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"Pórtico": excelência portuguesa

Este artigo tem mais de 1 ano

Uma revista para nos dar a conhecer a quem chega, fazendo do alinhamento dos seus números bianuais um mosaico de temas escolhidos a bom dedo para isso.

Portico representa boa "conversa" entre tradição e arrojo bem merece ser posta em evidência como pulsação vibrante num país decaído e insone, a precisar de sangue novo e cuidados intensivos
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Portico representa boa "conversa" entre tradição e arrojo bem merece ser posta em evidência como pulsação vibrante num país decaído e insone, a precisar de sangue novo e cuidados intensivos

Portico representa boa "conversa" entre tradição e arrojo bem merece ser posta em evidência como pulsação vibrante num país decaído e insone, a precisar de sangue novo e cuidados intensivos

É demasiado invulgar, para passar despercebida, a originalidade de uma empresa de construção imobiliária publicar uma revista de lifestyle com a categoria que Pórtico exibe desde que foi criada em novembro de 2021 (o sétimo número saiu em janeiro deste ano). Só por si, é certo, a Vanguard Properties tem predicados muito elevados enquanto projeto de arquitetura sustentável, ainda que assaz exclusivo, mas o facto de publicar esta revista e de ser mecenas de exposições como a do brasileiro Ernesto Neto, até há pouco tempo no MAAT, de Lisboa, distingue-a claramente no seu ramo de atividade, dirigido a um público sem dúvida restrito, a maioria do qual estrangeiros em Portugal ou a caminho do nosso país — como é de supor e não tem mal nenhum, a menos que se considere, tolamente, que devemos viver de portas fechadas ao mundo e que em vez de acabar com os pobres que se acabem com os ricos. Deste modo, Pórtico é o título mais acertado possível — uma escolha de mestres da comunicação — para nos dar a conhecer a quem chega, e a revista cumpre à perfeição esse programa, fazendo do alinhamento dos seus números bianuais um mosaico de temas escolhidos a bom dedo para isso.

A capa do primeiro número é uma reinvenção atual do barro negro por Gabriel Tan, um designer de Singapura fixado no Porto, donde trabalha para a Herman Miller, mas melhor seria dizer uma das três capas que Pórtico tem a cada edição. A segunda e terceira são uma fotografia da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos e uma tela de Pedro Cabrita Reis, da série The Winter Flowers, e desse mesmo ano 2021, uma vez que nesta estreia se incluem trabalhos sobre a arquitectura modernista de Lisboa e uma entrevista ao pintor.

“Afirmar e melhorar a perceção do valor da ‘marca Portugal’ que tanto nos orgulha” é o “desígnio nacional” (sic) desta revista nas palavras do CEO de Vanguard Proprietes José Cardoso Botelho. O editor Fernando Caetano soube escolher a excelente parceria do experimentado atelier SilvaDesigners e da Gráfica Maiadouro, e ao longo dos anos convidou um sortido de colaboradores de texto, fotografia e ilustração que, sem favor, podemos considerar como o melhor que se pode encontrar no país, identificando ao mesmo tempo — como quem estende o seu cartão de visita — os traços distintivos da nossa maneira de estar e viver e produtos portugueses.


Título:
“Pórtico”

Direção: Fernando Caetano
Editor: Vanguard Properties
Design: Silvadesigners
Páginas: 240, bilíngues

Exemplos são a filigrana de oiro de Gondomar ou da Póvoa do Lanhoso e as camélias do Norte, os barros de Estremoz, as tapeçarias de Portalegre, os antigos ex-votos e a gastronomia de influência árabe, o bacalhau e o azeite, mais os doces de massapão do Algarve, sem perder de vista — sublinhando até, pois a contemporaneidade é o tom geral de Pórtico — as reinvenções e aplicações contemporâneas da cortiça por Toni Grilo (admirável coleção Ypsilon: Pórtico, n.º 1, p. 166!) e Noé Duchaufour-Lawrance, e da produção artesanal do vidro, ou como a construção naval alcança picos de tecnologia e vanguarda numa fábrica de iates em Aveiro, ou como, “num minucioso caminho de inovação” (sic), a centenária fábrica Viúva Lamego se renova como atelier de artistas em evidência, como Bela Silva ou Ai Weiwei, e — mais ainda — como a madeira “como solução incontornável para o futuro da arquitectura e do design” (sic) ganha entre nós novos protagonistas, como Tomaz Viana, Gonçalo e Inês Lopes Cardoso, Paulo Lobo e o marceneiro e designer alemão Philipp Grundhöfer, que vive na Maia desde 2019 (artigo no n.º 5).

