Maria Teresa Horta produziu uma obra vasta e fundamental, que inclui poesia, romance e jornalismo. A sua escrita, marcada por uma voz única e corajosa, que abordou temas como a liberdade, o corpo feminino, o erotismo e a condição da mulher na sociedade portuguesa, continuará a inspirar futuras gerações de escritores e leitores, mantendo viva a luta pela igualdade e pela liberdade de expressão”, lê-se no comunicado.

Mais tarde, o primeiro-ministro Luís Montenegro partilhou uma curta reação na rede social X, afirmando que a escritora “deixa na nossa história um importante exemplo de liberdade e luta pela valorização do lugar da Mulher” e deixando “sentidas condolências”.

O PCP, dado o historial de militância de Maria Teresa Horta no partido, também já se pronunciou através de uma nota publicada pelo seu gabinete de imprensa.

“Destacada mulher da cultura, escritora e poetisa, com extensa obra publicada — como Tatuagens, Cidadelas Submersas ou Nossa Senhora de Mim – e importante percurso enquanto jornalista com participação em diversos jornais e revistas, Maria Teresa Horta tem um rico e diversificado percurso de vida marcado por uma intervenção de resistência ao fascismo e de ativismo em defesa da emancipação da mulher”, lê-se.

Outras figuras políticas entretanto também já reagiram à morte da escritora, como o secretário-geral do Partido Socialista, Pedro Nuno Santos, que publicou na rede social X uma “homenagem sentida a uma vida dedicada ao jornalismo, à poesia e à ficção, à militância permanente e sem tréguas pelos direitos das mulheres e, em especial, à coragem inspiradora que quebrou os silêncios da ditadura e abriu caminho a quem construiu a Liberdade e Democracia”.

Na mesma plataforma, Mariana Mortágua, coordenadora do Bloco de Esquerda, singularizou a “poeta extraordinária, jornalista comprometida, antifascista convicta e feminista corajosa”, dizendo que “Maria Teresa Horta é uma daquelas pessoas a quem devemos tudo”.

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