A startup norte-americana Humane vai vender a maior parte do negócio à HP, uma transação de 116 milhões de dólares (111 milhões de euros). Em comunicado, divulgado na terça-feira, as empresas anunciam que a HP vai ficar com a “plataforma alavancada por IA Cosmos, com talento altamente especializado e com a propriedade intelectual de mais de 300 patentes e aplicações de patentes” da Humane.

A HP contextualiza que, com o  negócio, “vai acelerar rapidamente a capacidade de desenvolver uma nova geração de dispositivos que orquestram perfeitamente pedidos de IA tanto localmente como na cloud”, declara Tuan Tran, presidente de Tecnologia e Inovação da HP.

O acordo de venda é o fim da linha para o gadget fabricado pela empresa, o Ai Pin. Lançado em abril de 2024, era um pequeno dispositivo para a lapela que tinha como ambição ser um telefone sem ecrã, substituindo o smartphone como o conhecemos. Ou seja, era possível fazer chamadas, enviar mensagens de texto ou receber direções, numa interação gerida por pedidos de voz. Também tinha uma parte mais futurista, com um pequeno projetor, descrito como “Laser Ink”, a única forma de apresentar indicações visuais. Tudo para garantir que se passava menos tempo a olhar para o telefone.

Apesar dos planos ambiciosos da startup, a reação da indústria foi outra: “não funciona”, escreveu o The Verge, ou é uma “visão desajeitada e limitada do futuro”, declarou a Wired. Ou, em casos mais extremos, “é o pior produto que já testei”, como disse o youtuber Marques Brownlee. No verão de 2024, havia unanimidade em relação ao produto: apesar dos esforços, era um flop.

A maior parte das análises mencionava as mesmas questões: o aquecimento excessivo do dispositivo, as falhas de ligação ao servidor e a dificuldade em conseguir executar pedidos simples. Os Ai Pin eram vendidos por 699 dólares, cerca de 670 euros, mas muitas das análises mencionavam a dificuldade de conseguir tirar partido do investimento.

Após a aquisição, que deverá ficar concluída no fim do mês, os trabalhadores da Humane — engenheiros e arquitetos de produto — vão passar para a HP, integrando a equipa de Tecnologia e Inovação nas Organizações. Deverão também formar um laboratório chamado HP IQ, que pretende integrar ferramentas de inteligência artificial (IA) nos produtos e serviços da HP.

[No podcast “Pequenas Reivindicações de Liberdade“, a paciência da pessoa convidada é sempre posta à prova e nada a impede de abandonar o estúdio — mas o que está dito, está dito. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Ai Pin fica sem suporte dentro de 10 dias

Além do anúncio do negócio, a Humane fez uma comunicação aos clientes sobre o futuro do Ai Pin. “Estamos a anunciar-vos que, com efeitos imediatos, estamos a encerrar o comércio do Ai Pin, já que as nossas prioridades de negócio mudaram”, é possível ler. As vendas do Ai Pin cessaram imediatamente; os clientes que já têm o gadget só vão poder usá-lo com todas as funcionalidades até às 20 horas (hora de Lisboa) de 28 de fevereiro. Quem comprou o gadget há menos de 90 dias ainda pode pedir um reembolso da compra, desde que tal seja feito até 27 de fevereiro, nota o The Verge. 

“Depois disso, já não se vai ligar aos servidores da Humane e o centro de acesso vai ser totalmente descontinuado.” Ou seja, só será possível fazer tarefas locais, o que significa que o equipamento vai deixar de poder fazer chamadas, enviar mensagens ou aceder às funcionalidades de IA.

Os clientes também são encorajados a sincronizar o equipamento e a descarregar quaisquer fotos, vídeos ou notas que tenham na plataforma até 28 de fevereiro. Depois disso, todos os dados vão ser eliminados.

“Compreendemos que esta transição possa ser difícil”, admite a Humane, agradecendo “o apoio” ao gadget ao longo dos últimos meses.

A empresa foi criada em 2018 pelo casal Imran Chaudhri e Bethany Bongiorno, dois ex-trabalhadores da Apple. A dupla vai também passar a trabalhar para a HP.

A Humane promoveu os gadgets com vários anúncios e até eventos, como aconteceu na Semana da Moda de Paris. A startup conseguiu investimentos de peso ainda antes de ter um produto: 240 milhões de dólares vindos de alguns dos nomes mais conhecidos de Silicon Valley, como Sam Altman, o CEO da OpenAI, ou Marc Benioff, o CEO da tecnológica Salesforce.