“A Vicara é uma das marcas portuguesas que sobressai neste novo contexto que promove a utilização do vidro e a interação entre o design contemporâneo e os experientes artesãos da Marinha Grande”, como a canadiana Amélie Girard e a espanhola Belén Uriel (Álvaro Tavares Ramos, no n.º 3, com excelentes fotografias de Ivo Rodrigues). Esta boa “conversa” entre tradição e arrojo bem merece ser posta em evidência como pulsação vibrante num país decaído e insone, a precisar de sangue novo e cuidados intensivos. E ela existe por aí, quase esmagada pelo dominante soundbyte político-partidário. No último número da revista de lifestyle do Observador (n.º 26, Dezembro de 2024, pp. 44-51), veja-se o notável caso da fábrica de móveis De La Espada, em Mira (Aveiro).

Cardoso Botelho é lapidar na apresentação do n.º 6, de 2024, onde um artigo de Marina Almeida apresenta a portuense Alcino Joalheiros, fundada em 1902: “Ao longo destas seis edições da Pórtico, temos vindo a celebrar e destacar um conjunto de produtos e serviços com origem na nossa tradição, executados com paixão, autenticidade e qualidade excepcional. — Apesar deste imenso saber-fazer e da nossa reconhecida capacidade de execução, persiste um desafio: conseguir capitalizar plenamente o valor desses produtos e assim extrair o seu máximo rendimento.” Os 150 anos da Vista Alegre são destacados logo na abertura do n.º 7, que lhe dedica nada menos que 24 páginas (pp. 30-54), antes de dar justíssima atenção ao extraordinário trabalho de recolha e exibição de letreiros comerciais em néon realizado por Rita Múrias e Paulo Barata, a merecer projeção internacional e divulgação além-fronteiras, tal como a obra da joalheira Kukas, pioneira da joalharia de autor em Portugal, referida páginas adiante.

O editor Fernando Caetano soube escolher a excelente parceria do experimentado atelier SilvaDesigners e da Gráfica Maiadouro, e ao longo dos anos convidou um sortido de colaboradores de texto, fotografia e ilustração

A passagem do fotógrafo de moda francês Georges Dambier por Portugal em novembro de 1957 (tinha 32 anos!) é lembrada no segundo número de Pórtico, e Sonia Delaunay pintora refugiada em Vila do Conde tão-pouco podia escapar a uma evocação, ainda que bastante simplificada, mas no histórico da revista ressalta claramente uma atenção aos vários artistas, designers e colecionadores/galeristas estrangeiros que nos últimos anos se fixaram em Portugal, algo que, acredito, nos pode surpreender.

Uma das capas do n.º 3, por exemplo, é uma pintura do britânico Jason Martin, que desde 2007 vive em Melides, num estúdio concebido por Eduardo Souto Moura, e pretende ter ali também uma produção vinícola, aliás seguindo a tradição familiar, criadora do Porto Taylor’s. No n.º 4, é a vez da parisiense Pauline Guerrier, com casa-atelier em Lisboa, e do designer francês Emmanuel Babled, agora galerista na Rua da Madalena em Lisboa, onde vive desde 2016, tendo já tido colaboração com a Vista Alegre e a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, de resto escola de ofícios antigos e nobres apresentada nas páginas seguintes, com um magnífico portfólio fotográfico de Vasco Célio. Antiquários portugueses como Jorge Welsh e Luísa Vinhais também são apresentados nas páginas de Pórtico a eventuais clientes estrangeiros, e idêntica atenção é dada ao colecionador e historiador de cerâmica Pedro Moura Carvalho, à loja Objectismo e à extraordinária coleção de arte bruta de Richard Treger e António Saint Silvestre, atualmente no Centro de Arte Oliva, de São João da Madeira.

Ao longo destes primeiros sete números de Pórtico — que vale a pena tentar coleccionar!… —, atenção especial tem sido dada a artistas portugueses consagrados, em entrevistas conduzidas por Isabel Lucas com Pedro Cabrita Reis, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, Rui Chafes, Daniel Blaufuks, João Louro. Mas também não faltam artigos de César Brigante ou Sandra Nunes sobre pintoras de nova geração como Constança Entrudo, Teresa Murta e Eugénia Mussa (v. os surpreendentes The Rehearsal, 2022, e Rollerblade Girls, 2003, na pp. 200 e 198 do n.º 7). E há colaborações do ilustrador André Carrilho e do fotógrafo Valter Vinagre.

Pórtico é uma surpresa e merece — sem dúvida — a nossa melhor atenção.

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